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XXY aborda um tabu

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Diretora argentina encara o desafio de tratar do hermafroditismo, um tema quase ausente do cinema. Mas falta uma pitada de ousadia: opção por narrativa lateral, baseada sempre em metáforas e alusões, produz clima opressivo, que contrasta com humanismo da proposta

Bruno Carmelo - (24/01/2008)

Pelo tema espinhoso que tem em mãos, a diretora Lucía Puenzo já prometia um filme polêmico. Como o título sugere, XXY aborda a história de uma adolescente hermafrodita e de seus conflitos identitários.

O filme logo chamou atenção da mídia e dos festivais de cinema (XXY ganhou um prêmio em Cannes e transformou-se no candidato argentino ao Oscar): primeiro, pelo ineditismo de seu tema; segundo, pela abordagem um tanto singular, ao mesmo tempo leve e agressiva.

A leveza é percebida no lado poético da abordagem. Lucía Puenzo não tem a menor intenção de construir uma obra de denúncia social ou de defesa das minorias. Ela prefere um tratamento mínimo, cheio de metáforas e alusões. Por exemplo, nunca se fala em “hermafroditismo” no filme, mas faz-se referências: “eu tenho os dois”, diz Alex a um amigo; enquanto as bonecas na sua prateleira têm pênis postiços feitos de cigarros.

Deste modo, opta-se por não abordar o assunto de frente, o que se encaixa na ótica confusa da adolescente em questão. Quando alguém menciona sexualidade perto de Alex, ela se levanta e vai embora, revoltada. Esse é o desfecho de mais de meia dúzia de cenas; de onde conclui-se que ela não quer ouvir falar de escolhas sexuais nem cirurgias reparatórias, e o filme também não.

O conteúdo das imagens busca sempre a natureza, a beleza da praia onde mora Alex e sua família. É nesse momento, no entanto, que o tratamento poético do tema entra em conflito com uma postura muito mais agressiva, mais explícita, a começar pela fotografia escolhida, que prefere mostrar um céu sempre carregado, as pessoas que ficam na casa sombria e sussuram entre si, as noites invariavelmente chuvosas... enquanto insiste na naturalidade da condição de Alex, XXY carrega num tom sinistro, de mistério e segredo.

É difícil ser leve sobre assunto tão grave; é difícil dar peso ao que deveria ser tratado, enfim, como algo normal

Mesmo as metáforas, por fim, podem ter efeito inverso: ao invés de garantirem a leveza, elas determinam a onipresência claustrofóbica do tema. Não há uma cena sequer de toda a narrativa que não esteja relacionada à sexualidade, e as simbologias se multiplicam às centenas para garantir as alusões. O pai de Alex, por exemplo, é apresentado como biólogo numa cena única em que opera uma tartaruga que perdeu uma barbatana, em alusão clara à mutilação genital. A mãe de Alex é a mulher que investiga sobre cirurgiões especializados em reconstruções do sexo enquanto, na cozinha de casa, ela pica uma cenoura (mostrada em detalhe, num claro símbolo fálico) e corta acidentalmente o dedo (novamente a mutilação).

Todos os personagens são determinados em função dessa anomalia e de seu grau de proximidade com ela. Pode-se dizer que XXY é um filme sobre hermafroditismo, e não sobre uma hermafrodita. Não sabemos o que Alex pensa, quais seus gostos e desgostos, seus planos, suas atividades... sabemos unicamente de sua anatomia singular.

Constrói-se, por fim, um número tão grande de metáforas e alusões de leveza que elas tornam-se excessivas, pesadas, explícitas. Enquanto muitas imagens surpreendem pelo humanismo do tratamento, o conjunto parece opressivo. Isso mostra, acima de tudo, uma dificuldade enorme de se abordar um tabu no cinema, de pôr em imagens (necessariamente referenciais e carregadas de uma idéia de “verdade”) o que fere já em discurso. É difícil ser leve sobre um assunto tão grave; é difícil dar peso ao que julgamos que deveria ser tratado, enfim, como algo normal. Mas cabe justamente a esses raros filmes sobre hermafroditismo, pedofilia e sexo explícito investigarem o terreno, pesquisarem os limites e as possibilidades de representação no cinema.

XXY (2007)
Dirigido por Lucía Puenzo.
Com Inés Efron, Martín Piroyansky, Ricardo Darín.
Distribuído por Pyramide Distribution
Duração de 1h31.

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Edições anteriores:

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