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dezembro 2003



IRAQUE

A complexa oposição armada

A oposição armada é um fenômeno dinâmico e em mutação. A dissolução dos órgãos de segurança iraquianos e as carências dos invasores em matéria de informação ofereceram seis meses aos grupos de opositores para se organizarem e convergirem


David Baran

A se acreditar no discurso oficial do governo norte-americano, a oposição armada no Iraque estaria reduzida a seus últimos batalhões ba’athistas, que teriam recebido o reforço de “terroristas” estrangeiros: centenas deles, segundo o “governador” Paul Bremer, atravessariam regularmente as fronteiras do país. Contatos, mesmo limitados, com meios de oposição são suficientes para se construir uma imagem um pouco diferente e mais complexa.

Indiscutivelmente, elementos do regime anterior formaram, de fato, células de resistentes com base em suas relações familiares e profissionais. Alguns deixaram seu posto de trabalho nos serviços de segurança com material técnico e militar. Por outro lado, eles se beneficiam dos esconderijos de armas espalhados pelo regime através do país. Contudo, não empregam uma estratégia concebida há muito tempo por um Saddam Hussein incapaz de prever sua queda...

Essas células são o produto do declínio da antiga elite no poder. Inicialmente informais, vêm se estruturando pouco a pouco, reproduzindo a hierarquia de antes da guerra. Não se deve pensar, no entanto, que a Guarda Republicana ou a Segurança Especial se fundiram no “triângulo sunita” para continuar sua guerra. Cidades como Tikrit, Beiji ou Shergat possuem muitos de seus agentes, mas a maioria pretende, como bons oportunistas, aproveitar a vida... como antes.

Resistência e terrorismo

Indiscutivelmente, elementos do regime anterior formaram, de fato, células de resistência com base em suas relações familiares e profissionais

A existência de combatentes estrangeiros tampouco deve ser desprezada. Como poderia ser diferente num país cujos órgãos de segurança foram dissolvidos e cujas fronteiras permaneceram sem proteção durante seis meses? A presença deles não é segredo para ninguém. Ela perturba a familiaridade habitual dos bairros; seus sotaques, seus hábitos discretos, as eventuais picapes que passam para pegá-los em horas tardias não deixam de apontá-los para a vizinhança. Patrocinados por iraquianos, particularmente por imames ou ricos comerciantes, eles gozam, no entanto, do medo, da indiferença ou da simpatia que inspiram.

Seria possível, por causa disso, ver neles um exército de postulantes a atentados suicidas? É necessário distinguir fedayins entusiasmados com a idéia de lutarem contra os Estados Unidos – correndo o risco de morrer na ação, como durante a própria guerra – de grupos capazes de lançar voluntários, em veículos cheios de explosivos, numa morte por desintegração. O espaçamento dos ataques dessa natureza indica que não existem, fora de nosso imaginário ocidental, reservatórios inesgotáveis de indivíduos dispostos a se fazerem explodir.

Durante a guerra, o afluxo de fedayins não produziu ondas de atentados suicidas. Aparentemente, a constelação de células de resistência saídas do regime não foi responsável por aqueles perpetrados contra o hotel Bagdá e as centrais de polícia de Bagdá. Estes trazem muito mais a marca de organizações terroristas bastante experientes. Mas uma rede do tipo da Al-Qaida teria a utilidade de centenas de elementos infiltrados, quinta coluna terrorista cujos contingentes se revelariam rapidamente supérfluos em termos logísticos e perigosos em termos de segurança?

Dever patriótico e religioso

Essas células, produto do declínio da antiga elite no poder, vêm se estruturando pouco a pouco, reproduzindo a hierarquia que existia antes da guerra

Outros atores vêm complicar o fenômeno. A começar pelos islamistas iraquianos, naturalmente em contato com seus homólogos estrangeiros. Uma junção mais inesperada se dá entre islamistas e ba’athistas, os segundos respondendo aos apelos dos primeiros para um apoio logístico e uma forma de comando. Acrescentam-se, em seguida, particulares ricos que financiam células operacionais ou que pagam simples criminosos para praticarem ataques. Enfim, golpes sem futuro são realizados por vingança, na seqüência de erros ou abusos por parte do invasor. A hipótese norte-americana de um comando central, encarnado por Saddam Hussein, ou mesmo por Izzat al-Douri, seu adjunto idoso e doente, parece, portanto, desconcertante.

O que surpreende é a extrema diversidade das motivações. Mesmo entre os supostos ba’athistas, a referência a Hussein é ambígua. As pessoas encontradas, membros do antigo aparelho de segurança, justificavam suas ações não pela perspectiva de uma volta ao poder, mas, sim, por uma mistura de dever patriótico e religioso. Em seu discurso, o ex-presidente não aparecia mais como símbolo do passado, de coragem, de unidade em meio a uma oposição marginalizada. Sua captura ou sua eliminação representaria, provavelmente, um duro golpe para os combatentes desse tipo, não em razão de suas capacidades operacionais, mas pela carga simbólica de que se reveste.

Resistência é um fenômeno dinâmico

A existência de combatentes estrangeiros também é real. Como poderia ser diferente num país cujas fronteiras ficaram sem proteção durante seis meses?

As violentas ações perpetradas são, também elas, muito diversas. A totalidade dos atentados ou assassinatos políticos não decorre de uma oposição ao invasor. Em alguns casos, sérias suspeitas pesam sobre personalidades ou partidos políticos. Em outros, os boatos não deixam de incriminar a CIA, os serviços secretos israelenses ou ainda iranianos. Assim como a imputação da violência aos ba’athistas-terroristas constituirá uma aposta fundamental para Washington, as teorias mais fantasiosas circularão. Duas conclusões se impõem a contrapé da propaganda norte-americana: a população, por enquanto, não é tomada como alvo, ainda que sofra perdas trágicas; e nenhuma operação apresentou prova de uma colaboração entre ba’athistas e “terroristas”.

Essas constatações, mesmo assim, não deixam de ser aleatórias. A oposição armada é, antes de tudo, um fenômeno dinâmico e em evolução. A dissolução dos órgãos de segurança iraquianos e as carências dos invasores em matéria de informação humana ofereceram seis meses aos diferentes grupos de opositores para se organizarem e convergirem, sem que se saiba em que medida. Os grandes bombardeios das forças de ocupação mostraram sua futilidade, ao passo que incessantes agressões os obrigavam a se adaptar a diferentes ameaças. Os comboios norte-americanos dispõem, atualmente, de um apoio aéreo de alta performance. Estradas particularmente perigosas foram dotadas, de modo eficaz, de dispositivos de segurança. As revistas são feitas com maior freqüência. Os santuários em que se entrincheiram os invasores tornam-se cada vez mais protegidos.

Humilhação simbólica do invasor

As violentas ações perpetradas são muito diversas. Em alguns casos, correm boatos incriminando a CIA, os serviços secretos israelenses ou ainda iranianos

Mas esses arranjos inspiram no adversário improvisos constantes que se refletem na evolução das técnicas de ataques e dos alvos. Essa fluidez deixa pairar o espectro mortal de perigos imprevistos: imaginemos, por exemplo, que armas químicas residuais possam ser atiradas por morteiro sobre uma concentração de tropas… Os Estados Unidos estão, pois, engajados numa espécie de corrida contra o relógio com um adversário mal conhecido. Conscientes de suas próprias falhas, apóiam-se cada vez mais em parceiros locais, informantes cooptados, serviços de segurança reativados ou partidos engajados na caça a ex-ba’athistas - é o caso do Partido Democrático do Curdistão (PDK), da União Patriótica do Curdistão (UPK), do Partido Xiita al-Da’wa, da Assembléia Suprema da Revolução Islâmica do Iraque (ASRII) etc.

Eles não ganharão essa corrida sem perdas, é claro. Seria um equívoco, entretanto, superestimar o desafio que ela representa. A oposição armada está longe de dispor de um real apoio popular. Os boatos de inúmeros raptos de soldadas norte-americanas denotam, principalmente, o prazer que muitos sentem diante da idéia de uma humilhação simbólica das forças de ocupação; do mesmo modo, algumas ações armadas espetaculares (tiro de uma salva de mísseis contra o hotel Rashid, helicópteros abatidos etc.) lisonjeiam o orgulho de muitos. Mas essas reações expressam, acima de tudo, um sentimento compreensível de dignidade vilipendiada. Na prática, a população continua essencialmente passiva (leia, nesta edição, artigo do mesmo autor sobre a presença das forças militares norte-americanas no país).

(Trad.: Iraci D. Poleti)