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EDITORIAL

O Irã na linha de mira

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Por trás da aparente calma nas ruas do Irã, transparece a preocupação com a ameaça americana de fazer do país o próximo alvo da “guerra contra o terrorismo”

Ignacio Ramonet - (01/02/2005)

Bush diz “não excluir nenhuma possibilidade” quando questionado sobre um possível ataque militar contra o Irã

Nas belas avenidas de Teerã, entupidas por congestionamentos apocalípticos, não se sente, entre os transeuntes, qualquer tipo de angústia em relação a uma eventual ameaça militar dos Estados Unidos, agora presentes no Iraque e no Afeganistão, às portas do Irã. Nenhum nervosismo nos aeroportos – onde as medidas de segurança, comparadas com as que estão em vigor na Europa ou nos Estados Unidos, parecem ridiculamente permissivas. A mídia local tampouco diz mais do que o necessário e dedica suas manchetes a outros assuntos – viagem do presidente Khatami à África, o processo de Charles Graner, o “torturador de Abu Ghraib”, ou as eleições iraquianas.

Mas, por trás dessa calma aparente, transparece a preocupação. A imprensa apressou-se em reproduzir, por exemplo, no dia seguinte à sua publicação na revista New Yorker, a íntegra da pesquisa de Seymour Hersh “The Coming Wars”(“As próximas guerras”). 1 Nela, o jornalista afirma que, depois do Iraque, a “guerra contra o terrorismo” vai continuar por meio de um ataque contra Teerã. Assessorado pelos “civis do Pentágono” (Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz e Douglas J. Feith), George W. Bush teria autorizado missões secretas no interior do Irã. Com a ajuda de informações fornecidas por Israel e pelo Paquistão, comandos viriam tentando, desde julho de 2004, obter informações sobre mais de três dúzias de objetivos relacionados com os programas nuclear, químico e balístico iranianos. Ataques de precisão lançados pelas forças especiais poderiam, dentro de pouco tempo, tê-los como alvos.

O Pentágono não desmentiu. E o presidente Bush, a quem o canal NBC perguntou se descartaria um ataque militar contra o Irã, respondeu em tom de ameaça: “Espero que possamos acertar isso de forma diplomática, mas não excluo nenhuma possibilidade.”

Pressão histórica

“Estamos acostumados com a hostilidade deles (os americanos). A questão do programa nuclear é apenas um novo pretexto”

Governistas ou opositores, os interlocutores que se encontram em Teerã continuam tranqüilos. “Faz agora 25 anos” – declara-nos, por exemplo, o professor Mahmood Kashani, opositor moderado, ex-candidato à Presidência da República – “que os Estados Unidos puseram o Irã em sua linha de mira. Desde 1995, Washington decretou contra o Irã um embargo comercial, agravado mais tarde pela lei de Amato2 . Depois, Bush classificou-nos entre os países do ‘eixo do Mal’, e a nova secretária de Estado, Condoleezza Rice, acaba de definir o Irã como um dos ’postos avançados da tirania’ no mundo. Estamos acostumados com a hostilidade deles. A questão do programa nuclear é apenas um novo pretexto.”

O ministro da Defesa do Irã, Ali Shankhani, foi mais firme: “Estamos em condições de afirmar”, declarou ele em resposta às ameaças de Washington, “que possuímos tal nível de força que nenhum país terá interesse em nos atacar. Nenhum de nossos adversários conhece com precisão o poder de nossa capacidade militar, nem nossa habilidade em empregar estratégias inéditas. Produzimos rapidamente equipamentos que nos conferem o maior poder de dissuasão3 .”

O Irã sempre afirmou que seu programa nuclear é de natureza civil e situa-se no âmbito do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), do qual Teerã é signatária4 . O país comprometeu-se, em novembro de 2004, a suspender suas atividades de enriquecimento de urânio, após negociações com o Reino Unido, a Alemanha e a França, três potências desta vez unidas numa ação diplomática comum destinada a fazer Teerã renunciar, definitivamente, a qualquer ambição nuclear militar e a evitar uma escalada semelhante à que levou, em março de 2003, à invasão do Iraque5.

Desastre para a democracia

Para muitos opositores e democratas iranianos, as ameaças americanas podem reforçar um regime islâmico ultrapassado

Mas Israel está convencido de que o programa nuclear iraniano logo terá alcançado um ponto sem volta. “Se nada for feito, o Irã poderá produzir urânio enriquecido daqui a seis meses, o que deveria permitir-lhe produzir sua primeira bomba atômica daqui até 2008”, afirmou o general Aharon Zeevi, chefe do serviço de informações militares israelense, no dia 12 de janeiro de 2005. Enfatizou, igualmente, que o Irã já dispunha de um míssil, o Shihab-3, com um alcance de 1.300 quilômetros, “capaz de atingir o coração de Israel”.

No momento em que o Irã se prepara para a eleição presidencial de junho de 2005 – à qual não poderá candidatar-se o reformista Mohammad Khatami, que termina seu segundo mandato –, essas ameaças são inoportunas. Para muitos opositores, elas poderiam, paradoxalmente, reforçar um regime islâmico ultrapassado. “Os abusos do Islã radical”, declara-nos, por exemplo, um jornalista laico, “acarretaram uma reação do povo, em especial das mulheres, que reivindicam mais democracia. A maioria dos iranianos viu com simpatia as intervenções norte-americanas contra o Afeganistão dos talibãs e contra o Iraque de Saddam Hussein porque nos livraram de dois regimes que nos eram ferozmente hostis. Mas, em contrapartida, as ameaças atuais de Washington e de Israel beneficiam as correntes mais conservadoras e empurram para a Presidência os candidatos mais anti-reformistas. Para os democratas iranianos, isso é um desastre.”

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Iran News, Teerã, 18 de janeiro de 2005.
2 - Aprovada em 5 de agosto de 1966, a lei de Amato estabelece que qualquer empresa reconhecidamente culpada por investir mais de 40 milhões de dólares no Irã, mesmo que não seja norte-americana, estará sujeita a sanções.
3 - Tehran Times, Teerã, 18 de janeiro de 2005.
4 - Dois aliados dos Estados Unidos na região nunca o assinaram e possuem arma atômica: o Paquistão e Israel. Eles não são objeto de nenhuma sanção por parte de Washington.
5 - Ler, de Walid Charara, “Depois de Bagdá, Terrã?”, Le Monde diplomatique, janeiro de 2005.




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