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Foi sob uma chuva de morteiros atirados pelas Farc que Alvaro Uribe Vélez assumiu suas funções em agosto do ano passado, anunciando o recrudescimento do conflito entre o Estado e as guerrilhas, agora com intervenção cada vez maior dos forças norte-americanas

Maurice Lemoine - (01/04/2003)

Para o diálogo, Pastrana comprometeu-se a negociar “uma profunda reforma econômica e social” e a lutar contra os grupos paramilitares. Na prática, estabeleceu o Plano Colômbia

Foi sob uma chuva de morteiros de 120 mm atirados pelas Forças Armadas Revolucionárias (Farc) – que mataram 21 pessoas no palácio presidencial – que Alvaro Uribe Vélez assumiu suas funções, em Bogotá, em 7 de agosto de 2002. Em 10 de setembro, alguns dias antes da viagem do novo presidente a Washington, o governo editava o decreto 2002/2002 que constitui a coluna vertebral de sua política e notificava (art. 33): “Hoje, a violência política e o terrorismo são idênticos”.

Como os paramilitares, mas sem nenhuma medida comum (são responsáveis por cerca de 20% a 22% das violações de direitos humanos), os movimentos de oposição armada são justamente acusados de não respeitar o direito humanitário internacional. Eles praticam a cada ano centenas de seqüestros pelo pagamento de um “imposto revolucionário”. Desde a ruptura do diálogo (20 de fevereiro de 2002), sua estratégia é destruir a governabilidade local ameaçando autoridades (centenas de funcionários públicos tiveram de pedir demissão, um prefeito e quatro conselheiros foram executados). E para obter ao fim de uma operação “de troca” a libertação de seus combatentes aprisionados, as Farcs se lançaram em uma política de seqüestros com alvos específicos (além da ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt, elas capturaram , entre outros, dois ex-ministros, dois ex-governadores e 12 deputados regionais da Assembléia do Vale1).

Traições do Estado

O governo tinha uma idéia errada das guerrilhas, como se estivessem cansadas e politicamente derrotadas, não oferecendo nada mais do que uma rendição “honrada”,

Por essas razões e pela suposta “escalada” que teriam conseguido, atribui-se às Farcs a responsabilidade da ruptura das conversas de paz com o ex-presidente Andrés Pastrana. No entanto, isso é esquecer que, ao estabelecer esse diálogo, ele comprometeu-se a negociar “uma profunda reforma econômica e social” e a lutar contra os grupos paramilitares. Na prática, Pastrana estabeleceu, em conjunto com Washington, o Plano Colômbia, seguido de um projeto neoliberal devastador, e o paramilitarismo aumentou durante as negociações. “Durante os 40 meses e 17 dias que correram desde o início do processo de paz com as Farcs”, observa FIDH por ocasião da ruptura2, “a Colômbia conheceu mais de mil massacres e mais de um milhão de deslocamentos. De junho de 2000 a junho de 2001, uma média de 20 assassinatos políticos por dia pôde ser contabilizada. Dois terços dessas cifras são atribuídas ao Estado e aos grupos paramilitares.”

Ao estabelecer conversas de paz, em 1999, o governo tinha uma idéia errada das Farcs – e também do ELN –, como se estivessem cansadas e politicamente derrotadas. Ele não lhe ofereceu nada mais do que uma rendição “honrada”, esquecendo da dimensão essencial do conflito e de sua solução: a reforma social.

Os conflitos nos quais se desenrolou a ruptura se inscreve na longa tradição dos compromissos não mantidos e das traições do Estado colombiano. Um prazo de 48 horas foi previsto nos acordos para que as Farcs pudessem evacuar a zona desmilitarizada do Caguan em caso de encerramento do diálogo. Três horas! Depois dessa ruptura, as forças armadas investiram contra a zona, apoiados por cerca de 200 missões aéreas de aviões OV-10, AT-37, DC-34 e Kafir e helicópteros Black Hawk, que bombardearam 87 locais. Estimando que as melhores forças da Farc estavam concentradas nessa região, tanto o Exército quanto os militares norte-americanos acreditavam estar desferindo-lhes um golpe estratégico, causando-lhes pesadas perdas e eliminando fisicamente Manuel Marulanda (líder da organização), Jorge Briceño (chefe militar) e Raúl Reyes (negociador número 1).

Guerra total de Uribe

Uribe lançou-se numa guerra total, a tal ponto que, em janeiro de 2003 pediu a Washington para intervir na Colômbia e montar ali uma operação militar similar à conduzida no Golfo

Nada disso aconteceu, e para mostrar sua força, inclusive nas cidades, as Farc subiram as apostas atacando o palácio presidencial, em 7 de agosto, apesar da presença de 20 mil soldados e a vigilância da capital por aviões americanos.

Fortalecido pela nova situação criada pelo 11 de setembro de 2001 e apoiando-se na doutrina de combate contra o terrorismo de George W. Bush, que lhe permite obter financiamento, ajuda e informações militares, Uribe lançou-se numa guerra total. A tal ponto que, em 15 de janeiro de 2003 ele pediu a Washington para intervir na Colômbia e montar ali uma operação militar similar à conduzida no Golfo. Se isso ainda não aconteceu, pelo menos 208 militares e 279 civis norte-americanos já estão lá, oficialmente, presentes no território onde eles participam, de uma forma ou outra, da luta contra as guerrilhas. Em 13 de fevereiro, três deles, que participavam de uma missão de informação, foram feitos prisioneiros pelas Farcs, depois que seu avião foi abatido. A seguir, 49 membros das Forças Especiais Americanas foram enviadas à Colômbia para participar das operações militares para libertá-los. Perigosa escalda...

(Trad.: Denise Lotito)




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