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DOSSIÊ IRAQUE

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Em 1995, o cidadão Daniel Pipes, hoje assessor de Bush, acusou os islamitas de terem perpetrado o mega-atentado de Oklahoma. Os atentados de 11 de setembro o transformariam em profeta. Seu pai já contribuíra para criar o “Império do Mal”

Dominique Vidal - (01/03/2003)

Sangue bom não poderia negar. Promovido, em 1981, ao cargo de chefe do departamento soviético do Conselho Nacional de Segurança, o sovietólogo Richard Pipes contribuiu para pintar a URSS sob a roupagem do “Império do Mal” contra o qual Ronald Reagan se ergueu para salvar o Ocidente. Vinte anos depois, seu filho, Daniel Pipes, fez parte da task force antiterrorista do Departamento da Defesa norte-americano.

Interessando-se por essa comovente linhagem, o Financial Times constatou recentemente: “Agora, as idéias e as hipóteses que fundamentavam o anticomunismo estão revigoradas para o combate a uma outra ideologia. Do mesmo modo que muitos acreditavam que o comunismo representava, para a democracia ocidental, a maior ameaça da segunda metade do século XX, também são muitos os que, hoje, consideram o islamismo radical a mais grave ameaça1.”

“Substituir a Constituição pelo Corão”

Foi convidado de todos os grandes programas de televisão. Autor de uma dezena de livros, está escrevendo mais um: Militant Islam Reaches América...

Criador do Middle East Fórum, um think tank dedicado “a definir e promover os interesses norte-americanos no Oriente Médio”, Daniel Pipes passava por um extremista até o 11 de setembro. Não fora ele, contra todas as provas, que acusara os islamitas de terem perpetrado o mega-atentado de Oklahoma, no dia 19 de abril de 1995? Os atentados de Nova York e de Washington iriam transformá-lo em profeta.

Já no dia 12 de setembro de 2001, o Wall Street Journal oferecia-lhe uma página inteira. Também ganhou espaço no Washington Post, no New York Times, no Los Angeles Times, no Jerusalem Post e em cerca de sessenta outros jornais, sem esquecer inúmeras revistas, como Commentary, Atlantic Monthly, Foreign Affairs, Harper’s e New Republic. Foi convidado para comparecer a todos os grandes programas de televisão. Autor de uma dezena de livros, está escrevendo mais um: Militant Islam Reaches América. Modestamente, a nova estrela solta: “No mundo da política, eu sou o número um2.”

O verdadeiro número um, evidentemente, é George W. Bush, para cuja máquina de propaganda Daniel Pipes, especialista em islamofobia, é útil. Crítico de longa data da Síria, do Iraque e da Arábia Saudita, cético em relação aos acordos de Oslo, partidário da violência apreciada por Ariel Sharon, ele redobra os ataques contra “as ambições do islamismo militante” que não quer apenas “expulsar os Estados Unidos da Arábia Saudita” ou “mudar a política norte-americana no que diz respeito ao conflito israelo-árabe” ou “acabar com as sanções contra o Iraque”: ele pretende “mudar a própria natureza dos Estados Unidos3” - ou, como Daniel Pipes escreveria um dia, “substituir a Constituição [norte-americana] pelo Corão4”.

Uma certa inclinação para a obstinação

“A diferença entre um islamita moderado e um islamita radical é como a diferença entre um nazista moderado e um nazista radical”, pontifica Pipes

Essa espada de Dâmocles que pairaria sobre os Estados Unidos justifica, a seu ver, a mais implacável repressão contra todos os norte-americanos antiamericanos, começando pelos muçulmanos: “Não é hora de se preocupar com os sentimentos das pessoas”, declara Daniel Pipes, que considera “absolutamente necessário” que o FBI mantenha incomunicáveis os prisioneiros. “Que alguns passem um certo tempo atrás das grades quando não deveriam estar ali, é um preço que estou pronto a pagar5.” Pior, tendo declarado os Estados Unidos em perigo, Daniel Pipes acredita-se autorizado a fazer o papel de McCarthy: em seu site “Campus Watch”, denuncia nominalmente – com freqüência como “anti-semitas” - os professores universitários hostis à guerra que a Casa Branca prepara contra o Iraque. O que lhe valeria ser declarado persona non grata em várias universidades...

Mais bushista que Bush, esse novo cruzado chegaria ao ponto de criticar o atual governo por “fazer uma nítida distinção entre um bom e um mau islamismo”. Porque ele aprecia muito pouco esse tipo de nuance: “A diferença entre um islamita moderado e um islamita radical”, garante, “é como a diferença entre um nazista moderado e um nazista radical6.”

A respeito de seu pai, o filho faz questão de esclarecer: “Sempre o admirei. Talvez eu tenha herdado dele uma certa inclinação dogmática para a obstinação7.” Está registrado.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Financial Times, Londres, 10 de janeiro de 2003.
2 - Philadelphia City Paper, 18 de julho de 2002.
3 - Ibid.
4 - The Nation, 11 de novembro de 2002.
5 - Philadelphia City Paper, op. cit.
6 - Ibid.
7 - Financial Times, op. cit.




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