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dezembro 2003



LIVROS

Assassinato em Karachi

Dois livros descrevem o bárbaro assassinato de Daniel Pearl. O de sua mulher, Mariane, sem ódio ou preconceito com o islamismo e o Paquistão homenageia o marido com generosidade e energia pacífica. O do filósofo francês Bernard-Henry Levy toma o rumo contrário e ainda apresenta-se repleto de imprecisões.


William Dalrymple

A metrópole mais populosa do Paquistão, Karachi é um lugar profundamente conturbado, constantemente envolvido em surtos de matanças e seqüestros

Karachi é uma das cidades mais tristes que existe. É uma espécie de Beirute do sul da Ásia: situada à beira-mar, é uma cidade rica e até charmosa em alguns lugares; mas também é um monumento ao ódio entre as várias seitas e etnias, assim como um fracasso enquanto sociedade civil. É uma cidade que tanto está em guerra contra si mesma, quanto contra o mundo exterior. A metrópole mais populosa do Paquistão, Karachi é um lugar profundamente conturbado, constantemente envolvido em surtos de matanças e seqüestros. É uma cidade em que a polícia fica entrincheirada em fortificações de areia, por segurança, e os consulados estrangeiros parecem castelos do tempo dos cruzados – o que é precisamente como a população de Karachi os vê: as insolentes cabeças de ponte das agressivas potências alienígenas.

No consulado norte-americano, cercado por arame farpado e uma espiral de barreiras com marcas de estilhaços de granadas – o último atentado-suicida contra o prédio foi há apenas dezesseis meses –, pode se observar um mapa da Grande Karachi, esparramada em toda sua complexidade. À primeira vista, com as diferentes zonas coloridas em cores primárias, lembra os mapas de metrô de muitas capitais importantes. Só observando com maior cuidado é que se percebe que as cores significam os distintos tipos de indústria que são particularidade específica de cada bairro da cidade.

Saga sangrenta

A zona rosa, na parte oriental, é dominada pela máfia da droga de Karachi; a zona vermelha, do lado ocidental, indica a área que se destaca pela sofisticação dos seqüestros e pelas gangues especializadas em extorsão; a zona verde, ao sul, é o reduto dos grupos especializados em violência sectária. Os refugiados afegãos ligados ao fanatismo religioso da guerra santa apodrecem em campos organizados na região norte, na zona lilás. Uma lista amarela estreita, no centro da cidade – o enclave diplomático – demarca uma zona de relativa segurança, onde a tranqüilidade só é perturbada por eventuais conspirações com o objetivo de enviar cartas-bomba ou explosivos aos consulados ou mesmo eventuais bombardeios. Entre todos os postos diplomáticos norte-americanos no exterior, Karachi representa o mais alto índice de risco pessoal – com exceção de Cabul e Bagdá, ambas recentemente submetidas a experiências de invasão e ocupação por parte dos Estados Unidos. Por enquanto, isto ainda não ocorreu em Karachi, mas são poucos os lugares do mundo em que os norte-americanos são mais impopulares.

Somente a invasão e o bombardeio do Afeganistão pelos EUA conseguiu desviar a atenção para o que foi considerado um inimigo comum: os norte-americanos

Há dez anos, no início da década de 90, a cidade pôs de lado veleidades que ainda pudessem existir de unidade e coerência, embarcando numa sangrenta saga de violência comparável, às vezes, à violência da guerra civil em Beirute de vinte anos antes. Os mujahirs, originários da Índia que se estabeleceram no Paquistão após a partilha e a criação do novo Estado, voltaram-se contra seus vizinhos sindhis e punjabis1 . Os sunnis assassinavam os shias; os pobres seqüestravam os ricos. Somente a invasão e o bombardeio do Afeganistão pelos Estados Unidos conseguiu desviar a atenção para o que, na época, foi considerado um inimigo comum: os norte-americanos. Conseguia-se, finalmente, algo com que praticamente todo mundo concordava em Karachi. No início do outono de 2001, a cidade foi envolvida num frenesi de manifestações (“Morte aos norte-americanos”), durante as quais foram queimadas centenas de bandeiras dos Estados Unidos, assim como cartazes com o retrato do presidente.

A armadilha

Foi então que chegou a Karachi um jornalista norte-americano de 38 anos, idealista, com a tarefa de informar o Wall Street Journal sobre o clima de intranqüilidade. A época dessa visita não poderia ter sido mais perigosa e a tarefa não poderia ser mais arriscada para um norte-americano, em especial por ele ser judeu e ter raízes familiares em Israel. No dia 20 de janeiro de 2002, algumas semanas após sua chegada, Daniel Pearl foi atraído a uma armadilha e seqüestrado. Pouco depois, teria sua garganta cortada, ao vivo, em vídeo, após ter sido obrigado a dizer: “Meu pai é judeu. Minha mãe é judia. E eu sou judeu”. Seu corpo foi esquartejado.

Recentemente, foram lançados dois livros com a descrição deste assassinato bárbaro. Um deles é um livro de amor, escrito de uma maneira simples, mas uma homenagem comovedora a um marido assassinado, feita por uma esposa consternada e mortificada. O outro é um livro de ódio, uma denúncia exaltada contra uma cidade e um país, escrito por um homem para quem Karachi é o inferno ao vivo e o Paquistão, um país do mal absoluto. Ambos os livros são muito interessantes, embora o segundo relate fatos sem fundamento e esteja permeado de erros.

Uma mulher notável

É evidente que Mariane, a viúva de Daniel Pearl, é uma mulher notável. Grávida de cinco meses quando seu marido foi seqüestrado, ela conseguiu impressionar muita gente com seus veementes apelos aos seqüestradores pela CNN, o que fez com uma força e uma beleza extraordinárias. A trágica história que tem para contar em A Mighty Heart: The Brave Life and Death of My Husband, Danny Pearl é comovente – e ela a conta de modo simples e eficaz.

A época da visita de Pearl não poderia ter sido mais perigosa e a tarefa não poderia ser mais arriscada para um norte-americano, em especial por ele ser judeu

Ela descreve com clareza a complexidade dos fatos: como Pearl estava tentando conseguir uma entrevista com o xeque Mubarak Ali Shah Gilani, guru do terrorista Richard Reid (cujos saltos do sapato, explosivos, até hoje são motivo para que centenas de milhares de pessoas tenham que ficar descalças nos aeroportos norte-americanos, como se fosse o caso de uma fantástica festa em pijamas). Atraído a um restaurante em Karachi, Pearl foi acompanhado até um carro e depois conduzido, de olhos vendados, para uma distante creche na periferia. Ficou preso ali, acorrentado a um motor, possivelmente por uma semana, antes de ser brutalmente assassinado.

Mariane Pearl, que também foi repórter para uma rádio francesa, descreve seus esforços para localizar os assassinos do marido e o apoio que recebeu da polícia paquistanesa, do FBI e do consulado norte-americano. Ressalta o trabalho brilhante de um policial paquistanês a quem chama “capitão”, que consegue rastrear as mensagens eletrônicas dos seqüestradores até um albergue de estudantes, onde identifica o responsável: um islamita fanático chamado Omar Sheikh, com inúmeros antecedentes de seqüestros. Sheikh, conta ela, era um paquistanês de origem britânica, de uma próspera família de classe média. Freqüentou a mesma escola pública britânica que o cineasta Peter Greenaway e, em seguida, entrou para a London School of Economics. Após ter visto os horrores que se passavam na Bósnia, com muçulmanos sendo massacrados, abandonou a faculdade e resolveu militar na guerra santa (jihad). Sheikh foi detido pela polícia indiana, depois de um período de combates na região de Caxemira, quando tentava seqüestrar um grupo de turistas ocidentais em Nova Déli, em 1994. Seria solto no início do ano 2000, quando alguns companheiros seus seqüestraram um avião indiano em Katmandu. Em seguida, foi para o Paquistão, onde se filiou ao Harkat ul-Mujahedin, um grupo ativista que tivera vínculos com a Al-Qaida e o ISI, agência de espionagem paquistanesa. Aparentemente teria seqüestrado Pearl com o intuito de o utilizar numa troca por militantes islamitas presos. Posteriormente, entregou-se, confessou ter participado do seqüestro de Pearl e, atualmente, está recorrendo junto à justiça, contra a pena de morte a que foi condenado.

Vitória sobre uma tragédia

Na narrativa de Mariane, este histórico político é intercalado com registros de ordem pessoal: uma série de retrospectos descrevendo como conhecera Daniel Pearl numa festa em Paris, como se haviam enamorado, uma viagem a Cuba para levar as cinzas de sua mãe de volta ao lugar em que nascera e a decisão de se mudarem para Bombaim por conta do trabalho do marido para o Wall Street Journal. O quadro que Mariane descreve de Pearl é inteiramente convincente e ela não cai no sentimentalismo em momento algum. Apresenta Pearl como um homem liberal, um jornalista inteligente e encantadoramente brincalhão, amoroso, que gostava de tocar bandolim e via seu trabalho como uma ponte para a compreensão entre o Oriente e o Ocidente, entre o islamismo, o cristianismo e o seu judaísmo. Era, obviamente, um casal muito próximo e apaixonado; e a história de uma mulher grávida, bela e corajosa, que é obrigada a esperar dias a fio quando seu marido foi seqüestrado – e, em seguida, preso e brutalmente assassinado – é quase insuportável, do ponto de vista emotivo.

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Mariane Pearl, que também foi repórter para uma rádio francesa, descreve com clareza a complexidade dos fatos e seus esforços para localizar os assassinos do marido

Enquanto autobiografia, seu livro também é surpreendentemente contido: apesar do sofrimento e do desespero com a perda, Mariane Pearl jamais escorrega para a autocomiseração. Ainda mais notável é o fato, em homenagem aos esforços de seu marido de buscar a reconciliação das variadas culturas, de evitar qualquer tipo de ódio, tanto em relação ao islamismo, quanto ao país em que Daniel foi morto. Sua generosidade e energia pacífica – ela descreve como chegou a pensar em suicídio e decidiu não o fazer – elevam o texto da mera narrativa de uma viúva para algo de mais profundo: não apenas o de uma vitória pessoal sobre uma tragédia, mas o de uma lição de não desistir de tentar compreender.

Qualidade amadorística

O segundo livro sobre o caso, Who Killed Daniel Pearl?, do filósofo francês Bernard-Henri Levy (ou BHL, como é normalmente chamado nas colunas de fofoca da imprensa parisiense), é um trabalho mais ambicioso, com pretensões a um jornalismo investigativo original e a uma prosa de romance. Mas é consideravelmente falho, repleto de erros factuais importantes e, sob todos os aspectos, um livro menor que o de Mariane Pearl. Embora pretendendo criar uma nova forma literária – que Levy chama de romanquête, uma mistura de reportagem com o estilo literário de John Berendtö ou Truman Capote – fica claro, desde as primeiras páginas, que Bernard-Henri Levy não tem fôlego. i levanta, no entanto, questões de grande importância – embora esteja cheio de informações inventadas e sua análise política seja desinformada e simplista.

O principal problema do livro está na qualidade amadorística de grande parte da pesquisa de Levy. Na parte sobre a infância inglesa de Omar Sheikh, já se levantam algumas dúvidas sobre a idoneidade do autor: a família de Omar Sheikh, segundo Levy, estaria morando na Colvin Street, rua que não existe no guia A to Z, de Londres. No Paquistão, os dados factuais citados no livro são desencontrados. Os conhecimentos geográficos da Ásia do Sul de BHL são particularmente duvidosos: ele acha que a cidade de Muzaffarabad, capital do território de Caxemira pertencente ao Paquistão (e principal reduto do islamismo radical em solo paquistanês), é na Índia. A madrasa, escola religiosa, de Akora Khattack, que fica próxima ao rio Indo, na opinião dele está situada na província de Peshawar (que fica a mais de 150 quilômetros de distância), enquanto a cidade de Sharanpur, a quatro horas de distância, de carro, da capital indiana, ficaria na periferia de Déli.

Ignorância sobre a Ásia

Segundo Mariane, Pearl via seu trabalho como uma ponte para a compreensão entre o Oriente e o Ocidente, entre o islamismo, o cristianismo e o seu judaísmo

Mais importante ainda é que Levy logo demonstra que é profundamente ignorante no que se refere à política asiática. Abdul Ghani Lone, líder da facção moderada no território de Caxemira e que foi assassinado em 21 de maio de 2002 – muito provavelmente por radicais islamitas com apoio do ISI, por defender uma solução democrática com a Índia – é qualificado de “famigerado” e sua presença num hotel de Rawalpindi seria a prova de seus vínculos com o lado obscuro dos serviços secretos paquistaneses. Seu partido, o Hurriyat, principal força política que busca um acordo de consenso em torno da questão de Caxemira, é equivocadamente citado como sendo uma ONG ligada ao fundamentalismo islâmico. Fofocas e boatos são tomados por fatos: Osama bin Laden, por exemplo, teria estado em Peshawar em busca de assistência médica após o bombardeio de Tora Bora; algumas páginas mais à frente, Bin Laden teria ficado escondido numa madrasa de Karachi. É evidente que, se fosse verdade, se trataria de um enorme furo de informação, pois Levy teria resolvido um problema que não conseguiu ser resolvido pelo conjunto de todos os serviços de inteligência ocidentais: como Bin Laden teria sido tratado sob o nariz dos militares paquistaneses. Mas nenhuma fonte é citada, nenhuma prova é apresentada. Trata-se de uma simples observação gratuita.

Porém, há coisas mais sérias: em inúmeras ocasiões, Levy distorce os fatos e chega a inverter a verdade. Quando tenta provar que o ISI e a Al-Qaida seriam responsáveis, conjuntamente, pelo seqüestro de Daniel Pearl, ele cita três antecedentes em que jornalistas foram “seqüestrados no Paquistão por agentes do ISI suspeitos de terem o apoio da Al-Qaida”. Na realidade, em dois dos casos citados – os de Najam Sethi e de Hussain Haqqani –, ambos foram presos pela polícia civil da província de Punjab, como parte da campanha do último primeiro-ministro civil do Paquistão, Nawaz Sharif, para intimidar a imprensa. O caso do terceiro jornalista, Ghulam Hasnain, permanece um mistério: ele ficou seqüestrado por um dia apenas e em seguida foi solto. Nunca identificou as pessoas que o prenderam; mas, também, nunca foi estabelecido vínculo algum – ou sequer foi sugerido – com a Al-Qaida. A maneira incorreta como Levy trata esses fatos é reveladora de seu método de trabalho: se não existem provas, ele escreve como se existissem. O ISI já esteve envolvido em muitas operações dúbias, mas nunca se ventilou que tivesse seqüestrado ocidentais – e, principalmente, um norte-americano. Isto consistiria em provas importantes contra a existência de qualquer vínculo entre o ISI e o seqüestro de Pearl, e não o contrário.

Preconceito raso com o islamismo

Apesar do sofrimento e do desespero com a perda, Mariane Pearl jamais escorrega para a autocomiseração

Na parte final do livro, Levy apresenta uma série de teorias conspiratórias, elaboradas mas impossíveis de serem provadas. Segundo ele, Omar Sheikh teria recebido dinheiro do ISI e o teria usado para financiar os atentados de 11 de setembro de 2001. Cita um artigo escrito para o Wall Street Journal por Pearl e Steven LeVine em que os autores afirmam que um ex-diretor do ISI poderia estar envolvido na passagem de informações sobre armas nucleares para Osama bin Laden e outras pessoas no Afeganistão, controlado, à época, pelos taliban. Pearl, segundo ele, teria continuado a investigar essa história e poderia ter encontrado novas provas importantes. Por isso, diz Levy, o ISI o assassinou. Tanto o Wall Street Journal, quanto os colegas de trabalho de Pearl, fazem questão de destacar que, ao contrário das especulações de Levy, não existe qualquer prova de que Pearl estivesse continuando sua pesquisa em relação àquela história; o pai de Daniel Pearl, em entrevista ao Los Angeles Times, disse que a hipótese levantada por Levy “não bate com os fatos2”.

Através de seu livro, Levy demonstra um desprezo intermitente para com o islamismo e algo próximo de ódio para com o Paquistão. Critica, com razão, os paquistaneses por seu anti-semitismo e por considerarem Israel a encarnação do mal, mas acaba usando a mesma linguagem preconceituosa quando se refere ao Paquistão. É a “casa do demônio”, um país “drogado pelo fanatismo e pela violência”, um “inferno silencioso onde vivem os amaldiçoados” e seus “mulás de pesadelos”. Karachi é ainda pior: “um buraco negro”, repleto de “mortos-vivos”, onde “dervixes cabeludos... e fanáticos, com os “olhos esbugalhados e vermelhos de sangue”, uivam do lado de fora da “casa do demônio”. Apela para comentários sinistros para justificar esse cenário de delinqüência nacional: um ministro que entrevistou foi “extremamente amável”, mas quando pensava que BHL não estava olhando para ele, “uma centelha de ferocidade assassina brilhava em seu olhar”. Os paquistaneses comuns são retratados como asiáticos fanáticos que “fecham a cara” quando Levy passa por eles e “franzem os olhos”, com o “olhar fixo de uma tarântula”. Um homem, com um “sorriso maligno”, teria chegado a emitir um silvo, como uma serpente.

Paquistão imaginário

O livro de Levy é consideravelmente falho, repleto de erros factuais importantes e, sob todos os aspectos, um livro menor que o de Mariane Pearl

Coisa surpreendente, para um país que se destaca pelo número de belas mulheres, o Paquistão de Bernard-Henri Levy é um “mundo completamente desprovido de mulheres”. Por uma coincidência, eu estava lendo a descrição que faz Levy daquele mundo exclusivamente masculino, todos de cara amarrada, na sala de espera do aeroporto de Karachi. Olhando em volta, para as elegantes paquistanesas – jornalistas, modelos e políticas – que se encontravam na sala, cercadas por garçons oferecendo chá, fiquei imaginando se BHL estava descrevendo o mesmo país, ou mesmo se ali havia ido. No país imaginado por Levy, deve-se ter medo de todo mundo – especialmente se o cidadão em questão for escritor ou jornalista, pois, segundo ele, “este é um país em que q ualquer jornalista, enquanto tal, está em permanente risco de vida3 ”. À sua chegada, vindo do aeroporto, BHL já especulava se o fato de Daniel Pearl “ter um apartamento em Bombaim... o confirmava como inimigo do país, agente de uma potência estrangeira e, conseqüentemente, um homem a ser eliminado”.

Isso demonstra um profundo desconhecimento do sentimento nutrido pelos paquistaneses em relação à Índia – assim como da realidade do jornalismo num país em que a maioria dos correspondentes ocidentais encarregados de fazer a cobertura (inclusive, eu próprio) a vem fazendo, normalmente, a partir da capital indiana. Nestes últimos dezessete anos em que escrevi sobre o Paquistão, na maioria das vezes de minha casa, em Déli, tenho viajado pelo país inteiro e nunca encontrei senão hospitalidade – e jamais me senti pessoalmente ameaçado. É lógico que é possível encontrar um ou outro mulá, ou um general, para quem a Índia seja um lugar do mal por excelência; mas, para a maioria dos paquistaneses, a Índia é um país complicado que eles admiram e receiam. Os paquistaneses adoram as músicas dos filmes de Bolywood e assistem à televisão indiana via satélite. Vendem-se, em todos os bazares, posters de jogadores de críquete e atrizes indianos. Resumindo, a Índia seria mais uma fonte de sentimentos de inveja e de insegurança do que de ódio, embora sua enorme superioridade militar e seu domínio sobre o Vale da Caxemira sejam motivos de ansiedade e ressentimento.

Alvo errado

O principal problema do livro está na qualidade amadorística de grande parte da pesquisa de Levy. Ele logo revela sua ignorância no que se refere à política asiática.

O problema com a denúncia que Levy faz, “por atacado”, do Paquistão e de sua população é que apresenta um quadro em que não há espaço para sutileza alguma ou para detalhes. Levy erra completamente o alvo principal de que, no Paquistão, o “choque de civilizações” se dá, pelo menos no interior do país, assim como entre o país e o Ocidente. Uma elite educada, ocidentalizada, luta por manter controle sobre um país em que quase metade de sua imensa população é analfabeta e 20% são subnutridos. Além do mais, é um mundo feudal dominado por alianças de clãs e de tribos, no qual a classe média urbana é quase sempre excluída das decisões a serem tomadas.

No entanto, Levy não faz distinção entre os leigos paquistaneses e seus adversários, fundamentalistas islâmicos, ou entre os militares e os democratas, ou entre a forma de um islamismo Barelvi, tolerante, com influência sufista, que ainda é o dominante, e as formas Wahhabi e Deobandi de um outro islamismo agora ressuscitado, formas mais intolerantes e que se vêm difundindo rapidamente no Paquistão, em parte devido a um intenso financiamento das madrasas extremistas pela Arábia Saudita4 , tornando-o cada vez mais radical. É difícil compreender como é que alguém que não percebe essas distinções entre os vários elementos componentes da realidade do Paquistão pode começar a entender uma sociedade tão complexa e fragmentada.

Inspetor Clouseau

O lance mais ridículo de todos é a tentativa que faz BHL de apresentar um auto-retrato no estilo James Bond, em que ele próprio protagoniza o herói de sua história de espionagem: “Reativei as antigas redes de minhas investigações anteriores”, declara em certo momento, do alto de seu talento. Mudava de hotel todas as noites, fingia estar escrevendo um romance, para despistar, e acreditava estar sendo constantemente seguido. Em alguns momentos, esta farsa se aproxima da paródia do inspetor Clouseau à auto-importância gaulesa e torna-se difícil ler algumas das observações de Levy sem ouvir o eco de Peter Sellers: “Para onde quer que eu vá, sinto que ele já esteve lá – apesar de nunca encontrar vestígios de sua presença. A cada passo que dou, sinto sua presença – mas esta é tão imaterial quanto as sombras.” A esta altura, o leitor quase espera que o empregado chinês de Clouseau, Kato, salte de dentro de um armário em Karachi para atacar, com suas artes marciais, o intrépido Levy.

Na parte final do livro, Levy apresenta uma série de teorias conspiratórias, elaboradas mas impossíveis de serem provadas

É alarmante pensar que a ignorância sobre o islamismo, em geral, e sobre o Paquistão, em particular, está de tal maneira difundida que, entre as muitas resenhas que vi do livro nos Estados Unidos, apenas uma, feita por um escritor paquistanês, chamava a atenção para os erros e lacunas de BHL – entre as outras, ninguém pareceu se preocupar com suas inquietantes expressões de desprezo para os paquistaneses comuns5 . Se está em pauta o combate ao terrorismo islamita, deveriam ser claramente compreendidas, em primeiro lugar, suas causas e os próprios terroristas. Ao invés disso, Who Killed Daniel Pearl? não só é um insulto à memória de um bom jornalista, que se recusava a aceitar o tipo de estereótipo étnico que agrada a Levy e que era conhecido pelo rigor com que apurava os fatos. Isso demonstra até onde é possível a um escritor, a partir de 11 de setembro de 2001, listar observações incorretas e depreciativas sobre muçulmanos e paquistaneses, como se isto fosse perfeitamente normal e aceitável.

Aspectos sórdidos

Entretanto, apesar de seu desleixo para com os fatos e de suas insustentáveis teorias conspiratórias, Levy levanta uma questão importante, o que também faz Mariane Pearl em seu livro. Os sórdidos aspectos que envolvem o assassinato de Daniel Pearl estabelecem com clareza a cumplicidade do Estado paquistanês, de forma geral, e do ISI, em particular, numa presença contínua, e apoio, aos inúmeros grupos de islamitas que pregam a violência em território paquistanês. Ao contrário do que Levy tenta provar, é bastante improvável que o ISI esteja diretamente envolvido no seqüestro e assassinato de Pearl, mas também é bastante improvável que Omar Sheikh, sobejamente conhecido por ser um extremista violento, estivesse vivendo no Paquistão sem o conhecimento e apoio dos serviços secretos paquistaneses. Sheikh poderia muito bem ter estabelecido vínculos com o ISI em seus tempos de estudante, em Londres, e certamente o fez quando se juntou ao grupo Harkat ul-Mujahedin, que atuava na Caxemira e, quase com certeza, recebia apoio do ISI. Após ter sido solto da prisão, na Índia, devido ao seqüestro do avião da India Airlines, sua posição como quadro da guerra santa se tornou amplamente conhecida e não lhe teria sido possível entrar ou estabelecer-se no Paquistão sem o assentimento do ISI. Existem outros indícios de que Sheikh seria mais do que meramente tolerado pelo ISI. Quando a polícia paquistanesa começou a fechar o cerco sobre ele, um mês após o seqüestro, ele evitou a prisão, entregando-se formalmente ao brigadeiro Ijaz Shah, funcionário superior do ISI e que havia sido o intermediário com o Harkat na época em que Sheikh estava na Caxemira.

Depois que se entregou, no dia 5 de fevereiro, Sheikh foi interrogado pelo ISI, em sigilo, durante uma semana, antes de ser entregue à polícia paquistanesa em 12 de fevereiro. Isto não só sugere que seu caso foi tratado por funcionários do mais alto escalão dos serviços secretos paquistaneses, como demonstra o pouco interesse que tinha o ISI em ajudar a polícia a elucidar o crime. Quando se rendeu, provavelmente Pearl tinha acabado de ser assassinado. Caso o ISI tivesse agido com rapidez, entregando-o à polícia ao invés de adotar táticas que pareciam destinadas a procrastinar uma solução, talvez tivesse sido possível capturar toda a rede de islamitas radicais responsável pela morte de Pearl.

Desconforto das autoridades

Através de seu livro, Levy demonstra um desprezo intermitente para com o islamismo e algo próximo de ódio para com o Paquistão

Para aumentar o desconforto das autoridades paquistanesas, surgiram provas – algumas delas, após a publicação destes dois livros – de que Al-Qaida esteve diretamente envolvida nos últimos lances da tragédia de Daniel Pearl6 . O seqüestro propriamente dito foi planejado por Omar Sheikh, utilizando combatentes islamitas de vários dos grupos de militantes que existem em Karachi, provavelmente com a intenção de usar Pearl, enquanto refém, para negociar uma troca de presos. Segundo informações mais recentes, entretanto, o assassinato de Pearl teria, aparentemente, sido obra de um grupo completamente diferente, liderado por Khalid Sheikh Mohammed, um dos braços direitos de Bin Laden e supostamente um dos planejadores dos atentados de 11 de setembro, que foi preso em Rawalpindi em março de 2003. De acordo com o depoimento do zelador do prédio em que Pearl se encontrava detido e segundo relatórios das autoridades norte-americanas sobre o interrogatório de Khalid Sheikh Mohammed, ele teria tido a ajuda de três assassinos árabes. Tanto Levy quanto Mariane Pearl dizem que eles eram iemenitas, mas de acordo com fontes dos serviços secretos, dois seriam sauditas e o terceiro, iemenita. As mesmas fontes afirmam que as escutas instaladas nos telefones celulares revelam que o assassinato ocorreu após uma série de chamadas para a Arábia Saudita. Não ficou claro para quem esses telefonemas foram feitos, mas é possível presumir que eles estivessem aguardando a autorização de alguém em Riad.

Muitos detalhes sobre o seqüestro e o assassinato de Pearl permanecem desconhecidos, mas um levantamento preliminar do que lhe aconteceu teria que levar em conta os seqüestros anteriormente realizados por Omar Sheikh e que tiveram o objetivo de conseguir a libertação de militantes da Caxemira presos na Índia. Parece provável que ele tivesse os mesmos motivos ao planejar o seqüestro de Pearl, uma vez que este entrara em contato com ele, através de um intermediário paquistanês, para tentar entrevistar o líder religioso que seria o guru de Richard Reid. Omar iludiu Pearl, fazendo-se passar pelo emissário do guru. Tanto a decisão final de matar Pearl, como quem o matou, continuam objeto de especulação. Uma séria possibilidade é de que Omar tenha perdido controle sobre o seqüestro a partir do momento em que Khalid Sheikh Mohammed e a Al-Qaida se interessaram por ele, após a ampla divulgação do desaparecimento de Pearl. Ele poderia ter sido assassinado em represália às perdas dos taliban e da Al-Qaida no Afeganistão, especialmente depois que foi revelado o fato de ser judeu numa matéria de um jornal paquistanês no final de janeiro.

Vínculo com serviço secreto

Levy não faz distinção entre os leigos paquistaneses e seus adversários, fundamentalistas islâmicos, ou entre os militares e os democratas

Embora as autoridades paquistanesas venham cooperando com os Estados Unidos na perseguição à Al-Qaida e tentem parecer fiéis aliados na “guerra ao terrorismo” de George W. Bush, existe a suspeita, constrangedora, de que Daniel Pearl parece ter sido seqüestrado por alguém com fortes vínculos com os serviços secretos paquistaneses e que também estaria operando em estreita colaboração com Khalid Sheikh Mohammed, uma das figuras de maior proeminência no comando central da Al-Qaida.

O Paquistão é uma nação que se sente sob a ameaça mortal de seu vizinho gigante, a Índia, e seus militares desenvolveram uma dupla estratégia para se protegerem desse perigo latente. De um lado, precisam desesperadamente de uma aliança com Washington, fonte de grande parte do equipamento de seu exército, de sua marinha e de sua força aérea. De outro, eles vêem a insurreição na Caxemira, liderada por extremistas islâmicos, como a alternativa mais eficiente no sentido de deter o imenso exército indiano, que jamais poderiam esperar vencer num conflito convencional7 .

