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Paris, a vermelha

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Afastando-se dos clichês turísticos, o autor de ’A invenção de París’ faz um trabalho de erudição histórica surpreendente e aborda uma cidade de escritores e rebeliões, que guarda lugares onde se condensa uma memória ao mesmo tempo insurrecional e poética

Guy Scarpetta - (01/05/2003)

A obra ressuscita o espírito de insubmissão que atravessa a cidade, sua memória revolucionária, o eco dos levantes populares que escandiram a sua história

Compramos um livro, um pouco por acaso, numa banca de estação de trem. Quando se trata de Paris1, esperamos o clichê turístico habitual, retrato pitoresco e estereotipado dos bairros. Mas então, desde as primeiras páginas, é a divina surpresa. Temos aqui sem dúvida, uma soma, uma proeza de erudição histórica, mas também um livro de paixão, de exaltação, de partidos tomados, justificados – um jeito incrível de captar ou de ressuscitar este espírito de insubmissão que atravessa a cidade, sua memória revolucionária ocultada, o eco, esplendidamente reavivado, dos levantes populares que escandiram a sua história. Eis portanto o relato da expansão contínua de Paris, ultrapassando os seus limites sucessivos, a absorção progressivas dos bairros periféricos, depois das vilas (Passy, Chaillot, ou Montmartre, Belleville, Charonne), tudo isso minuciosamente detalhado, escrutado. Aqui está o Quartier Latin de Villon (quem viveu em Paris nos anos 1960, antes do grande vandalismo do Presidente Pompidou, podia sentir irresistivelmente que ali um pouco de Idade Média sobrevivia); os cabarés da Courtille, no século XVIII, principal local dos prazeres de baixa reputação, e o fabuloso hotel da Guimard, na chaussée d’Antin, ornado por Fragonard, ponto culminante da desordem libertina. Agora os hotéis do Marais, freqüentados pelos poetas barrocos, e o Montparnasse de Apollinaire, as misteriosas passagens que fascinavam Aragon e Walter Benjamin, e o Saint-Germain-des-Prés do pós-guerra, foco da criação artística hoje anexado pela burguesia e a moda de luxo. Enfim as pessoas passeando sem pressa, os “camponeses de Paris”, os escritores (certamente nenhuma cidade foi tão escrita, tão indissoluvelmente ligada aos textos que inspirou) - a Paris de Nerval, e aquela de Balzac, de Baudelaire, de Proust, de Breton, apenas podemos lamentar que num livro como este, a Paris de Guy Debord e dos situacionistas seja tão pouco abordado…

Luta e rebelião

O mais marcante é a luta ininterrupta de uma Paris da rebelião, cem vezes vencida, cem vezes renascendo, que nunca se conseguiu controlar, reprimir, aniquilar

Porém o mais marcante é o desenterramento do que Eric Hazan chama de “Paris vermelha” – ou esta luta ininterrupta entre uma Paris da rebelião, cem vezes vencido, cem vezes renascendo, e o que, sem cessar, sem nunca conseguir, se quis controlar, reprimir, aniquilar. Daí estas páginas, as mais esclarecedoras, sobre a visão repressiva, estratégica, da abertura das grandes avenidas pelo Hausmann (onde entendemos enfim por que a praça da República é, de fato, um lugar amaldiçoado) bem como sobre as destruições irreparáveis e as atrocidades arquitetônicas fomentadas por Pompidou e Malraux, como se fosse para conjurar o abalamento de um certo mês de maio. Hazan faz reviver magistralmente estas ruas de artesãos do Faubourg Saint-Antoine, de onde surgiu a corrente que levou à Bastilha e estes dias febris de revoltas, de barricadas – desde os de 1830, de 1848 (com uma forte homenagem ao personagem geralmente difamado de Blanqui), da Comuna (cujo último bolso de resistência foi o Faubourg du Temple, que hoje como por acaso é o bairro mais cosmopolita de Paris), até os de 68, justamente, que inspiraram ao Hazan esta luminosa fórmula: “Maio de 68 era a primeira revolução moderna: ela não tinha o objetivo de tomar o poder”. Frase a ser meditada, no momento em que se espalha sobre estes “eventos” uma abjeta conjunção de falsificação e de difamação. Paris guarda assim lugares mágicos, magnéticos, onde se condensa uma memória ao mesmo tempo insurrecional e poética. O mérito de ter sentido esta imantação, além do trabalho propriamente histórico, fica com o Hazan. Mesmo se tratando dos locais mais simples, mais secretos, como este enigmático pequeno triângulo, no lugar onde bifurca a rua Jean-Pierre Timbaud, como sua estranha estátua, suas árvores, bem na frente da mítica Casa dos Metalúrgicos, ainda assombrada pelo espectro dos republicanos espanhóis que nela se refugiavam...

(Trad.: David Catasiner)

1 - A invenção de Paris, de Eric Hazan, Seuil, col. “ Ficção e Cia ”, Paris, 2002, 462 páginas, 23 euros.




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