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agosto 2004



CULTURA

A língua árabe, o Rolls Royce e o Volkswagen

No debate sobre a reforma do islã, algumas pessoas exigem dos árabes que modifiquem também sua língua: que escolham definitivamente o árabe clássico e abandonem o árabe dialetal. Antes de sua morte em setembro do ano passado, Edward W. Said explicou por que essa exigência reflete um extraordinário desdém pela riqueza da experiência cotidiana expressa pela língua popular


Edward W. Said

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A fixação da mídia dos Estados Unidos no terrorismo parece resumir tudo o que diz respeito aos árabes

A prática da fala e da escrita do árabe constitui objeto de controvérsias. É uma questão muito mais temerosa à medida que depende de fatores ideológicos que nada têm a ver com a própria experiência dessa língua pelos falantes indígenas. Não sei de onde vem a concepção de que o árabe exprimiria essencialmente uma violência aterradora e incompreensível, mas é evidente que todos aqueles loucos de turbante das telas de Hollywood das décadas de 40 e de 50, falando a suas vítimas num tom irritado, com um deleite sádico, têm algo a ver com ela. Mais recentemente, também contribuiu para isso a fixação da mídia dos Estados Unidos no terrorismo e que parece resumir tudo o que diz respeito aos árabes.

E, no entanto, a retórica e a eloqüência na tradição literária árabe remontam a um milênio: foram os escritores abássidas, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram sistemas incrivelmente complexos e espantosamente modernos para que se pudesse compreender a retórica, a eloqüência e os tropos1 . Mas todo seu trabalho se baseia no árabe clássico escrito, e não no falar cotidiano. Porque o primeiro é dominado pelo Corão – que é, ao mesmo tempo, origem e modelo de tudo o que vem depois dele em matéria lingüística.

Expliquemos esse ponto, muito pouco familiar aos usuários das línguas européias modernas, nas quais há uma correspondência entre as versões falada e literária e nas quais a Sagrada Escritura perdeu inteiramente sua autoridade verbal.

Diversidade e riqueza

Todos os árabes usam um dialeto falado que varia de uma região para outra ou de um país a outro

Todos os árabes usam um dialeto falado que varia consideravelmente de uma região para outra ou de um país a outro. Cresci numa família cuja língua falada era uma mistura do que era correntemente utilizado na Palestina, no Líbano e na Síria: esses três dialetos apresentavam diferenças suficientes para que se pudesse distinguir, por exemplo, um habitante de Jerusalém de um outro de Beirute ou ainda de Damasco – mas os três podiam comunicar-se entre si sem grande dificuldade.

Como fui à escola no Cairo e como ali passei a maior parte de minha juventude, eu também falava – e correntemente – o dialeto egípcio, muito mais rápido e elegante que os outros aprendidos com minha família. Além disso, o egípcio era mais difundido: quase todos os filmes árabes, as novelas radiofônicas e, depois, as novelas televisionadas, eram produzidos no Egito. Seu idioma tornou-se, desse modo, familiar para os habitantes de todo o mundo árabe.

Durante as décadas de 70 e 80, o boom do petróleo acarretou a produção de novelas televisionadas para outros países, desta vez em árabe clássico. Essas novelas, com os personagens vestidos a caráter, pomposas e pesadas, eram tidas como adequadas aos gostos dos muçulmanos (e dos cristãos antiquados, geralmente mais puritanos), que os filmes cairotas cheios de verve poderiam chocar. E, para nós, elas pareciam terrivelmente chatas! A mousalsal (novela) egípcia mais improvisada nos divertia mil vezes mais que o melhor dos dramas feitos sob medida em língua clássica.

Literatura sem dialetos

Mesmo os escritores ditos “regionais” têm tendência a utilizar a língua moderna clássica e raramente, o árabe dialetal

Em todo caso, de todos os dialetos, só o egípcio teve tal divulgação. Dessa forma, eu teria a maior dificuldade do mundo para compreender um argelino, tamanha é a diferença entre os dialetos do Machrek e os do Magreb. E teria a mesma dificuldade com um iraquiano ou até com um interlocutor dotado de forte sotaque do Golfo. É por isso que as informações divulgadas pela rádio ou pela televisão utilizam uma versão modificada e modernizada da língua clássica, que pode ser compreendida pelo conjunto do mundo árabe, do Golfo ao Marrocos – quer se trate de debates, de documentários, de reuniões, de seminários, de sermões de mesquita, ou de discursos em manifestações nacionalistas e de encontros de todos os dias entre os cidadãos que falam línguas muito diferentes.

A exemplo do latim para os dialetos europeus falados até um século atrás, o árabe clássico permaneceu muito presente e muito vivo enquanto língua comum da escrita, apesar dos imensos recursos de toda uma série de dialetos falados que, com exceção do caso egípcio, nunca foram difundidos além do país em que são usados. Além disso, esses dialetos falados não possuem a vasta literatura da lingua franca2 clássica.

