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A queda-de-braços do alumínio

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A disputa mostrou que, se houver conflito entre princípios e interesses privados, os EUA cederão aos segundos

Joseph E. Stiglitz - (01/04/2002)

Tão logo vi os preços desabarem, soube que indústria iria, rapidamente, solicitar alguma ajuda do Estado

No período em que fiz parte do governo (de William Clinton), o caso mais grave de interferência de interesses privados norte-americanos na liberdade de comércio se deu no início de 1994, exatamente depois que o preço do alumínio desabou. Diante da queda dos preços, os produtores de alumínio norte-americanos acusaram a Rússia de dumping. Todas as análises econômicas da situação mostravam claramente que a Rússia não fazia dumping. Simplesmente vendia ao preço internacional, que havia baixado por diversas razões, entre as quais a retração da demanda mundial (...).

Tão logo vi os preços do alumínio desabarem, soube que a indústria iria, rapidamente, solicitar alguma ajuda do Estado - ou novas subvenções, ou uma nova proteção contra a concorrência estrangeira. Mesmo assim, causou-me enorme surpresa o que propôs o presidente da Alcoa, Paul O’Neill: um cartel mundial do alumínio. E ele ameaçava, se um cartel não fosse criado, recorrer às leis antidumping para impedir a entrada do alumínio russo nos Estados Unidos. Consternado, eu quis resistir. Durante uma rápida viagem à Rússia, conversei com Gaidar, então vice-primeiro ministro encarregado da economia. Sabíamos bem, ele e eu, que a Rússia não fazia dumping, mas ambos sabíamos também o quanto se podia usar e abusar das leis dos Estados Unidos - e que isso seria feito. Gaidar compreendia, no entanto, que um cartel seria muito ruim para a Rússia, e concordou comigo: devíamos resistir. Infelizmente, embora talvez isso não devesse surpreender, os interesses privados é que ganharam1.

A conexão Moscou

O Departamento de Estado, que mantinha estreitas relações com os antigos ministérios, declarou-se a favor do cartel

Numa agitada reunião envolvendo os membros do sub-gabinete, a criação de um cartel internacional foi avalizada. Os membros do Council of Economic Advisers (Conselho de Assessores Econômicos) e do Departamento da Justiça ficaram lívidos. (...). Dentro do governo russo, os reformistas se opunham com tenacidade à criação do cartel e me haviam informado diretamente disso. Sabiam que [isso] daria mais poder aos antigos ministérios. Com um cartel, a cada país seriam atribuídas cotas de alumínio – que ele poderia produzir ou exportar. E os ministérios decidiriam quanto à repartição dessas cotas. (...). Eu temia que os lucros excedentes criados por essa restrição ao comércio constituíssem uma fonte suplementar de corrupção. Ainda não havíamos compreendido que, na nova Rússia, que se tornara mafiosa, eles iriam provocar também um banho de sangue na luta pelo controle das cotas.

Quando eu havia conseguido convencer quase todo mundo dos perigos da solução do cartel, dois votos prevaleceram. O Departamento de Estado, que mantinha estreitas relações com os antigos ministérios, declarou-se a favor da criação do cartel. (...). Rubin, que na época dirigia o National Economic Council, desempenhou um papel decisivo, adotando a mesma posição. A questão do alumínio mostrou que, se houver conflito entre princípios e interesses privados determinados, os Estados Unidos cederão aos interesses privados2. (Trad.: Iraci D. Poleti)

1Fiquei numa posição muito delicada durante minha visita à Rússia, no fim de 1993, por ocasião de um encontro com Egor Gaïdar. (...) O que eu podia dizer? 2Para maiores detalhes, ver, de M. Du Bois e E. Norton, "Foiled competition: don’t call it a cartel, but world aluminum has forged a new order", Wall Street Journal, 9 de junho de 1994. Esse artigo indicava que as estreitas relações entre O’Neill e Bowman Cutter, na época diretor adjunto do National Economic Council de Clinton, tinham sido essenciais para se concluir o negócio. O pequeno presente aos russos era uma participação no montante de 250 milhões de dólares, garantidos pela OPIC. (…) A história não pára aí. Em abril de 2000, artigos explicaram como dois oligarcas russos ( Boris Berezovski e Roman Abramovitch) conseguiram constituir um monopólio privado a fim de controlar de 75 a 80 % da produção anual russa, criando, assim, a segunda companhia de alumínio do mundo (depois da Alcoa). Ver principalmente “Russian aluminum czars joining forces”, The Sydney Morning Herald, 19 de abril de 2000, e A. Meier et Y. Zarakhovich, “ Promises, Promises ”, Time Europe, vol. 155, n° 20, 22 de maio de 2000. A imprensa evocou também a hipótese de ligações entre a máfia russa e a produção de alumínio; ver, por exemplo, R. Behar, “Capitalism in a cold climate”, Fortune, junho de 2000.




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