Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Economia: o fantasma da crise externa

» Aos pobres, a xepa

» Por que o Brasil precisa de um Estado gastador

» A empregada de Guedes e a cozinheira de Lênin

» Esquerda e governo: ideias e lições históricas (2)

» Evo: Como reconstruir o Socialismo Comunitário

» Educação Pública: E se Bolsonaro destruir o Fundeb?

» Cinema: quando o vazio é combustível à vida

» Boaventura: o desenvelhecimento do mundo

» Coronavírus: por que a ameaça persiste

Rede Social


Edição francesa


» Apolitisme très politique des journaux municipaux

» La force molle de la social-démocratie

» L'enfance, une espèce en danger ?

» Progrès technologique et régression sociale

» La recolonisation du plus pauvre pays de l'hémisphère occidental

» Taïwan, ou l'indépendance dans le brouillard

» Sur les causes de la pauvreté des nations et des hommes dans le monde contemporain

» La criminalité en « col blanc », ou la continuation des affaires…

» Les manœuvres à l'intérieur du parti de M. McGovern diminuent les chances d'un candidat démocrate

» Un réseau élargi et solidaire


Edição em inglês


» US ideologues in the ascendant?

» US ideologues in the ascendant?

» Rojava, a fragmented territory

» Australia's angriest summer

» February: the longer view

» African national parks managed by African Parks

» Genetic medicine makes the world less fair

» From apartheid to philanthropy

» Who is the land for?

» Belarus, the industrious state


Edição portuguesa


» Edição de Fevereiro de 2020

» O que Donald Trump permite…

» As marcas do frio

» Edição de Janeiro de 2020

» Embaraços externos

» De Santiago a Paris, os povos na rua

» Que prioridades para uma governação mais à esquerda?

» Edição de Dezembro de 2019

» Uma fractura social exposta

» «Uma chacina»


A essência esquecida

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Se o crítico é o maior defensor da literatura, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida.

Renata Miloni - (23/11/2007)

A revista EntreLivros publicou recentemente o decálogo do leitor (feito por Alberto Mussa), do escritor (por Miguel Sanches Neto) e do crítico (por Michel Laub). Dos três, o que mais me chamou a atenção, e não por bons motivos, foi o último.

No decálogo, Laub quis resumir a utilidade da crítica literária — se há alguma. Li a frase “Você lerá só por obrigação” com uma pequena indignação. Pequena porque é de se esperar que aqui no Brasil se chegue ao ponto de aceitar a profissão de crítico (ou qualquer uma relacionada à literatura) como ingrata. Laub parece considerar a profissão como uma péssima escolha que alguém pode fazer, como se não houvesse saída (?) para o sofrimento que é ser crítico, seja onde for.

Sempre considerei que o motivo básico para se trabalhar com literatura é gostar de ler. É preciso estar apegado a esse princípio (antes mesmo da necessidade de se expressar), especialmente quando se lê um livro ruim.

Talvez o mito de que os críticos tendem a ser rabugentos vez ou outra seja verdadeiro. Mas o que causa tal reação? Ler um texto ruim pode ser uma desculpa válida, mas, ainda assim, não gostar de um livro jamais justificará, por exemplo, a violência que transborda em alguns textos.

É necessário que se lembre de um ponto crucial: não é culpa do autor se o livro é ruim. É culpa (se é que existe) da incompatibilidade de pensamentos e gostos, algo que deveria ser tratado com mais respeito e até reverência.

O crítico como escritor

Se o crítico é o maior defensor da literatura, segundo escreveu Laub, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida. Portanto, não há necessidade de freqüentes reclamações. Parece que todo crítico espera por um milagre que o salvará do lado negro da literatura. É o resultado de se focar no que não existe.

Mas, por outro lado, muitas vezes me interesso por um livro mais pelo que o autor da crítica deixou de falar do que pelo que está no texto. O escritor e crítico Flávio Carneiro consegue ver aspectos extremamente valiosos: se tentarmos analisar o que o crítico não falou sobre determinado livro, é possível encontrar uma visão interessante da cultura. O que o levou a não prestar atenção ou a desconsiderar certos pontos? Se ele tivesse nascido sob outros costumes culturais, o livro lhe seria o mesmo?

Outra questão levantada por Carneiro em uma palestra foi: o processo de criação de uma crítica não chama a atenção dos leitores. O foco, na verdade, é apenas no conteúdo, na opinião emitida. Mas o crítico, “afinal de contas”, diz Carneiro, “é um escritor”. “Por que o crítico escreve?” A ligação a uma outra pergunta é rara mas simples: por que o escritor escreve?

Carneiro citou uma famosa frase de Fernando Pessoa (“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”), apresentando um novo e considerável ponto: e se o crítico escrever porque a literatura não basta? Por que somente o ficcionista (ou poeta, cronista, etc.) tem direito ao lirismo? Assim como na ficção se usa certas técnicas de narração (cabe ao autor escolher ou inventar a sua), nada impede o crítico de utilizar recursos semelhantes em seus textos.

Relação afetuosa

Na opinião de Flávio Carneiro, o crítico deve correr o mesmo risco que o escritor: o de não conseguir seduzir o leitor. Segundo Carneiro, o escritor não pode partir do pressuposto de que já ganhou leitores com a publicação de um livro que muito agradou. O que prende o leitor? O escritor deve se preocupar com a forma que inicia um texto ou muda de capítulo. Por que com o crítico tem de ser diferente? Por que só o escritor precisa pensar se o próximo capítulo vai seduzir o leitor? O crítico deve considerar os mesmos aspectos de construção. Não é porque o autor escreve um capítulo sedutor que o parágrafo da crítica sobre ele não deva seduzir da mesma forma ou melhor.

Por perceber que a maioria dos críticos não leva em consideração qualquer um desses pontos, Carneiro afirma que a crítica, de uma forma geral, é muito mal escrita. Ele diz não ser possível alguém ser um bom crítico sem antes ser um bom escritor.

É por não serem bons escritores que a relação com eles é imensamente ruim. Flávio diz que é preciso haver uma relação afetuosa entre críticos e escritores. Um crítico ranzinza faz um escritor ranzinza e, muitas vezes, acontece o oposto. O escritor deve saber que ele não tem e jamais terá a obrigação de escrever para agradar. E o crítico necessita perceber que não é preciso escrever somente porque o livro não agradou.

Às vezes a contramão leva a melhores saídas.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos