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março 2004



ARGÉLIA

Feridas abertas

Às vésperas da eleição presidencial, a Argélia enfrenta situação social tensa. Por um lado, aumenta a desigualdade e a miséria, resultado das reformas liberais. De outro, a apatia política e o desânimo toma conta do povo, marcado por anos de violência e terrorismo


Lyes Si Zoubir

Uma explosão de alegria toma conta da Argélia, por uma vitória no futebol que não existiu. Depois da euforia, a depressão

Domingo, 8 de fevereiro de 2003. Quase toda a Argélia está diante da televisão para acompanhar o jogo de quartas-de-final da Copa da África das Nações (CAN) que opõe, em Sfax, na Tunísia, o time nacional de futebol ao time do Marrocos. A seis minutos do final, os argelinos marcam: a classificação está praticamente conquistada. Sem esperar o apito final, milhões de pessoas tomam de assalto as ruas de todas as cidades do país. De Tlemcen a Annaba, de Alger a Tamanrasset, é uma imensa explosão de alegria. “Não se via um espetáculo assim desde 1990, quando a Argélia ganhou a CAN em casa. Até pessoas habitualmente insensíveis ao futebol foram tomadas pelo entusiasmo”, conta o arquiteto argelino Hamid Mokrani.

Pois é, a alguns segundos do final, os marroquinos empatam, antes de ficar na frente na prorrogação. A Argélia é eliminada. “Arrasados, começamos a chorar de raiva”, continua Hamid. “À minha volta, houve crises de nervos, blasfêmias e até rixas entre pessoas que se abraçavam cinco minutos antes. A gente queria muito ficar alegre e aí, mais uma vez, foi de novo um encontro com a decepção.”

A história não acaba aí. No outro dia, um boato anuncia finalmente a vitória da Argélia, depois da desclassificação do time marroquino por doping! A notícia falsa percorre o país com a velocidade do raio. Provoca novas manifestações de euforia ainda mais intensas do que as da véspera. Apesar dos repetidos desmentidos dos meios de comunicação locais, elas duram várias horas. “Foi uma loucura. As mulheres jogavam barquinhos de papel, os carros buzinavam. Todo mundo afirmava que a informação era oficial e que até a Al Jazira e a Eurosport haviam confirmado. Que tbahdila (vergonha)!”, suspira Aziz Chelig, 38 anos, um comerciante de Oran. “Eu também acreditei naquilo”, acrescenta Hamid Mokrani. “Mesmo com uma vizinha me dizendo que o mesmo boato tinha aparecido depois de uma derrota da Argélia na Copa do Mundo de 1982, eu queria acreditar. Era mesmo ingenuidade acreditar que nós pudéssemos nos classificar... Quando nada está dando certo, nada dá certo!”

Triste sociedade

A sociedade argelina foi posta à dura prova e agora quer esquecer os anos de desgraça, terrorismo e catástrofes

A derrota diante do irmão inimigo marroquino, a humilhação e a sensação de ridículo experimentadas depois da dissipação do boato, mas também os golpes de cassetete desferidos pela polícia tunisiana nos torcedores argelinos (quase 60 feridos, segundo um balanço oficial, 200 segundo fontes diplomáticas) revelaram de súbito o surdo baixo-astral que afeta a sociedade argelina desde o fim dos anos 1990. Uma sociedade posta à prova com muita dureza, como explica um ex-ministro do presidente Huari Bumediene, “que de modo algum curou suas feridas e que, assim, espera desesperadamente por uma boa notícia; uma oportunidade de rir francamente, esquecendo os anos de desgraça, de terrorismo e catástrofes”.

Doze anos depois da anulação da vitória da Frente Islâmica de Salvação (FIS, dissolvida) no primeiro turno das eleições legislativas e do começo da “noite argelina”, as pessoas demonstram uma tristeza mal velada. “Há muita emotividade. Chora-se por qualquer coisa. Um exemplo marcante é o das festas de casamento. Não há o mesmo entusiasmo de antes, as pessoas dão a impressão de se chatearem. Durante os anos duros do terrorismo, elas queriam, ao contrário, se soltar a qualquer preço. A mínima oportunidade de diversão era aproveitada. A sociedade argelina talvez esteja revivendo, mas ela o faz com uma mácara cinzenta sobre o rosto”, deplora Yasmina T., funcionária pública formada pela Escola Nacional de Administração (ENA). Do mesmo modo que ela, vários sociólogos avaliam que nunca a nostalgia dos anos 1970-1990 foi tão forte, como fica evidente com a audiência considerável às reapresentações de filmes e eventos esportivos daquela época.

