Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Miguel: breve simbologia de um país que não mudou

» Elogio à sensorialidade da Cultura

» Edição de 5 de junho de 2020

» E se a doméstica desafiar a Casa Grande?

» Esperança como ação: caminhos ao pós-pandemia

» Como reinventar o estar presente, em quarentena

» Literatura dos Arrabaldes: Territórios culturais

» Depois da pandemia, a semana de quatro dias

» Edição de 4 de junho de 2020

» George Floyd: esse não é só um caso policial

Rede Social


Edição francesa


» Une autre organisation du commerce international était possible…

» Industrie, socle de la puissance

» Victoire historique au procès de l'amiante

» La cotisation, levier d'émancipation

» Sur le toboggan de la crise européenne

» Bouée pour la Grèce, béquille pour l'euro

» Faust et l'alchimie capitaliste

» Indétrônables fauteurs de crise

» Comment la droite américaine exploitait les émeutes

» Bush peut-il tirer parti des émeutes de Los Angeles ?


Edição em inglês


» UK Labour: from Corbyn to Starmer

» June: the longer view

» Another ‘Europeanisation'

» Miami: flood risk and development

» Texas opens again for business

» US in the spring of the pandemic

» Florida's flooded future

» Oman struggles to stay neutral

» Syria's quiet return

» UK coexists with coronavirus


Edição portuguesa


» Edição de Junho de 2020

» A fractura social

» Vender carros Audi na Birmânia

» Edição de Maio de 2020

» Defender os trabalhadores

» Todos crianças

» Há um problema com a representação jornalística da violência doméstica

» Chile, o oásis seco

» Edição de Abril de 2020

» O tempo é agora


TUNÍSIA

Renasce o projeto de renovação

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Exatamente um ano após a assinatura, em 1986, de um acordo de ajustes estruturais com o Fundo Monetário Internacional, como se fosse obra do acaso, o general Ben Ali tomou posse como presidente. Atualmente está de olho no quarto mandato

Kamel Jendoubi - (01/03/2003)

Apesar da persistência da repressão, foram-se os tempos da resignação na Tunísia. A perspectiva de ver o atual chefe de Estado, o presidente Ben Ali, disputar um quarto mandato em 2004, na realidade vem dinamizando o movimento de renovação que, há alguns anos, mobiliza redes de associações e partidos de oposição laica em torno de um projeto de reconstrução democrática.

Os países ocidentais nunca desmentiram seu apoio ao regime do general Ben Ali, instituído com o objetivo de aplicar na Tunísia as receitas neoliberais

Publicado por iniciativa da revista Confluence Méditerranée, o livro La Tunisie de Ben Ali: la societé contre le regime1 (Confluência Mediterrânea, a Tunísia de Ben Ali) expõe essa evolução com a importante participação de tunisianos mais ou menos envolvidos nesse movimento. Pesquisadores e ativistas traçam um primeiro balanço crítico do regime onde vemos como, através da prática e dos discursos, o chefe de Estado e seus assessores estão vêm abordando a economia e a sociedade conforme as reformas impostas pela globalização liberal. Lembra-se, com muita propriedade, que o general Ben Ali tomou o poder em novembro de 1987 – exatamente um ano após a assinatura em 1986, como se fosse obra do acaso, de um acordo de ajustes estruturais com o Fundo Monetário Internacional. Desde então, nunca foi desmentido o apoio dos dirigentes ocidentais ao regime estabelecido com o objetivo de aplicar na Tunísia as receitas neoliberais. Pior ainda: o acordo de parceria, assinado em 1995 com a União Européia, iria permitir aos parentes e aliados do presidente acelerar sua apropriação das estruturas financeiras e econômicas. Não se encontrará no livro uma descrição dos meios empregados com essa finalidade, mas os escândalos são publicamente conhecidos e, aliás, foi por isso que a irritação acabou contaminando toda a sociedade, inclusive os homens de negócios.

As posições do partido islamita

A organização pela retomada do movimento renovador pode ser acompanhada ao longo das entrevistas com os principais atores – e, principalmente, os dirigentes dos partidos reunidos numa espécie de coalizão em torno do Congresso para a República (CPR), criado em 2001 por Moncef Marzouki, ex-candidato à Presidência da República e um dos principais alvos da ditadura. O objetivo é convocar uma “conferência nacional democrática”, na qual será escrito o rascunho da nova “constituição da República”.

Em nome do partido que preside, Marzouki enfatiza que a alternância democrática deve ser preparada com a participação de “toda a oposição real”

Em nome do CPR, que preside, Marzouki deixa claro que a alternância democrática deve, logicamente, ser preparada com a participação de “toda a oposição real”. Coloca-se, então, a questão da participação do partido islamita Ennahda que, antes de sua proibição em 1992, era a principal força de oposição. Seu líder, Rachid Ghannouchi, exilado em Londres, defende posições seguras a esse respeito num “documento” em que responde às perguntas de Olfa Lamloum: “Os ‘fundamentalistas’ da Tunísia”, diz ele, “aprenderam a distinguir entre o que é devido e o que é possível, focalizando seu projeto, no curto prazo, sobre o desenvolvimento de sua visão social (...) e se satisfazendo com uma participação política simbólica (...).”

As “interpretações humanas” do Corão

Se é esta a hora de superar o confronto entre “modernizadores” e “tradicionalistas” – que custou a liberdade ao povo tunisiano, desde a independência em 1956 –, o livro do filósofo e historiador Mohamed Talbi, Penseur libre en terre d’Islam (O pensador livre na terra do Islã), pretende contribuir nesse sentido. Ele reserva sua fúria contra os dois ditadores que ocuparam o poder, sem interrupção, até os nossos dias, e lembra que foi Bourguiba o grande responsável, por ter desde o início eliminado seus opositores e mantido os “tradicionalistas” afastados da tarefa da modernização.

Entretanto, as preocupações do autor vão muito além do caso da Tunísia. Muçulmano convicto, ele se exprime com muita erudição e clareza sobre o Corão e a cultura muçulmana, oferecendo ao leitor o fruto de um longo trabalho de reflexão por ocasião de um diálogo com a filósofa cristã Gwendoline Jarczyk – conversa que ocupa três quartos do volume. É, da mesma forma, uma maneira de enriquecer o atual debate dos democratas tunisianos, do qual quer participar, apesar de nunca “ter feito política”. Retém-se do livro, principalmente, que de sua vivência da história o filósofo apreendeu “a que descaminhos (podem levar) as interpretações humanas” do Corão: cada um deve ser livre para se orientar pela religião, conclui, mas “a política deve continuar sendo assunto dos homens”.

(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Organizado por Olfa Lamboum e Bernard Ravenil, ed. L’ Harmattan, coleção “Les Cahiers des Confluences”, Paris , 2002, 282 páginas.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Regimes Autoritários
» Tunísia
» África

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos