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julho 2004



HISTÓRIA

Os ecos da primeira vitória dos povos colonizados

Há cinqüenta anos atrás, a vitória dos vietnamitas, liderados por Ho Chin Min, contra o exército francês, na batalha de Dien Bien Phu, funcionou como um estopim para as lutas por independência dos países africanos


Alain Ruscio

Os “viets”, os “pequenos homens amarelos” antes tão desprezados, venceram um dos principais exércitos ocidentais, apoiado pelo poderoso aliado norte-americano

Há cinqüenta anos, no dia 20 de julho, em Genebra, os negociadores franceses e vietnamitas assinavam os acordos de cessar-fogo, protegidos em sua autoridade pela comunidade internacional: os Estados Unidos (pouco entusiasmados), a Grã-Bretanha, a União Soviética e, principalmente, a China Popular (participando, então, de sua primeira conferência internacional) “formalizaram o ato”. Algumas semanas antes, no dia 7 de maio de 1954, os últimos defensores do campo de Dien Bien Phu, extenuados, arrasados por uma batalha contínua de 55 dias, haviam reconhecido, com a morte na alma, a superioridade do adversário. Acabava-se uma guerra. Assim, pois, os “viets”, os “pequenos homens amarelos” antes tão desprezados, venciam um dos principais exércitos ocidentais, apoiado pelo poderoso aliado norte-americano.

É difícil imaginar a repercussão que pode ter tido esse acontecimento no mundo colonizado ou dominado, especialmente no ultramar francês: os colonialistas haviam sido vencidos, um exército regular havia sido derrotado. O presidente do Governo Provisório da República Argelina (GPRA), Ben Youcef Ben Khedda, lembra-se: “No dia 7 de maio de 1954, o exército de Ho Chi Minh inflige ao corpo expedicionário francês no Vietnã o humilhante desastre de Dien Bien Phu1. Essa derrota da França funcionou como um forte estopim sobre todos aqueles que pensavam que a opção da insurreição a curto prazo era, a partir de então, o único remédio, a única estratégia possível [...]. A ação direta prevalecia sobre as outras considerações tornando-se a prioridade das prioridades2.” Mais ou menos três meses depois de Genebra, eclodiu a insurreição argelina do dia de Todos os Santos, em 1° de novembro de 1954.

O Vietminh

Antes de Dien Bien Phu, muito além da Argélia, a luta político-militar dirigida pelo Vietminh, a organização político-militar criada por Ho Chi Minh, foi muito influenciada pelos colonizados nacionalistas – aqueles que a vulgata da época chamava desdenhosamente de “evoluídos” -, mas também por alguns elementos das populações miseráveis. E isso, desde o início.

A luta político-militar dirigida pelo Vietminh, a organização político-militar criada por Ho Chi Minh, foi muito influenciada pelos colonizados nacionalistas

No dia 6 de março de 1946, os representantes francês (Jean Sainteny) e vietnamita (Ho Chi Minh) assinaram um acordo em Hanói. Paris reconhecia a “República do Vietnã” como um “Estado livre, tendo seu governo, seu parlamento, seu exército, suas finanças, no âmbito da União Francesa”. A noção de independência foi cuidadosamente evitada. Apesar disso, prevalecia a impressão de que a França estava prestes a conseguir implantar novas relações com suas colônias.

De 21 a 26 de março de 1946, quando a Assembléia Constituinte analisou a situação do ultramar, muitos parlamentares mencionam o exemplo da Indochina: Lamine Gueye (África Ocidental francesa3 ), Raymond Vergès (Reunião)… De modo particular, os deputados do Movimento Democrático de Renovação Malgaxe (MDRM) encaminharam à mesa diretora dessa Assembléia um projeto de lei retomando, palavra por palavra, o texto de 6 de março: a França reconhece Madagascar como um “Estado livre, tendo seu governo,...”. A maioria se recusou – é óbvio – a levar em conta essa proposta.

O contágio

Mas o contágio não se deteria e o Vietnã se tornaria um modelo para muitos colonizados. Principalmente porque as negociações entre a França e os nacionalistas vietnamitas prosseguiam. E todos esperavam por um acordo baseado na boa vontade da “nova França”. De tal forma, que Ho Chi Minh vai a Paris para negociar um status definitivo para seu país. E vai embora sem nada conseguir.