“É uma tristeza que atinge principalmente os adultos, os que conheceram uma ‘outra Argélia’, aquela em que era impensável desconfiar de seu vizinho ou pensar em se armar para proteger os seus”, delineia o ex-ministro. “Só agora, com o desaparecimento progressivo do terrorismo, é que eles se dão conta dos danos infligidos à sociedade. Sofremos um terrível retrocesso no plano dos valores humanos, da curiosidade intelectual e da abertura para o resto do mundo. Francamente, com o recuo, percebemos com perplexidade a amplitude do pesadelo vivido – penso especialmente nos massacres entre 1996 e 1999”. A profundidade do traumatismo é tal que todas as gerações foram atingidas.

Suicídios em alta

Os suicídios e as tentativas de suicídio estão francamente em alta há quatro ou cinco anos

É o caso, por exemplo, daquela que os argelinos chamam às vezes de “velha França”. Adepta habitualmente de um estrito código de vestimentas herdado do período colonial e ligado a uma higiene impecável, o rosto barbeado sete dias por semana, gravata obrigatória e sapatos sempre engraxados apesar da poeira das ruas, esta categoria da população foi conquistada pelo deixa-andar e se confunde agora em sua indumentária com o jeito descuidado dos mais jovens.

“Há coisas mais graves”, observa um célebre clínico geral argelino. “Entre os que construíram a Argélia independente e que o sistema marginalizou pouco a pouco desde os anos 1990, um grande número de pessoas não cuida mais da saúde. Eles renunciaram a lutar e visivelmente esperam a partida”. A esta renúncia, faz eco uma outra realidade igualmente inquietante, que também testemunha a nova doença argelina. Segundo a Associação dos Psiquiatras particulares, que organizou um seminário em Alger no mês de fevereiro de 2003, os suicídios e as tentativas de suicídio estão francamente em alta há quatro ou cinco anos. Os números oficiais atestam dois a cinco suicídios e 34 tentativas para 100 mil habitantes.

Valor quinze a vinte vezes inferior ao dos países europeus, mas que não impede os psiquiatras de tocar o sinal de alarme. Para o professor Mohammed Budef, professor de psiquiatria e chefe do serviço psiquiátrico no hospital de Annaba, os psiquiatras mantêm-se circunspectos em relação às estatísticas oficiais, que eles julgam aquém da realidade. E denunciam a ausência de políticas de prevenção. Efetivamente, a Argélia só conta com um centro de atendimento e prevenção para os suicidas – em Annaba, justamente. Uma gota d’água no oceano das angústias e medos gerados por dez anos de violência. “Sem sequer falar da ausência de respostas para as questões da impunidade dos assassinos ou do destino dos ‘desaparecidos’, o poder é incapaz de pôr em prática uma política sanitária coerente para atenuar as conseqüências psíquicas e até físicas de todos estes anos de confrontos”, continua o médico argelino, que cita este número assustador: um milhão de jovens de menos de 15 anos teriam sido diretamente vítimas ou testemunhas da violência terrorista e só uma ínfima parte deles se beneficiaria de um acompanhamento psicológico.

Declínio do islamismo radical

Sinal do declínio da contestação islamista radical, a cartografia dos grupos armados mudou

Em vez de reconhecer a importância do traumatismo, os dirigentes argelinos preferem insistir em sua capacidade de encerrar o capítulo da violência. Em 2003, segundo um relatório oficioso do Ministério do Interior, os confrontos ligados ao terrorismo teriam feito menos de 1500 mortos, entre os quais perto de 450 islamistas armados. Um número inferior, segundo este relatório, ao número anual de vítimas de acidentes do trânsito (4 mil em média) e em nada comparável com o balanço da “década negra”: entre 100 mil e 200 mil mortos.