Para atingir esse objetivo, o ISI dispõe de um potencial considerável de grupos de combatentes islamitas. Embora a Al-Qaida tenha ocupado as manchetes desde o 11 de setembro de 2001, existem dúzias de organizações semelhantes, compostas de islamitas radicais que vêm sendo treinados, desde a década de 80, próximo à fronteira com o Afeganistão. Muitas delas são dirigidas pelo ISI e, no começo, foram financiadas pela CIA (uma projeção confiável avalia essa contribuição norte-americana em 7 bilhões de dólares8 ) e posteriormente, após a retirada das tropas soviéticas, pelos serviços secretos sauditas. Até o 11 de setembro, o Paquistão também se utilizava de combatentes islamitas para apoiar os taliban, simpáticos ao regime paquistanês, em Cabul.

Admiração por Bin Laden

Surgiram provas – algumas delas, após a publicação destes dois livros – de que Al-Qaida esteve diretamente envolvida nos últimos lances da tragédia de Daniel Pearl

Fui a Islamabad entrevistar o general Hamid Gul, ex-diretor do ISI, sobre a questão. Islamita fervoroso desde a década de 80, Gul foi o principal responsável pela formação de um serviço de inteligência no Paquistão. Já na casa dos sessenta anos, com um bigodinho grisalho, Gul mora num agradável bairro de subúrbio de Islamabad. No centro de sua sala de visitas há um enorme pedaço do Muro de Berlim que lhe foi oferecido pelo povo berlinense por ter “dado o primeiro golpe” no império soviético – uma referência a seu trabalho, quando dirigia o ISI, de dirigir os mujahidin que expulsaram os soviéticos do Afeganistão.

Gul fala com sinceridade e não esconde sua amizade e admiração por Osama bin Laden. Sua descrição dele é a de “uma pessoa romântica... sensível, humilde e delicada. Foi formado pela CIA com muito carinho: eles o admiravam. Um príncipe que abriu mão do luxo e foi viver em cavernas e cabanas em nome de uma causa nobre. Eu escutava muito falar dele, da parte de todo o pessoal da CIA que ficava aqui – agentes, funcionários. Sempre o convidavam para as festas na embaixada”.

Os combatentes islamitas

Omar iludiu Pearl, fazendo-se passar pelo emissário do guru. Tanto a decisão final de matar Pearl, como quem o matou, continuam objeto de especulação

Em relação ao assassinato de Pearl, como era de se esperar, ele insistiu que “o ISI nunca se envolveu no assassinato de ocidentais – não é o tipo de operação que deva ser feita”. Mas em relação ao envolvimento do ISI na Caxemira, Gul foi muito franco e falou sem rodeios: “Se incentivam a população da Caxemira, é compreensível”, disse. “A população da Caxemira se rebelou em apoio à carta de princípios das Nações Unidas e um dos objetivos nacionais do Paquistão é o de ajudá-los a se libertarem. A Índia é tão imensa, tão grande, tão desumana. Se os combatentes islamitas forem em frente e conseguirem deter o exército indiano em seu próprio território, em nome de uma causa legítima, por que não os deveríamos apoiar?”

É aqui que está a questão. Paralelamente à aliança com Washington, o Paquistão mantém uma política de uso seletivo de combatentes islamitas radicais. Trata-se de uma contradição que vem se tornando cada vez mais difícil para o Paquistão resolver.

Além do mais, os combatentes islamitas apoiados pelo Paquistão não são fáceis de dirigir nem de conter. O ISI pode acreditar na utilização de homens como Omar Sheikh para atingir seus objetivos na Caxemira ou no Afeganistão, mas, como ficou demonstrado com o assassinato de Daniel Pearl, os islamitas tendem a priorizar seus interesses que, muitas vezes, não coincidem e são contrários aos interesses nacionais do Paquistão. Os diferentes grupos de combatentes islamitas cresceram para além do controle de seus vários criadores, superando-os em astúcia, e conseguiram trazer pânico e destruição não só ao território indiano da Caxemira, mas ao próprio Paquistão, que lhes deu vida, em sua tentativa de destruir o que sobrou da sociedade civil paquistanesa. Nos últimos dez anos, em nome de objetivos religiosos, milhares de chacinas foram cometidas no Paquistão por combatentes islamitas treinados em campos instalados em seu próprio território. Um dos ajudantes de Omar Sheikh no seqüestro de Pearl, por exemplo, foi um assassino chamado Naeem Bukhari, procurado pela polícia paquistanesa pelo assassinato de dúzias de xiitas em Karachi.

Política de dois gumes

Existe a suspeita, constrangedora, de que Pearl parece ter sido seqüestrado por alguém com fortes vínculos com os serviços secretos paquistaneses e com a Al Qaida

Existem sérios indícios de que o presidente Musharraf tem consciência da ameaça que representam os combatentes islamitas à existência do Paquistão, enquanto país governável e com um poder central. Ele substituiu muitos dos generais do ISI pró-islamitas, inclusive o diretor, Mahmud Ahmed. Além disto, as autoridades paquistanesas vêm cooperando de forma mais estreita com os Estados Unidos, prendendo alguns árabes e outros suspeitos de pertencerem à Al-Qaida, entre os quais Khalid Sheikh Mohammed.

