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E na janela há um gato

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Espiei a janela. Voltei-me para o editor de texto e pousei as mãos sobre o teclado. Ouvia as batidas do meu coração. Delírio!

Olivia Maia - (27/10/2007)

E então porque soubesse que a solução para sua crise deveria estar nas mãos do autor, teve certeza que precisava se encontrar com ele. Mas como se encontrar com o próprio criador? Antes fosse Deus. Bastava tomar o metrô e entrar em uma qualquer igreja, aproximar-se do altar e. Ainda, quê? Bastasse erguer as mãos aos céus e fazer uma prece.

Antes fosse.

E mais: se Anita sabia que era personagem era porque seu autor assim permitira, e isso só podia significar que ele sabia de suas intenções. Então não seria tudo ainda mais simples? Ora, que então bastava sentar-se em um banco público em algum ponto de fácil acesso e esperar. Deveria antes planejar suas ações, que era o jeito de avisar o outro do encontro, e? Ela tinha a certeza de que era o suficiente. Precisava ser o suficiente.

Mas como escolher o local do encontro? E quem escolheria? Deveria esperar surgir uma epifania, uma intervenção, digamos, divina? Quê? Anita não pôde deixar de rir. De como esses princípios cristianistas se apropriam das idéias dos mais inveterados ateus.

Não era moça de esperar que o mundo acontecesse por ela. Avisou o gato que voltava tarde; que ela sabia das vontades de escritores? Pensou que o autor poderia ao menos lhe dar uma dica, e deixou-se estar na saída do prédio, parada na calçada e sentindo o vento frio de um tempo anormal em meio de outubro.

Tomou a esquerda. Seguiu por uma rua que descia rumo à avenida e parou no primeiro ponto de ônibus. Deveria tomar um ônibus, sim. Mas qual? Sentou-se no banco e apoiou as mãos sobre o joelho. Começava a lhe parecer estúpida toda aquela idéia. Porque talvez estivesse ficando louca, imaginando autores e uma vida de personagem que fosse o motivo daquela impertencência ao mundo. Não? Era mesmo o que havia de mais lógico. E que fosse personagem, não seria insensatez procurar aquele que afinal havia criado todas aquelas crises? O vento fazia mexer minhas cortinas, em um movimento de anunciação. E foi quando afastei a cadeira da mesa do computador e encarei o que havia acabado de escrever. O gato estava na janela, acompanhando a agitação da avenida com desinteresse.

Levantei-me e andei até ele, parando a um passo da janela e voltando. Tomei o rumo da cozinha, fui beber um copo d’água.

Que diabos aquela personagem poderia querer comigo? Se a criei foi pelas crises e pelo desajuste no mundo; de que me servia uma personagem feliz e acomodada?

Mas não à toa ela estava naquele ponto de ônibus.

Quem eu estava enganando?

Voltei com o copo na mão. O cursor piscava na tela do editor de texto, acusando meu silêncio. O gato continuava na janela mas agora me encarava, e havia nele qualquer reminiscência de um sorriso cínico. “Não sou Pirandello, Abel. Não sou,” disse-lhe, e quis achar graça naquele desespero que me cercava, mas.

Abel miou. Pulou para o sofá e andou até a porta da cozinha, porque o dia se aproximava das seis da tarde e ele tinha uma fome pontual. Coloquei o copo sobre a mesa e mirei o cursor piscante. Anita me aguardava.

Fui até a janela, debrucei-me no sofá e olhei lá embaixo a avenida. O ponto de ônibus estava cheio. E eu; procurava-a? Do décimo andar era tudo tão fantástico e irreal. Aquela gente em miniatura. Quis enxergar os bancos do ponto, mas meus olhos divagavam, medrosos. Olhei a rua pela qual Anita teria descido, como se ali estivesse qualquer prova de minha loucura. Loucura, sim? E os bancos. Como ela estaria vestida? Talvez uma calça jeans e a camiseta amarela, como aquela moça que estava sentada, com as mãos no joelho, olhando na direção contrária de onde vinham os ônibus. E não estaria esperando ônibus algum, porque não lhe disse que esperasse.

Afastei-me, derrubando um abajur e assustando o gato. Diabos, era possível? Mirei a chave da porta sobre a estante e pensei em sair, descer até a avenida e. Abel voltou e outra vez me encarava pedindo seu jantar. Senti um arrepio me eriçar os pêlos do braço e voltei à mesa do computador. Anita estava sentada no banco do ponto de ônibus e não olhava na direção de onde vinham os ônibus, porque não esperava ônibus algum. E que esperava?

Mais lógico não seria voltar e conferir? Se era mesmo Anita. Era? Só podia ser.

Espiei a janela. Voltei-me para o editor de texto e pousei as mãos sobre o teclado. Ouvia as batidas do meu coração. Delírio! Devia mesmo descer, porque então teria a certeza de que era inventação, um qualquer desvario de escritor. Anita estaria aborrecida, certa de que não tinha motivos para esperar o que fosse, e que jamais se encontraria com autor algum, porque. Oras. E ela, sentada, observando enquanto o ponto de ônibus se enchia com o rush das seis da tarde. Soltou de leve um risinho nervoso, e por um momento teve a certeza de que estava sendo vigiada.

Olhou ao redor: toda gente passando apressada com suas vidas e fones de ouvido. Pensou em olhar para cima, procurar nos prédios que flanqueavam a avenida um motivo para aquela aflição. Conteve-se, e pôs-se de pé. E que dizer de uma moça que se acredita personagem, e imagina no autor a solução para todos os seus problemas? Não era no autor que estaria seu desencontro com a realidade. Lembrou-se de um compromisso; quê?, era preciso comprar a ração do gato que estava no fim.

Ergueu os olhos para o alto, e as janelas vazias dos edifícios a encararam de volta, todas um silêncio que oculta as verdades para um sempre.

Afastou-se dali, subiu a rua e fez o caminho para o pet shop.

Salvei o arquivo e tirei as mãos do teclado. Abel ainda esperava a comida. Levantei-me num salto e derrubei a cadeira. Quis conter a vontade de correr à janela, mas não pude. Apoiei-me no sofá e espiei aquele mundo imaginário. Em frente ao ponto formava-se uma fila de ônibus lotados. O ruído das portas e do motor em primeira marcha chegava diluído aos meus ouvidos. Por entre o espaço da saída de um ônibus e a parada do seguinte, eu procurava a moça de camiseta amarela sentada no banco, mas.

Ela não estava mais lá.

Meu coração pulou. Voltei ao computador e fechei o editor de texto, como se o ato me livrasse daqueles fantasmas. Devia ter descido? E se? Olhei as horas. Abel soltou um miado longo e irritado.



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