Mesmo os escritores ditos “regionais” têm tendência a utilizar a língua moderna clássica e só ocasionalmente recorrem ao árabe dialetal. Na prática, uma pessoa culta tem, de fato, dois usos lingüísticos muito distintos. A tal ponto que, por exemplo, você está conversando com um repórter de um jornal ou de uma televisão em dialetal e depois, de repente, quando a gravação começa, você passa sem transição para a língua clássica, intrinsecamente mais formal e mais cuidada.

Lógica e abstração

A língua clássica também funciona como ponto de convergência sem igual em relação à cultura árabe

Existe, evidentemente, um elo entre os dois idiomas: freqüentemente, as letras são idênticas e a ordem das palavras também. Mas os termos e a pronúncia diferem à medida que o árabe clássico, versão padrão da língua, perde qualquer marca de dialeto regional ou local e emerge como um instrumento sonoro, cuidadosamente modulado, culto, extraordinariamente flexível, cujas fórmulas permitem uma grande eloqüência. Corretamente utilizado, o árabe clássico é único quanto à precisão da expressão e à surpreendente maneira pela qual as variações das letras individuais numa palavra (muito particularmente as terminações) permitem expressar coisas muito distintas.

É também uma língua que funciona como ponto de convergência sem igual em relação à cultura árabe: como escreveu Jaroslav Stekevych, que lhe dedicou a melhor obra moderna3 , “como Vênus, ela nasceu num estado de beleza perfeita, e conservou essa beleza a despeito das peripécias da história e das forças do tempo”. Para o estudante ocidental, “o árabe sugere uma idéia de atração quase matemática. O sistema perfeito das três consoantes radicais, as formas aumentativas dos verbos com seus significados de base, a formação precisa do substantivo verbal, dos particípios. Tudo é clareza, lógica, sistema e abstração”. Mas é também um belo objeto para se olhar em sua forma escrita. Donde o papel central e duradouro da caligrafia, arte combinatória da mais alta complexidade, mais próxima do ornamento e do arabesco do que da explicitação discursiva.

Durante os primeiros dias da guerra no Afeganistão, na emissora de televisão por satélite árabe Al-Jazira, apresentavam-se discussões e reportagens impossíveis de serem vistas na mídia norte-americana. O que era surpreendente, deixando de lado o conteúdo desses programas, era, apesar da complexidade das questões abordadas, o alto nível de eloqüência que caracterizava os participantes às voltas com as maiores dificuldades – e mesmo os mais repulsivos, inclusive Osama bin Laden. Este falava com uma voz doce, sem hesitar nem cometer o menor lapso, o que certamente conta para sua influência. Era também o caso, em menor grau, de não árabes, como os afegãos Burhanuddin Rabbani e Gulbuddin Hekmatyar. Hikmat Gulbandyar, que, sem dominar o dialetal árabe, recorreram com extraordinária facilidade à língua clássica.

Libertação da língua

Comparada com a prosa moderna, a linguagem do Corão tem ares de poesia sonora

Evidentemente, o que, em nossos dias, é chamado de árabe moderno padrão (ou clássico) não é exatamente a língua em que foi escrito o Corão há quatorze séculos. Embora o livro sagrado continue sendo um texto muito estudado, sua língua parece antiga, e até enfática e, portanto, inutilizável para a vida de todo dia. Comparada com a prosa moderna, ela tem ares de poesia sonora.

O árabe clássico moderno resulta do processo de modernização iniciado durante as últimas décadas do século XIX – o período da Nahda, ou renascimento. Isso se deveu, principalmente, a um grupo de homens na Síria, no Líbano, na Palestina e no Egito (dentre os quais um número surpreendente de cristãos). Eles se dedicaram coletivamente à transformação da língua árabe, modificando e simplificando um pouco a sintaxe do original do século VII pelo viés de uma arabização (isti’rab): tratava-se de introduzir palavras como “trem”, “companhia”, “democracia” ou “socialismo”, que, é claro, não existiam durante o período clássico. Como? Utilizando os enormes recursos da língua graças ao procedimento gramatical técnico da al-qiyas, a analogia. Esses homens impuseram todo um novo vocabulário que, atualmente, representa cerca de 60% da língua clássica padrão. Desse modo, a Nahda levou a uma libertação dos textos religiosos, introduzindo sub-repticiamente um novo secularismo no que os árabes disseram e escreveram.

A gramática árabe é tão sofisticada e sedutora por sua lógica que um aluno mais velho a estuda muito mais facilmente, pois pode apreciar as sutilezas de seu raciocínio. Ironicamente, é nos institutos lingüísticos no Egito, na Tunísia, na Síria, no Líbano e no Vermont que o melhor ensino do árabe é dado a não árabes.

Como fala o povo

Líderes populares como Yasser Arafat e Gamal Abdel Nasser utilizavam muito melhor o dialetal que os marxistas

Quando a guerra árabo-israelense de 1967 me levou a me engajar politicamente à distância, uma coisa me impressionou acima de tudo: a política não era conduzida em ‘ameya, ou língua do grande público, como se chama o árabe dialetal, mas, na maioria das vezes, em rigoroso e formal fosha, ou língua clássica. Compreendi rapidamente que as análises políticas eram apresentadas nas manifestações e nas reuniões de modo a parecerem mais profundas do que eram. Descobri, para minha grande decepção, que isso era particularmente verdadeiro em relação às abordagens do jargão dos marxistas e dos movimentos de libertação da época: as descrições de classe, de interesses materiais, aqueles do capital e do movimento operário, eram arabizadas e dirigidas, em longos monólogos, não ao povo, mas a outros militantes sofisticados.

Em particular, líderes populares como Yasser Arafat e Gamal Abdel Nasser, com quem tive contatos, utilizavam muito melhor o dialetal que os marxistas, os quais eram também mais cultos que os líderes palestino ou egípcio. Nasser, principalmente, falava às massas de seus partidários em dialeto egípcio com as frases sonoras do fosha. Quanto a Arafat, dado que a eloqüência árabe depende muito da entonação, ele tem uma reputação de orador abaixo da média: seus erros de pronúncia, suas hesitações e seus circunlóquios inábeis parecem, para um ouvido educado, um elefante andando numa loja de porcelana.

A Universidade Al-Azhar, no Cairo, representa uma das mais antigas instituições de ensino superior do mundo; é também considerada a sede da ortodoxia islâmica, pois seu reitor é a mais alta autoridade religiosa do Egito sunita. Mais ainda: Al-Azhar ensina – essencialmente, mas não exclusivamente – o saber islâmico, cujo cerne é o Corão, assim como tudo o que o acompanha em matéria de métodos de interpretação, de jurisprudência, de hadiths4 , de língua e de gramática.

Verbo divino

O domínio do árabe clássico encontra-se no cerne mesmo do ensino islâmico, para os árabes e outros muçulmanos

O domínio do árabe clássico encontra-se, pois, no cerne mesmo do ensino islâmico de Al-Azhar, para os árabes e para os outros muçulmanos. Porque os muçulmanos consideram o Corão como o Verbo de Deus incriado, “descido” (mounzal) através de uma série de revelações feitas a Maomé. Conseqüentemente, a língua do Corão é sagrada; contém regras e paradigmas obrigatórios para aqueles que a utilizam, ainda que, de forma bastante paradoxal, não possam imitá-la por razão doutrinária (ijaz).

Há sessenta anos, as pessoas escutavam os oradores e comentavam de modo infindável a correção de sua linguagem tanto quanto o que tinham para dizer. Quando fiz meu primeiro discurso em árabe, no Cairo, há duas décadas, um de meus parentes jovens aproximou-se de mim depois que acabei para me dizer o quanto ele estava decepcionado pelo fato de eu não ter sido mais eloqüente. “Mas você compreendeu o que eu disse”, perguntei-lhe numa voz triste – minha principal preocupação era ser compreendido em relação a alguns pontos delicados de política e de filosofia. “Ah! sim, é claro”, respondeu num tom desdenhoso, “não houve nenhum problema: mas você não foi suficientemente eloqüente ou retórico.”

Prosa afiada

Essa reprimenda ainda me persegue quando falo em público. Sou incapaz de me transformar em orador eloqüente. Misturo os idiomas dialetais e clássicos de modo pragmático, com resultados mitigados. Como delicadamente me observaram uma vez, pareço alguém que tem um Rolls Royce mas prefere utilizar um Volkswagen.

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A melhor, a mais depurada, a mais incisiva das prosas árabes que já li ou ouvi foi escrita por romancistas

Somente ao longo dos últimos dez ou quinze anos é que descobri isto: a melhor, a mais depurada, a mais incisiva das prosas árabes que já li ou ouvi foi escrita por romancistas (e não por críticos), como Elias Khoury ou Gamal Al-Ghitany. Ou por nossos dois maiores poetas vivos, Adonis e Mahmud Darwish: cada um deles atinge, em suas odes, alturas rapsódicas tão elevadas que arrebata enormes auditórios em frenesis de encantamento entusiasta. Para eles, a prosa é um instrumento aristotélico afiado como uma navalha. Seu conhecimento da linguagem é tão imenso e tão natural, seus dons tão poderosos, que eles podem ser, ao mesmo tempo, eloqüentes e claros, sem precisar de palavras que alongam o texto e nada lhe acrescentam, de verbosidade cansativa ou de exibição vã.

(Trad: Iraci D. Poleti)

1 - Figura por meio da qual uma palavra ou uma expressão é empregada em sentido figurado.
2 - Língua mestiça, próxima do italiano, que serviu, durante vários séculos, em toda a volta do Mediterrâneo, para a comunicação entre os cristãos de diversas origens e a população muçulmana.
3 - Reorientation. Arabic and Persian Poetry, Indiana University Press, Bloomington, 1994.
4 - Palavras e atos de Maomé e de seus companheiros.