Sinal do declínio da contestação islamista radical, a cartografia dos grupos armados mudou. Se se acreditar no Estado-Maior do Exército, estes grupos armados atomizaram-se, como o Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), por muito tempo a organização melhor estruturada das que pretendiam derrubar o regime pelas armas para edificar uma república islâmica. Desautorizado por seus homens, o ex-emir Hassan Hattab estaria isolado na Cabília, enquanto o novo emir Nabil Sahraui, dito Abu Ibrahim, teria deslocado para o leste, próximo da fronteira, o grosso dos 500 homens com que o GSPC contava no começo de 2003. Quanto ao sangüinário Grupo Islâmico Armado (GIA), só contaria com uns trinta elementos acantonados na Mitidja, a planície agrícola em torno de Alger. Por fim, vários outros grupos dissidentes entre os quais o Haumet Daâwa Salafia (HDS, defensores da pregação salafista), continuam ativos nas zonas rurais do oeste do país.

“O tempo em que o GIA podia alinhar várias Katibates/i< (companhias) de cem homens cada passou”, explica, coberto pelo anonimato, um especialista em questões de segurança. “Nas cidades, a maior parte das redes de apoio foram desmanteladas e no campo, as operações pesadas do exército acabaram com as grandes estruturas. Entretanto, grupos de efetivos reduzidos mas muito móveis, continuam ativos. Endurecidos, conhecendo perfeitamente o terreno, ele podem continuar a fazer mal durante anos. Existe até o risco de constituírem uma ameaça séria se um dia a situação política se deteriorar de novo ou se, por exemplo, o islamismo político renascer de suas cinzas”.

Menos medo...

Os partidos de oposição reconhecem que a violência diminuiu, mas evitam parecer triunfantes

Uma perspectiva que a população não ignora, mas que relega ao segundo plano de suas preocupações. Desde alguns anos, as pessoas tentam retomar uma vida normal, ainda que o país continue submetido ao estado de emergência decretado em 9 de fevereiro de 1992. As manchetes do jornais independentes dão crédito à idéia de que a página do terrorismo foi virada e que os terrores do toque de recolher, o espectro das falsas barreiras nas estradas ou ainda os seqüestros noturnos por desconhecidos em uniformes da forças da ordem estão esquecidos.

“Respira-se. Tenho menos medo do que antes”, reconhece, sem no entanto sorrir, Faiçal R., um engenheiro de 40 anos que mora na cidade de Aim Naadja, no subúrbio sudeste da capital. “Houve uma época em que eu praticamente não dormia. Eu ficava escutando os barulhos da noite, adivinhando de onde vinham os ecos das fuzilarias, sobressaltando ao ouvir o menor estalido nas escadas do prédio. Agora eu durmo melhor, mas sinto sempre uma certa apreensão antes de sair de casa de manhã. Em 1996, descobri uma cabeça em cima do carro de um vizinho. Nunca se soube de quem era.”

Os membros dos partidos de oposição reconhecem de bom grado que a violência diminuiu, mas evitam parecer triunfantes. “As pessoas certamente têm menos medo. A idéia de que os grupos armados foram vencidos é aceita pela maioria”, assegura um dirigente da Frente das Forças Socialistas (FFS, oposição favorável a um diálogo com os islamistas). “Mas isso não deve levar a crer que a violência desapareceu. Efetivamente, se as grandes cidades são poupadas pelos atentados, a situação é mais confusa no campo. As estradas, principalmente no Oeste e no Centro, continuam perigosas, enquanto que as cidadezinhas isoladas continuam sendo a presa dos matadores noturnos”.

Mais insegurança...

Proliferam-se as organizações criminosas especializadas em extorsão, tráfico de droga e prostituição

O mais inquietante é o crescimento da criminalidade. Assassinatos descarados, ataques à mão armada são regularmente relatados pela imprensa. Os próprios donos de empresas privadas integraram-se na necessidade de se precaver contra essa violência ordinária. Tewfik B., 35 anos, é um ex-militar. Depois de sua baixa, não teve dificuldade em se reciclar na proteção de personalidades privadas. “É um trabalho informal”, explica ele, “mas bem pago. Quando um comerciante das mais altas rodas precisa ‘subir’ para Alger com grandes somas em dinheiro, ele me chama e não é raro que eu seja acompanhado por dois ou três ex-colegas que precisam de dinheiro para completar o mês”.

Em maio de 2003, o Conselho Nacional Econômico e Social (CNES) publicou um relatório detalhado sobre o agravamento da criminalidade e da delinqüência. O documento sublinha o aparecimento de organizações criminosas estruturadas especializadas em extorsão, tráfico de droga e prostituição. Um grito de alarme reforçado pelas estatísticas publicadas pela polícia. Segundo esses números, quase 5 mil delitos, entre os quais 407 crimes de sangue (fora do terrorismo), teriam sido cometidos durante o primeiro trimestre de 2003, ou seja, um claro aumento em relação a 2002 (+35%). E, mais grave, as autoridades prevêem mais de 100% de avanço da criminalidade para 2004 e 2005. “É um vagalhão difícil de controlar”, reconhece um membro do CNES, que especifica que Alger e Oran estão à frente como cidades mais perigosas.

A insegurança não explica por si só o spleen1 da sociedade argelina. “A tristeza é só um sintoma”, adverte Rachid B., sindicalista do centro industrial de Ruíba. “Os argelinos estão conscientes disso: mesmo que o terrorismo tenha sido vencido, nada de fundamental foi resolvido. Muitos pensam que tudo poderia recomeçar”. O clima político deletério às vésperas da eleição presidencial não está ausente desse pessimismo. Desde o verão de 2003, o país tem a sensação de reviver um novo período de incertezas anunciadoras de violência.

A batalha pelo controle da FIS

A libertação dos dois ex-líderes da FIS reavivou antigas feridas, mostrando que a questão do islamismo político não foi resolvida

A libertação dos dois ex-líderes da FIS, Abassi Madani e Ali Benhadj, reavivou antigas feridas, demonstrando que a questão do papel do islamismo político não foi resolvida. “Os barbudos ainda estão lá, deplora um jornalista do Al Watan. Sejam arrependidos ou ex-dirigentes e militantes do FIS, todos levantam a cabeça”. 15 de janeiro, em Doha (Qatar), Madani lembrou a vontade do ex-FIS de voltar à cena política. Durante uma entrevista coletiva, o dirigente islamista, embora tendo assumido com as autoridades o compromisso de não falar em público antes de deixar o país para tratar-se na Malásia, anunciou uma “iniciativa de paz”, propondo o adiamento da eleição presidencial e uma anistia geral para todos os protagonistas da “prova”.

Porém o que mais preocupou os adversários do islamismo político foi que Madani retomou claramente seu discurso do início dos anos 1990: exigiu a “eleição de uma nova Assembléia Constituinte soberana para a elaboração da Constituição de uma nova República” e uma nova República que garanta “todas as liberdades dentro dos princípios islâmicos”. O que fez surgirem protestos das feministas (ler, nesta edição, ‘A situação das mulheres’), que deploram este ressurgimento do islamismo em uma conjuntura marcada pela indecisão dos verdadeiros detentores do poder.

“As pessoas estão preocupadas porque o exército paradoxalmente dá a impressão de que não quer tomar partido na batalha que opõe [Abdelaziz] Buteflika a seus rivais”, explica o editorialista do Quotidien d’Oran, Saadune al-Maqari. Uma hesitação interpretada como confissão de fraqueza que poderia desembocar em uma nova onda de violência. “O pior é que a situação política é incompreensível para o homem da rua”, prossegue o editorialista, aludindo à ácida batalha em torno da tomada do controle da Frente de Libertação Nacional (FLN).

A geração que toma

A nova geração de adultos teve sua adolescência marcada pela violência e mostra apatia política

O ex-partido único é reivindicado por dois clãs. De um lado, os “legitimistas”, reunidos em torno do ex-primeiro ministro Ali Benfliss, também candidato à eleição presidencial; e do outro, os “reparadores”, partidários do presidente em fim de mandato, que querem retomar o controle de um partido que teve suas atividades paralisadas pela Justiça de Alger desde 30 de dezembro de 2003. Uma pantomima sanguinolenta e melodramática com tons regionais – Buteflika é nativo do Oeste, Benfliss do Leste –, da qual os argelinos não conseguem rir por ser tão representativa de uma vida política em plena desarticulação. A isso se junta uma situação ainda muito tensa, na Cabília, pois os archs – conselhos das tribos – decidiram boicotar a eleição. Os adversários de Buteflika ameaçam, aliás, fazer o mesmo para protestar contra a parcialidade de uma administração dominada pelo ministro do Interior, Yazid Zerhuni. A menos que o exército decida finalmente impor o adiamento da eleição...