Mas a política do Paquistão em relação à questão da Caxemira permanece fundamentalmente a mesma e grandes unidades de combatentes do taliban operam abertamente no território paquistanês e em Quetta, capital da província do Baluchistão, na fronteira. É óbvio que o ISI não se está esforçando para impedir uma ressurreição do taliban no Afeganistão. Essa política de dois gumes não poderá ser mantida por muito tempo. O Paquistão terá que escolher – é impossível contar com o apoio norte-americano e, ao mesmo tempo, fazer alianças com os combatentes islamitas. A opção que acabará tendo que fazer irá determinar não só seu próprio futuro, mas o futuro das perspectivas norte-americanas em sua perseguição aos extremistas islamitas pelo mundo inteiro.

(Trad.: Jô Amado)

Os livros analisados neste artigo são A Mighty Heart: The Brave Life and Death of My Husband, Danny Pearl, de Mariane Pearl, com Sarah Crichton, ed. Scribner, 278 páginas; e Who Killed Daniel Pearl?, de Bernard-Henri Levy, traduzido do francês por James X. Mitchell, ed. Melville House, 454 páginas.

1 - Os muhajirs emigraram da Índia para o Paquistão por ocasião da separação dos dois países, em 1947. Ironicamente, buscavam refúgio, devido aos tumultos étnicos na Índia, dominada por hinduístas. Os sindhis são o povo da província de Sindh, da qual Karachi é capital.
2 - O artigo em questão levantava alguns aspectos importantes em relação à segurança de segredos nucleares no Paquistão e especulava sobre o possível interesse, por parte de elementos do ISI, em passá-los para o governo do taliban ou para a al-Qaida. Pearl e LeVine relatam uma visita feita ao Afeganistão em agosto de 2001 – na época, controlado pelos taliban – por um ex-diretor do ISI, general Hamid Gul, quando ele e um cientista nuclear paquistanês, Bashiruddin Mahmoud, poderiam ter-se encontrado com Osama bin Laden. O general Gul, que Pearl entrevistou para o artigo, não desmente sua visita ao Afeganistão, mas afirma que não se encontrou com Bin Laden nem com Mahmoud, embora admita ter relações de amizade com ambos. O artigo de Pearl e LeVine foi publicado pelo Wall Street Journal em 24 de dezembro de 2001, após outras matérias sobre os perigos do arsenal nuclear paquistanês terem sido publicadas pelo Washington Post e pela revista The New Yorker. Contrariamente às especulações de Levy, não existem indícios – através de mensagens eletrônicas de Pearl, ou de conversas com seus chefes no Wall Street Journal, ou com seus colegas, ou mesmo com sua mulher – de que continuasse investigando dados para sua reportagem, por mais importante que esta fosse.
3 - Vale comparar com a opinião de Owen Bennett Jones, um correspondente com longa experiência no Paquistão, cujo livro Pakistan: Eye of the Storm (ed. Yale University Press, 2002) é normalmente considerado como o estudo mais confiável e atualizado sobre o país: “O Paquistão é um lugar fácil para o trabalho de um jornalista. A maioria dos paquistaneses... gosta de falar de política... O Paquistão continua sendo um país muito aberto. Na verdade, a boa-vontade dos paquistaneses em tolerar perguntas e pesquisas de jornalistas locais e estrangeiros é um dos motivos para que tenha um problema com sua imagem. Países como a Arábia Saudita conseguem evitar um noticiário hostil limitando-se a não permitir que os jornalistas tenham acesso suficiente à informação para fazerem seu trabalho.”
4 - A forma correta, em árabe, do plural de madrasa é madaris, mas como nos últimos tempos a forma madrasas foi incorporada ao jornalismo, eu a utilizarei.
5 - Ler a resenha de Mahnaz Ispahani, Los Angeles Times Book Review, 28 de setembro de 2003.
6 - Isto nada tem de surpreendente, pois existem, há muito tempo, provas convincentes de um vínculo entre o Harkat ul-Mujahedin, de Omar Sheikh, e a al-Qaida. Quando, em 1998, o presidente Clinton ordenou o bombardeio de campos de treinamento da al-Qaida, o porta-voz do Harkat, Fazil Rahman, revelou, numa entrevista coletiva, que vários homens do Harkat haviam sido mortos no ataque, sugerindo claramente que ambas as organizações partilhavam dos mesmos campos. Ler, de Peter L. Bergen, Holy War, Inc.: Inside the Secret World of Osama bin Laden, ed. Free Press, 2001, p. 211. Bergen também afirma que Bin Laden “desempenhou um papel, nos bastidores, nas negociações entre os taliban e o Harkat” que resultaram no seqüestro do avião que propiciou a libertação de Omar de uma prisão na Índia.
7 - Segundo Owen Bennett Jones, da BBC, o ISI “não só monitorava todas as atividades nos campos [de treinamento, na Caxemira], como fornecia equipamento militar e mantinha listas com o registro de voluntários para o treinamento”. Ler Pakistan: Eye of the Storm, p. 27.
8 - A cifra representa o total da contribuição norte-americana para o esforço anti-soviético no Afeganistão. Ler Pakistan 2000, (org.) Craig Baxter e Charles Kennedy, ed. Oxford University Press, 2000, p. 157.