Mas esse curioso homenzinho, tão reservado, tão modesto, já conquistara um enorme prestígio aos olhos dos nacionalistas das outras colônias. Se sua atividade passada, do tempo em que se chamava Nguyen Ai Quoc, foi longamente ignorada, as coisas eram diferentes nesse verão de 1946. A fundação da União Intercolonial, a publicação do Paria na década de 20 e sua atuação de revolucionário profissional da Internacional Comunista na década de 30 eram conhecidas; e sua reputação de patriota incorruptível ultrapassara amplamente as fronteiras de seu país.

Ho Chi Minh, esse curioso homenzinho, tão reservado, tão modesto, já conquistara um enorme prestígio aos olhos dos nacionalistas das outras colônias

Apesar de ser então relativamente jovem (56 anos), muitos colonizados das outras regiões do Império o consideravam mais ou menos como o “irmão mais velho”. Jacques Rabemananjara, um dos principais dirigentes do MDRM, ficou impressionado, por ocasião de um encontro, com sua capacidade de aliar firmeza em relação ao objetivo final (a independência) e flexibilidade quanto à forma – aceitação do quadro da União Francesa4.

No fim de novembro de 1946, entretanto, a guerra começaria.

O desafio à potência tutelar

O nome de Ho Chi Minh ainda ressoou no grande Vel d’Hiv’5 , em Paris, no dia 5 de junho de 1947. Os “políticos do ultramar” fizeram ali uma manifestação sobre o tema “A União Francesa em perigo”. É que, ao conflito franco-vietnamita, juntava-se, então, repressão em Madagascar. Tomaram a palavra políticos das mais diversas correntes: o futuro presidente marfinense Félix Houphouët-Boigny, pela União Democrática Africana (Rassemblement démocratique africain) – RDA, então coligada ao grupo comunista na Assembléia); o poeta Aimé Césaire, pelo Partido Comunista Francês (PCF); o futuro presidente da Assembléia Nacional senegalesa Lamine Gueye, pelo Partido Socialista SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária); um argelino apresentado como “Chérif”, pelo Manifesto Argelino de Ferhat Abbas6 ...

Vários depoimentos atestam isto: os olhos dos colonizados estavam então voltados para a resistência do Vietminh, a “Liga pela Independência do Vietnã” que ousara desafiar a potência tutelar francesa. Resistirá ele à força infinitamente superior do corpo expedicionário francês? Essa atenção era partilhada pelos estudantes originários das colônias e presentes na metrópole. Na época, os comunistas exerciam muita influência sobre esses meios, muito ativos na denúncia do colonialismo. Nos próprios países colonizados, a censura excessivamente minuciosa e a repressão não permitiam uma expressão espetacular da solidariedade. Entretanto, alguns textos do RDA na África negra ou do PCF na Argélia faziam referência expressa à luta do povo vietnamita7.

Apelo à desersão

Os olhos dos colonizados estavam voltados para a resistência do Vietmin que ousara desafiar a potência tutelar francesa

Em 1949, o escritor Maurice Genevoix percorreu a África. Como era comum naquele tempo, trouxe de volta consigo uma obra feita de anotações ao vivo e de reflexões sobre a situação. “Em todos os lugares onde estive”, escreveu ele, “Tunísia, Argélia, Marrocos, Senegal, Sudão, Guiné, Costa do Marfim ou Nigéria, logo se tornava evidente que a importância dos acontecimentos da Indochina era considerada antecipadamente como decisiva. Os silêncios sobre esse ponto eram mais eloqüentes que as palavras8 .”

Na África do Norte, as repercussões não foram menores. No início de 1949, um ministro em evidência do governo Ho Chi Minh, o Dr. Pham Ngoc Thach, havia escrito a Abd El-Krim9 , exilado no Cairo, a fim de lhe pedir que lançasse um apelo aos soldados magrebinos que estavam servindo na Indochina. O velho líder da região do Rif o atendeu de bom grado: “A vitória do colonialismo, mesmo no outro lado do mundo, é nossa derrota e o fracasso de nossa causa. A vitória da liberdade, seja onde for, é nossa vitória, o sinal da aproximação de nossa independência10 .”

No ano seguinte, o PC marroquino, contatado pelo Vietminh através do PCF, enviou para junto de Ho Chi Minh um membro de seu Comitê Central, Mohamed Ben Aomar Lahrach11 . Conhecido sob o nome de“general Maarouf” pelos magrebinos, ou como “Anh Ma” pelos vietnamitas, ele ocuparia, permanentemente, uma função importante, multiplicando os apelos à deserção dirigidos a seus irmãos membros do corpo expedicionário ou trabalhando na educação política marxista dos prisioneiros ou dos adesistas da África do Norte12.