“A bolítica (a antiga política) não me interessa. De qualquer modo, são cartas marcadas”, sentencia Nawal, 25 anos, tradutora. No meio do oceano de morosidade no qual nada a Argélia, ela faz parte de uma geração que incita muitos observadores ao otimismo. Ex-empregada do Banco Khalifa, ela encontrou um emprego “meio legalizado” com um importador privado, depois da falência do banco. “Khalifa tentou fazer coisas. Todos os jovens sonham fazer como ele. Ele nunca deveria ter feito política’’, afirma ela, resumindo perfeitamente o sentimento da juventude para com o milionário destronado. Sem renunciar a seu emprego, ela vai a “entrevistas e mais entrevistas” para encontrar algo melhor. “Por mil dinares a mais eu mudo de emprego. É a regra do jogo”, acrescenta ela, descartando a idéia de ir para o exterior. “Se eu tiver que viajar um dia, vai ser com experiência e algumas economias. Não tenho vontade de ir chorar miséria como todos os harragas (imigrantes ilegais).”

Os pais de Nawal, funcionários públicos, confessam-se desconcertados. “É uma geração que não pede: toma”, analisa seu pai. “Nawal tinha dez anos quando estouraram as revoltas de outubro de 1988. Toda sua adolescência foi marcada pela violência. Suas referências não são as mesmas que as nossas”. A própria imprensa não foi poupada pelo fenômeno, como explica Saadune al-Maqari. “Os jovens free-lancers se comportam às vezes como mercenários. Eles têm um caderno de encomendas, negociam o mesmo artigo com diferentes títulos. Não sofrem com dilemas.”

Situação social tensa

Pouco a pouco vai se corroendo um contrato social já mutilado pelas reformas econômicas dos anos 1990

Essa dinâmica, denunciada pelos sindicatos e partidos de esquerda que acusam o poder de institucionalizar a precariedade, responde à demanda criada pelos grupos privados. Mais discretos que Khalifa, estes últimos, como notaram os especialistas do Nord Sud Export em março de 2003, não se sentem de modo algum ligados à herança “socialista”. Adeptos de um liberalismo total, eles corroem pouco a pouco um contrato social já mutilado pelas reformas econômicas dos anos 1990. “Na falta de um engajamento em partidos ou sindicatos, esta juventude não tem consciência política ou sindical”, avalia o economista Ali Chuarbia. “Os anos vindouros vão ser determinantes para o novo modelo econômico. Se os atores sócio-políticos continuarem passivos, o país vai entrar pouco a pouco em uma era de laissez-faire que vai aumentar as desigualdades.’’

A situação social às vésperas da eleição presidencial confirma essa apreeensão. Em 2003, a Argélia amealhou 24 bilhões de dólares de receitas externas e suas reservas de divisas atingiram o recorde de 30 bilhões de dólares. Coisa nunca vista desde 1962, mas que não beneficia a metade da população que vive sob o limiar da pobreza. Aposentados, trabalhadores do setor público, desempregados só sobrevivem graças à solidariedade familiar. “Eu calculei que o meu salário contribuía para fazer viver vinte pessoas. É o dobro de há dez anos”, confessa um engenheiro da Sonatrach, a poderosa companhia petrolífera. Além dos seus dois filhos, de 28 e 30 anos, todos dois desempregados, ele é obrigado a sustentar uma de suas irmãs e seus quatro filhos, bem como vários parentes da cidadezinha onde vive sua família, que sem suas remessas de dinheiro não sobreviveriam.

Outros têm menos sorte. Há alguns anos, a Argélia descobriu que também tinha desabrigados. Na capital e nas grandes cidades, famílias inteiras erram pelas ruas, procurando comida. “A Argélia dos grandes ideais acabou. A realidade de uma sociedade de diferentes marchas se instalou definitivamente”, deplora o ex-ministro de Bumediene. E conclui : “Essa pobreza galopante pode favorecer em curto prazo o ressurgimento da violência terrorista.”

(Trad. Betty Almeida)

1 - Em inglês no original (N.T.).