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DOSSIÊ VIVENDI / O PÓS-FORDISMO

O trabalho na “família” Vivendi

Serge Halimi*

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A trajetória e o discurso de Jean-Marie Messier são emblemáticos das transformações do capitalismo francês, e de suas relações com os assalariados

(01/05/2002)

Philippe SollersO seu nome, Messier, significa, em francês, “pequeno caminho que permite ir à missa”. Já Vivendi é música! É a Itália! É uma sonata de Vivendi...

Jean-Marie MessierVocê tem razão, eu gosto de música, da latinidade1 .

No tempo do fordismo, o consentimento dos subordinados à dominação era secundáio. A realidade da luta de classes era conhecida, ou seria em breve

Jean-Marie Messier não teve a sutileza necessária. Deixou-se levar pelo narcisismo. Para fluir entre as stock options que pingam e os sapatos furados, entre os bate-papos com representantes da sociedade parisiense e as desagradáveis reuniões de prestação de contas dos conselhos de administração, entre as benesses do Estado francês e o apartamento de cobertura, de 530 m2 na Park Avenue, em Nova York, é preciso saber navegar, ser astucioso, embelezar, dissimular, mentir, esconder-se. O dono da Vivendi se expôs. Houve até uma ocasião, num primeiro turno de uma eleição presidencial inesperada, em que Jean-Marie Le Pen se permitiu descrever seu adversário, Jacques Chirac, como “o candidato de Jean-Marie Messier”.

A pedagogia talvez venha a ganhar o que perdeu a mobilização anti-fascista. Com Messier, não é o caso de uma banal troca de fusível.Sua trajetória e seu discurso são emblemáticos das transformações do capitalismo francês (leia, nesta edição, os artigos de Frédéric Lebaron e Frédéric Lordon), de sua capacidade de recuperação e de astúcia, dos desgastes democráticos que vem acumulando. Não há nada de exageradamente “complexo” nisso. Se é verdade que as relações de dominação por parte da empresa e a abrangência do sofrimento social pouco evoluíram, as técnicas do exercício do poder patronal mudaram. A paródia social do “diálogo” e da “sociedade civil”, assim como o apetite dos patrões em ocuparem a mídia, decorrem, em parte, dessas mudanças. Messier é o elétron desse campo de força.

A “parceria” na “família” da empresa

Um “gerenciamento científico” desses, escorado em linhas de produção padronizadas, não resiste à aceleração do rimo de inovações

No plano econômico, a antiga organização piramidal, vinculada a um modo de produção taylorista (ou fordista), defendia a existência de tecnologias relativamente estáveis que permitissem prever, quase cientificamente, a inserção do trabalho de cada um na obra de todos. Como forma de legitimação de seu poder, o chefe da empresa não pedia senão a racionalidade superior da gigantesca máquina operária que comandava por meio de contra-mestres e executivos interpostos. Poderia até ser mais temido, já que nunca se mostrava, não era familiar.

Nessa etapa, o consentimento de seus subordinados à dominação é secundário. Por um lado, a realidade da luta de classes era reconhecida, ou, se não fosse reconhecida, a confirmação de sua existência não iria demorar2 . Por outro lado, a colaboração e a “parceria” de todos na alegre “família” da empresa não somente são inúteis, como impossíveis. Isso não impede a prática do paternalismo (caso da Michelin, por exemplo), mas por que solicitar as opiniões dos subalternos se lhes basta sua força de trabalho? “Imbecil”, a ponto de ser comparado a um “boi” por Frederick Taylor, o que se espera do trabalhador é que “faça exatamente o que se lhe manda fazer da manhã à noite”. Ele pode ser – e o será, quando a produção assim o exigir – “substituído como um peão num tabuleiro de xadrez3 ”.

Aos sindicatos, cabe adaptarem-se

Um “gerenciamento científico” desses, escorado em linhas de produção padronizadas, não resiste à aceleração do ritmo das inovações e à pressão crescente da concorrência, em particular nos setores em que se expandem empresas como a Vivendi. Não que o feudalismo empresarial pudesse parecer demasiado autoritário ou exaustivo aos “peões” que manipula (ainda que existisse, uma preocupação dessa natureza seria secundária), mas a flexibilidade insuficiente do sistema o tornaria pouco competitivo.

No início, a mutação tem conotações políticas. Reunida em enormes fábricas e consolidada por suas lutas contra o patronato, a classe operária parecia ameaçadora

Com o lucro na alça de mira, o apelo à “competência” dos assalariados – à sua qualificação, à sua motivação, às suas propostas – incentiva a capacidade de reação por parte das empresas. Para se “modernizar”, portanto, estas passarão a desenvolver, à imagem das práticas de Jean-Marie Messier, a comédia do “diálogo social”. Os sindicatos que tenham sobrevivido à guerra que lhes foi imposta, não mais serão convidados a discutir a natureza de opções patronais, consideradas um fato consumado – “competitividade”, lucros, “criação de valor” (para o acionista) –, mas a refletir sobre as melhores maneiras de se adaptarem. A partir daí, o boi pode escolher o sulco em que passa o arado, desde que o faça corretamente.

A “participação ativa” dos assalariados

No início, a mutação tem conotações “políticas”. Reunida em enormes fábricas e consolidada por suas lutas contra o patronato, a classe operária parecia ameaçadora. O maio de 68 na França, o “outono quente” na Itália, as greves de mineiros na Grã-Bretanha, as mobilizações nos Estados Unidos: aos olhos das elites econômicas e políticas, a perenidade do capitalismo – ou, em linguagem eufemística, a “governabilidade das democracias4 ” – deixaria de estar garantida. A ansiedade dos poderosos é compreensível: a participação do capital na riqueza nacional não parou de cair, entre a década de 60 e até à de 80 (na França, houve uma queda de 10% entre 1959 e 19815 ). A absorção dos assalariados pelo sistema se tornaria útil, pois “sacrifícios” enormes lhes seriam solicitados. Aproveitando-se do fantasma do desemprego, da ampla divulgação por uma mídia moldada na ideologia patronal e ajudada por sindicatos que esperavam conseguir preservar algumas migalhas de suas antigas conquistas, a ideologia da parceria iria procurar a pacificação operária num contexto de desforra social.

Aproveitando-se do fantasma do desemprego e da mídia, que espalha a ideologia patronal, a noção de “parceria” tiraria proveito de sindicatos sedentos de migalhas

Mas não foi só isso. Em 1986, quando Edmond Maire apresentou suas propostas em matéria de flexibilização e diálogo, já era a rentabilidade de “nossas empresas” que o motivava. Para o então dirigente da CFDT, essa prioridade se contrapunha a “uma gestão arcaica, centralizada, que desperdiça as potencialidades dos assalariados e imobiliza as suas qualificações”. Portanto, em nome de trazer para as empresas “a qualidade, a transigência, a capacidade de adaptação e de inovação de que definitivamente precisam”, Edmond Maire reivindica “tipos de gestão que incentivem uma participação ativa dos assalariados6 ”. Mais tarde, a mobilização social de novembro-dezembro de 1995 estenderia um projeto semelhante de “modernização” ao setor público. Na SNCF (estatal francesa das ferrovias), isso é chamado “contratualização com os maiores sindicatos7 ”.

Uma alienação substitui a outra

A disposição de patrões como Messier a adotarem, quase sem esforço, um sonolento discurso de “diálogo”, de “parceria” e de “sociedade civil” decorre, em parte, de uma dificuldade estrutural com que tiveram que se confrontar. Se, em outros tempos, a ausência de um envolvimento pessoal dos assalariados subalternos em seu trabalho não representava qualquer problema, a situação mudou na medida em que o mercado se tornou menos estável e a concorrência mais forte. Como explica a socióloga Danièle Linhart, para que a direção possa “agir de forma eficaz em caráter de urgência, ela necessita transparência, assim como precisa ter certeza de que os assalariados cumprem de maneira leal e confiável suas determinações, para poder avaliar os efeitos8 ”.

Ao invés de se submeterem, como antigamente, às ordens da diretoria, os trabalhadores devem “aderir aos objetivos da empresa”...

Ao invés de se submeterem, como antigamente, às ordens da diretoria, os trabalhadores devem, acrescenta Danièle Linhart, “aderir aos objetivos da empresa, nada escondendo dos dirigentes que organizam o trabalho”. Em conseqüência disso, é fundamental “realizar um trabalho de envolvimento para integrar os assalariados à filosofia, à cultura e à ideologia da direção administrativa9 ”. A partir de então, o assalariado deverá ser convencido da importância de ser controlado, da disponibilidade de seu trabalho e de sua alma: uma alienação toma o lugar de outra. Alguns palhaços poderão gozar seus patrões como quiserem, se isso der lucro a programas do Canal Plus. Pois, às vezes, a ironia “paga”.

A perda da “família” original

Uma gestão desenvolvida com base numa “parceria” de relações sociais desse tipo resulta em inúmeras vantagens. O assalariado irá explorar por si próprio os melhores meios de aumentar a sua própria rentabilidade. Na fábrica da Peugeot em Sochaux, por exemplo, uma “caixa de idéias” permite aos operários concorrerem a um “abono por sugestões”. Embora se trate de um projeto modesto – cerca de 30 euros por “idéia” (sessenta e poucos reais) – representará a possibilidade de stock options para operários, ainda que em miniatura...

Uma outra vantagem é a lógica individualista, personalizada, consolidado por interesses diferenciados, que quebra as solidariedades coletivas, pois a causa da empresa pode ser invocada em nome da “guerra” contra a concorrência, transformando rebeldes em potencial nos pequenos soldados de uma “marca” ameaçada. Quando o espírito de “família” original se dissolve no banho ácido da lógica financeira, como ocorreu no Canal Plus, é tamanho o efeito revelador que só pode desencadear ressentimento e amargura com relação aos membros da família sacrificados. Só então descobrem a lua, e suas línguas se soltam.

Os “modelos” da “sociedade civil”

Quando o espírito da “família” original se dissolve no banho ácido da lógica financeira, é tamanho o efeito revelador que só pode desencadear ressentimento e amargura

Para que os assalariados conheçam e colaborem com os objetivos da empresa, é necessário um sistema de comunicação interno, que normalmente recorre a técnicas interativas e onde a empresa ocupa um certo espaço. Falando sobre a atividade sindical na Vivendi, por exemplo, Jean-Marie Messier explicou: “Demos aos sindicatos a cesso à Intranet, pois isso é mais eficiente do que ficar distribuindo panfletos à entrada dos edifícios e das fábricas10 ”. Que generosidade! Não menos eficientes, mas mais brutais, são a delação e o medo. Mesmo nos tempos de Pierre Lescure – patrão até hoje adulado, que era “ligado” e falava em seus pais comunistas e era fanático pela música de rock –, os jornalistas só conseguiam fazer entrevistas dentro do Canal Plus após terem garantido aos assalariados, sem dúvida intimidados pela presença de câmeras de vigilância nos corredores, que seu anonimato seria observado.

É compreensível por que tanta transparência levou grandes empresários, como Messier, François Pinault e Bernard Arnault – assim como Bill Gates e Jack Welch –, a desfilarem por toda parte, opinando sobre quase tudo. Modelos da “sociedade civil”, um criava um museu, o outro, uma fundação. E todos eles, convertidos à “ética”, à “cidadania” e à luta contra a extrema-direita, comprando furiosamente meios de comunicação e jornalistas, para ter certeza de que sua generosidade não seria ignorada. No dia 3 de dezembro de 2001, o dono da Vivendi fez uma reunião com sua “comissão de futurologia” (Samuel Huntington, Salman Rushdie, Francis Fukuyama e Luc Ferry) para refletir sobre a situação do planeta após o 11 de setembro.

Nas mãos dos acionistas

É compreensível que tanta transparência tenha levado grandes empresários a desfilar por toda parte, opinando sobre quase tudo

Mas Jean-Marie Messier foi mais longe: depois de comprar a Universal, também quis investir na dissidência, multiplicando “debates” que lhe permitiriam insinuar que partilhava das idéias rebeldes com que o acusavam – as quais, por sinal, eram editadas, gravadas e divulgadas pela sua empresa – e que esperava que o ajudassem a tornar feliz a globalização. “As grandes causas”, explicou Messier a Alain Minc, “são colocadas por José Bové, pelas organizações anti-globalização, pelas ONGs, pelos movimentos ambientalistas. O jogo do poder e contra-poder não é necessário. É indispensável11 .” Intimidado por toda essa auto-confiança, Minc concluiria, alguns meses mais tarde: “Os franceses têm que desejar o sucesso de Messier.”

Mas é sabido que para o dono do universo Vivendi os franceses tornaram-se pouca coisa, num país muito pequeno. 12 . Atualmente, o destino deles está nas mãos dos acionistas. Certo dia, Messier os reuniu no pátio interno do museu do Louvre. A antiga residência dos reis da França.
(Trad.: Jô Amado)

* Editor-assistente de Le Monde Diplomatique.

1 - Diálogo entre Philippe Sollers e Jean-Marie Messier, Le Figaro Magazine, Paris, 23 de junho de 2001.
2 - Nos últimos vinte anos, os meios de comunicação fizeram um esforço, tão obstinado quanto pouco notado, para ocultar o papel que os movimentos sociais (greves, manifestações, ocupações) tiveram na construção dos Estados de bem-estar social, que pouco teve a ver com a Providência, e menos ainda com a generosidade patronal. N.T.: Para uma melhor compreensão do trocadilho do autor, é fundamental saber que, na língua francesa, “Estado de bem-estar social” é “Etat-providence”.
3 - Ler, de Frederick Winslow Taylor, The Principles of Scientific Management, ed. Norton, Nova York, 1967.
4 - É esse o tema de um célebre relatório da Comissão Trilateral: ler, de Michel Crozier, Samuel Huntington e Jooji Watanuki, The Crisis of Democracy, ed. New York University Press, Nova York, 1975.
5 - De 1983 a 1996, ao contrário, seria a participação dos salários no Produto Interno Bruto que iria cair brutalmente, passando de 68,8% para 59,9%. (Fonte: Coletiva de imprensa de Dominique Strauss-Kahn, ministro da Economia e das Finanças, 21 de julho de 1997.)
6 - Le Monde, 10 de agosto de 1986. Citado por Luc Boltanski e Eve Chiapello em Le Nouvel esprit du capitalisme, ed. Gallimard, Paris, 1999.
7 - Definição de um membro da direção da SNCF citada no artigo “Les entreprises publiques jouent le dialogue social pour se moderniser”, Les Echos, 28 de março de 2002.
8 - Ler, de Danièle Linhart, Le rôle de la communication dans le management néo et post-taylorien, ed. Terminal, 2001.
9 - Le rôle de la communication dans le management néo et post-taylorien, ed. Terminal, 2001.
10 - Programa “Bouillon de culture”, canal de televisão France 2, 29 de setembro de 2000.
11 - Dossiê “Les Misérables” nºs 2 e 3, ed. Pour Lire Pas Lu, Marselha, fevereiro de 2001. As inúmeras citações desse tipo que podem ser lidas nesse dossiê têm, nos dias de hoje, um encanto bastante especial.
12 - “If it was good for business, I would move the company anywhere” (Se fosse bom para os negócios, eu levaria a empresa para qualquer outro lugar), declarou ele ao Financial Times no dia 20 de junho de 2000.




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