Solidariedade entre colonizados

A sucessão de derrotas do exército francês na Indochina aprofundaria, evidentemente, a tomada de consciência da solidariedade entre colonizados mais ou menos por toda a União Francesa. Por exemplo, foi nos portos da Argélia (Oran, Argel) e não na metrópole que os estivadores foram os primeiros a se recusarem a carregar material de guerra com destino à Indochina.

Os dirigentes políticos franceses analisaram esse dado, é evidente. À noção de solidariedade entre colonizados corresponde a noção de solidariedade entre colonizadores. Na obra já citada, Maurice Genevoix concluía, a partir de suas observações africanas: “Quando se rompe o fio que segura as contas de um colar, todas as contas escapam, uma atrás da outra: o problema do Império é isso.” Os franceses chegavam, contudo, a conclusões opostas.

Foi nos portos da Argélia (Oran, Argel) e não na metrópole que os estivadores foram os primeiros a se recusarem a carregar material de guerra com destino à Indochina

Entre os defensores do esforço de guerra, a vontade de consolidar a União Francesa se somava ao anticomunismo de princípio. Apostavam no contágio da vitória: mostrar sua força na Indochina para não ter que utilizá-la em outros lugares… Dessa forma, Georges Bidault, várias vezes ministro das Relações Exteriores na época, início da década de 50, declarou a quem quisesse ouvir que a União Francesa constituía “um bloco”: qualquer capitulação em uma de suas regiões acarretaria o desmoronamento do edifício13 . Saudosos do ex-Partido Colonial (os deputados Frédéric-Dupont ou Adolphe Aumeran, os jornalistas Robert Lazurick ou Rémy Roure), os mais conservadores afirmam alto e bom som que, na Indochina, só a “maneira forte” imporia o silêncio aos “pseudonacionalistas indígenas”.

A “gangrena” asiática

Do lado oposto, uma parte do mundo político francês considerava que a Indochina já estava perdida e temia um contágio... da derrota. Pierre Mendès-France, em especial, garantia, desde o outono de 1950, que a luta estava perdida. A França não tinha mais as forças necessárias para enfrentar os conflitos em toda parte. Era necessário render-se aos fatos: a guerra na Ásia ameaçava gravemente, em prazo mais ou menos longo, porém certo, “nossa perspectiva africana, a única válida”, escreveu François Mitterrand14 . Era melhor amputar o membro asiático antes que a gangrena tomasse o corpo todo. “É preciso isolar o caso da Indochina”, acrescentou ele. Não foi absolutamente por acaso que a mesma equipe Mendès-Mitterrand resolveu a questão da Indochina e, depois, se agarrou à Argélia.

Mas essas opiniões não foram ouvidas e, na primavera de 1954, aconteceu o desastre de Dien Bien Phu. Qual terá sido sua repercussão nas outras colônias francesas? Ainda está para ser feito um estudo consistente da opinião pública - utilizando principalmente os relatórios da polícia – e da imprensa. Entretanto, diversos índices permitem pensar que foi comemorado por muita gente, da Argélia a Tananarive, passando por Dacar.

O 14 de julho da colonização

A guerra na Ásia ameaçava gravemente, em prazo mais ou menos longo, porém certo, “nossa perspectiva africana, a única válida”, escreveu François Mitterrand

Em 11 de maio de 1954, quatro dias depois da derrota, o gaullista Christian Fouchet revelou que vários franceses do Marrocos haviam recebido cartas anônimas anunciando: “Casablanca será sua segunda Dien Bien Phu15 .” E, como mostram as Mémoires de Ben Khedda (Memórias de Ben Khedda), os nacionalistas argelinos decidiram acelerar a preparação da insurreição armada16 .

Uma coisa é certa: Dien Bien Phu não assinala apenas a entrada de dois países para a História – quanto à França, como o símbolo de uma obstinação anacrônica desembocando numa catástrofe; quanto ao Vietnã, como o símbolo da reconquista da independência nacional. A batalha foi recebida, no mundo inteiro, como uma ruptura anunciando outros combates. O cheiro de pólvora tinha apenas se dissipado, na bacia do rio Tonkin, e já impregnava os Aurès. E o eco da batalha não esperou seu primeiro aniversário para ver reunidos, em Bandung17 , os “condenados da terra”. Dois homens, opostos um ao outro em tudo, encontraram, no entanto, as paralelas históricas adequadas para analisar o alcance do fenômeno.

Em 1962, no prefácio de La Nuit coloniale, o líder argelino Ferhat Abbas escreveu: “Dien Bien Phu não foi apenas uma vitória militar. Esta batalha ficará como símbolo. Ela é a Valmy18 dos povos colonizados. É a afirmação do homem asiático e africano diante do homem da Europa. É a confirmação dos direitos humanos em escala universal. Em Dien Bien Phu, a França perdeu a única legitimação de sua presença, isto é, o direito do mais forte19 .”

Doze anos depois, quando se comemorava o vigésimo aniversário da batalha, Jean Pouget, ex-oficial do corpo expedicionário, amargo, mas lúcido, escreveu: “A queda de Dien Bien Phu marca o fim do tempo da colonização e inaugura a era da independência do Terceiro Mundo. Hoje não há mais, na Ásia, na África ou na América, nenhuma revolta, rebelião ou insurreição que não se refira à vitória do general Giap. Dien Bien Phu tornou-se o 14 de julho da descolonização20.”

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - N.T.: A batalha de Dien Bien Phu, que durou de 13 de março a 7 de maio de 1954, terminou com a derrota do exército francês pelas forças do Vietminh no alto Tonkin. Seguida pelos acordos de Genebra, marcou o fim da guerra da Indochina.
2 - Les origines du 1er novembre 1954, Dahlab, Alger, 1989; op. cit. in Benjamin Stora, “Un passé dépassé? 1954, de Dien Bien Phu aux Aurès”, documento de um seminário, datilografado, Hanói, abril de 2004.
3 - Criada em 1895, ela reunia numa federação os territórios do Senegal, da Mauritânia, do Sudão, do Alta Volta (hoje, Burkina Faso), da Guiné, da Nigéria, da Costa do Marfim e do Daomé (hoje, Benin). Sua capital era Dakar.
4 - A Constituição de 1946 designava assim o conjunto formado pela República Francesa (França metropolitana, departamentos e territórios de ultramar) e os territórios e Estados associados. Ler, de Jacques Tronchon, L’insurrection malgache de 1947. Essai d’interprétation historique, ed. Maspero/CNRS, Paris, 1974.
5 - N.T.: O Vel d’Hiv (Velódromo de Inverno) é o recinto onde, de maneira geral, se realizam os grandes comícios na capital francesa.
6 - L’Humanité, 6 de junho de 1947.
7 - Ver Au service de l’Afrique noire. Le Rassemblement Démocratique Africain dans la lutte anti-impérialiste, brochura, 1949.
8 - Afrique blanche, Afrique noire, ed. Flammarion, Paris, 1949.
9 - Líder independentista marroquino, dirigiu, na década de 20, a luta contra os espanhóis e os franceses, exilando-se, depois, na ilha da Reunião. Instalou-se no Cairo, em 1947, onde coordenou um Comitê pela Libertação do Magreb.
10 - Cf. Abdelkrim Khattabi et son rôle dans le Comité de libération du Maghreb, cit. in Abdallah Saaf, Histoire d’Anh Ma, Paris, ed. L’Harmattan, 1996.
11 - Cf. Abdallah Saaf, op. cit.
12 - Cf. Nelcya Delanoë, Poussières d’Empire, Paris, ed. PUF, 2002.
13 - Cf. Jacques Dalloz, Georges Bidault, biographie politique, ed. L’Harmattan, Paris,1993.
14 - Aux frontières de l’Union française. Indochine, Tunisie, Paris, ed. Julliard, Paris, 1953.
15 - Journal officiel, Paris, 11 de maio de 1954.
16 - Cf. O testemunho de Mohamed Harbi, “L’écho sur les rives de la Méditerranée”, Carnets du Vietnam, fevereiro de 2004.
17 - Primeira reunião, em abril de 1955, dos países não-alinhados: 29 Estados nela estavam representados, dentre os quais a Indonésia de Sukarno, a China de Mao Tse-tung, a Índia de Nehru e a Argélia que acabava de começar sua guerra de libertação.
18 - N.T.: Referência à batalha de Valmy, de 20 de setembro de 1792, em que se deu a vitória de Dumouriez e Kellermann sobre os prussianos, detendo a invasão e devolvendo a confiança ao exército francês.
19 - Julliard, Paris, 1962.
20 - “Le mythe et la réalité”, Le Figaro, 7 de maio de 1974.