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Livrando-se do peso da herança

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Nem o presidente da República nem o primeiro-ministro encontraram tempo para acompanhar o corpo de Léopold Sedar Senghor a Dacar, de volta à sua terra natal. Perderam a homenagem da França a um dos patriarcas da independência na África

Philippe Leymarie - (01/02/2002)

O homem branco não é mais como que era... No dia 1º de janeiro, aliando-se sem aparentes remorsos a um euro impessoal, a França deixou aos africanos a tarefa de se virarem com o “seu” franco, o CFA. E surgiu – na Secretaria de Estado dos ex-combatentes, onde se vem tentando contornar o recente “mandato Diop” 1 – um sábio especialista para afirmar que a revalorização das pensões dos africanos, “congeladas” há quarenta anos, equivaleria a “criar súbitas fortunas” e provocaria “outro terremoto africano”!

Senghor deixou seu cargo tranqüilo, sem ser obrigado a fazê-lo por imposição de mandantes internacionais ou de revoltas populares...

Mas ainda pior foi o que aconteceu no Natal: nem o presidente da República nem o primeiro-ministro encontraram tempo para acompanhar o corpo de Léopold Sedar Senghor a Dacar, de volta à sua terra natal. Dessa forma, perderam o último encontro da França com um dos patriarcas da independência na África: um católico, que governou um país muçulmano, que idealizou a palavra “negritude”, que forçou sua aceitação pela Academia Francesa, que contribuiu para lançar a francofonia e construiu a nação senegalesa – antes de deixar seu cargo, tranqüilo, sem ser obrigado a fazê-lo por imposição de mandantes internacionais ou de revoltas populares...

“Os brancos vão embora”

A República Francesa, que dedicou cerimônias pomposas para o enterro do presidente Houphouët-Boigny, da Costa do Marfim, deixou de levar em consideração esse simbólico adeus a uma época. E a uma figura importante: pouco importava, numa hora destas, que – tanto no hemisfério Norte quanto no Sul – muita gente não apreciasse o “negro-branco”, o socialista da corte Pompidou ou o gramático isolado da ira do mundo, mais próximo da Academia do que da África...

É claro que – com exceção da Air France e de alguns caçadores de empresas privatizadas – “os brancos vão embora”, como constata o ex-legionário e ex-primeiro-ministro Pierre Messmer2 ... “A África dá medo, a África faz fugir. (...) A ex-metrópole cansou-se de nós. (...) O salve-se-quem-puder é geral: investidores, colaboradores, militares e até missionários e organizações não governamentais”, enfatiza o ex-primeiro-ministro centro-africano Jean-Paul Ngoupande, para quem é preciso construir uma “África sem a França3 ”.

Uma cooperação “meia-boca”

A África dos tempos gloriosos (o Império) ou lucrativos (matérias-primas) e dos “quintais” privados pode ser enviada para o lixo da história

Numa França obscurecida pelo enfrentamento prometéico entre os co-habitantes de um dueto insólito4 , será, sem dúvida, em vão que se irá esperar que a palavra “África” seja pronunciada. Ou mesmo que a política externa – com exceção de sua variante de Bruxelas – se torne um tema eleitoral num país em que prevalecem os “critérios de convergência”.

A África dos tempos gloriosos (o Império) ou lucrativos (matérias-primas), dos “quintais” privados (com seu franco indígena, dos votos “automáticos” nas Nações Unidas e das intervenções militares tipo “mamãe está chegando”) pode ser enviada para o lixo da história, já que o senador Michel Charasse, num relatório recente, refere-se a uma cooperação “meia-boca”, que teria resultado de uma “opção desastrosa”, com uma reforma administrativa que foi apresentada como importante (a absorção dos “africanos” pelo Ministério das Relações Exteriores) e que não deu em projeto político algum...

Para que os governantes, em Paris, pudessem ter uma idéia do que é a África, talvez fosse necessário que tivessem uma idéia do que é a França...
(Trad.: Jô Amado)

1 - Trata-se de uma iniciativa do Conselho de Estado, que decidiu que as pensões de ex-combatentes estrangeiros deveriam ser iguais às de seus colegas franceses. A questão envolve 85 mil pessoas e a sua aprovação poderia ter um custo, anual, de 300 milhões de euros (cerca de 625 milhões de reais) para o orçamento nacional da França – mais de 1,5 bilhão de euros (3,12 bilhões de reais), considerando-se retroativamente.
2 - Ler, de Pierre Messmer, Les Blancs s’en vont, ed. Albin Michel, Paris, 2000.
3 - Ler, de Jean-Paul Ngoupande, L’Afrique sans la France, ed. Albin Michel, Paris, 2002.
4 - N.T.: Os franceses chamam “co-habitação” a existência de um governo em que o presidente pertence ao Rassemblement pour la République (RPR, direita) e o primeiro-ministro, ao Partido Socialista (PS, esquerda).




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