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Na praia

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Lançado Na praia, novo romance de Ian McEwan. Com uma narrativa inicialmente fluente e interessante, o texto escorrega para o tédio quando o autor faz uso, num primeiro momento, do recurso da digressão.

Isa Fonseca - (27/10/2007)

Que ninguém duvide: o inglês Ian McEwan, de 59 anos, é um autor já consagrado pela crítica e possuidor de leitores fiéis que estão sempre a aguardar sua próxima obra. Vencedor do Booker Prize em 1998, com Amsterdam, além de outros importantes prêmios literários, McEwan teve também Atonement (Reparação, publicado no Brasil) adaptado para o cinema.

No seu mais recente romance, Na praia (On Chesil Beach), pela Editora Cia. das Letras, o autor faz um recorte do que seria a noite de núpcias de um jovem casal que está num hotel, em uma praia – local árido e desprovido de encanto –, no início dos anos sessenta. Sem encantos é também o par amoroso, o que dificulta o afeto e o entendimento mútuo, num dia que deveria ser significativo. Presos na couraça de sua educação, relativamente rígida segundo os princípios da época, os jovens ritualizam e formalizam o que deveria ser o ato de um amor cúmplice, mas que se torna carente de espontaneidade e paixão. Diferentemente, aliás, da década em que se situa o romance, plena de promessas com o advento da pílula e da beatlemania. Mas Edward, o rapaz, está aberto ao novo: "Pensava que ela pudesse não gostar de ’Roll over Beethoven’, mas ela achou a maior graça (...) e ele sabia que ela estava apenas sendo gentil" – ainda que não seja compreendido pela amada Florence, em suas tentativas.

Desencontros de interesses, de temperamentos e ausência de diálogo franco e aberto, formam a base de um relacionamento que, aos tropeços, dá forma a um sentimento forte que quer se passar por amor, pressuposto para o casamento. E, pergunta-se o leitor, onde está e de que é feito este amor?

Armadilha da digressão

Com uma narrativa inicialmente fluente e interessante, o texto escorrega para o tédio quando o autor faz uso, num primeiro momento, do recurso da digressão, ao voltar no tempo das histórias pessoais dos principais personagens, introduzindo outros, um tanto deslocados. Na necessidade de explicar tais passados, o autor cai na armadilha da pouca inventividade narrativa, enquanto elaboração de linguagem e, pior, alonga-se, de início, mais que o necessário, o que faz com que o leitor acabe perdendo o fio da meada.

Digressões são muito bem-vindas em romances não lineares, mas é preciso achar a dose certa. Até Thomas Mann cometeu alguns pecadilhos do gênero em A montanha mágica. Mas, em ambos os romances, a recuperação do vigor do texto faz com que (caso o leitor for paciente) se possa vislumbrar a recompensa, pois as digressões vindouras encaixam-se muitíssimo bem na narrativa. E essa recompensa nada mais é que um conciso e maduro texto do autor britânico, que merece um lugar na nossa cabeceira e, ao lado de outros bons escritores, na nossa estante.



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