'Enviar matéria', 'envoyer' => 'Enviar', 'reference_de' => 'a referência de', 'par_courriel' => 'por email', 'a_destination' => 'Enviar para:', 'donnees_optionnelles' => 'Dados opcionais', 'separe_virgule' => 'separe com vírgulas se escrever mais de um', 'sujet' => 'Assunto', 'titre_vouloir' => 'Título da mensagem', 'nom' => 'Seu nome', 'adresse' => 'Seu e-mail', 'texte' => 'Texto que irá junto com a mensagem', 'envoi' => 'Enviar', 'annuler' => 'Cancelar', 'enviar_title' => 'Enviar referência deste documento por email', 'enviar_por_email' => 'Enviar', 'referencia' => 'A referencia de', 'enviado' => 'foi enviado a:', 'sentimos' => 'Sentimos muito', 'problema' => 'Houve um problema e não se pôde enviar a mensagem', 'hola' => 'Olá. Talvez esta informação possa lhe interessar.', 'leer' => 'Leia mais...', 'enviado_por' => 'Enviado por: ', 'direction' => 'mas sem um endereço eletrônico válido', 'podemos' => 'não podemos enviar a mensagem', 'fermer' => 'fechar', 'documento' => 'Olá. Talvez este documento de', 'interesar' => 'possa lhe interessar.', 'descargarte' => 'Na página web poderá fazer o download de:', 'source' => 'fonte', ); ?> 'Envoyer l\'article', 'envoyer' => 'Envoyer', 'reference_de' => 'la référence de', 'par_courriel' => 'par courrier électronique', 'a_destination' => 'Envoyer á l\'adresse:', 'donnees_optionnelles' => 'Données optionnelles', 'separe_virgule' => 'séparer les adresses par des virgules si vous écrivez á plusieurs personnes', 'sujet' => 'Sujet', 'titre_vouloir' => 'Titre du message', 'nom' => 'Nom', 'adresse' => 'Adresse mail', 'texte' => 'Vous pouvez ajouter un texte', 'envoi' => 'Envoyer', 'annuler' => 'Annuler', 'enviar_title' => 'envoyer l\'article par mail', 'enviar_por_email' => 'envoyer par mail', 'referencia' => 'La référence de ', 'enviado' => 'a été envoyé à:', 'sentimos' => 'désolé', 'problema' => 'Il y a eu un problème et le courrier n\'a pas pu être envoyé', 'hola' => 'Salut. Cet article t\'interéssera peut-être ', 'leer' => 'Lire la suite...', 'enviado_por' => 'Envoyer par : ', 'direction' => 'mais sans une adresse de courrier électronique valable', 'podemos' => 'nous ne pouvons pas envoyer le message', 'fermer' => 'fermer', 'documento' => 'Salut, les documents de', 'interesar' => 'pourraient t\'intéresser', 'descargarte' => 'Si vous visitez le site vous pourrez télécharger les documents suivants :', 'source' => 'Source', ); ?> 'Enviar matéria', 'envoyer' => 'Enviar', 'reference_de' => 'a referência de', 'par_courriel' => 'por email', 'a_destination' => 'Enviar para:', 'donnees_optionnelles' => 'Dados opcionais', 'separe_virgule' => 'separe com vírgulas se escrever mais de um', 'sujet' => 'Assunto', 'titre_vouloir' => 'Título da mensagem', 'nom' => 'Seu nome', 'adresse' => 'Seu e-mail', 'texte' => 'Texto que irá junto com a mensagem', 'envoi' => 'Enviar', 'annuler' => 'Cancelar', 'enviar_title' => 'Enviar referência deste documento por email', 'enviar_por_email' => 'Enviar', 'referencia' => 'A referencia de', 'enviado' => 'foi enviado a:', 'sentimos' => 'Sentimos muito', 'problema' => 'Houve um problema e não se pôde enviar a mensagem', 'hola' => 'Olá. Talvez esta informação possa lhe interessar.', 'leer' => 'Leia mais...', 'enviado_por' => 'Enviado por: ', 'direction' => 'mas sem um endereço eletrônico válido', 'podemos' => 'não podemos enviar a mensagem', 'fermer' => 'fechar', 'documento' => 'Olá. Talvez este documento de', 'interesar' => 'possa lhe interessar.', 'descargarte' => 'Na página web poderá fazer o download de:', 'source' => 'fonte', ); ?> 'Envoyer l\'article', 'envoyer' => 'Envoyer', 'reference_de' => 'la référence de', 'par_courriel' => 'par courrier électronique', 'a_destination' => 'Envoyer á l\'adresse:', 'donnees_optionnelles' => 'Données optionnelles', 'separe_virgule' => 'séparer les adresses par des virgules si vous écrivez á plusieurs personnes', 'sujet' => 'Sujet', 'titre_vouloir' => 'Titre du message', 'nom' => 'Nom', 'adresse' => 'Adresse mail', 'texte' => 'Vous pouvez ajouter un texte', 'envoi' => 'Envoyer', 'annuler' => 'Annuler', 'enviar_title' => 'envoyer l\'article par mail', 'enviar_por_email' => 'envoyer par mail', 'referencia' => 'La référence de ', 'enviado' => 'a été envoyé à:', 'sentimos' => 'désolé', 'problema' => 'Il y a eu un problème et le courrier n\'a pas pu être envoyé', 'hola' => 'Salut. Cet article t\'interéssera peut-être ', 'leer' => 'Lire la suite...', 'enviado_por' => 'Envoyer par : ', 'direction' => 'mais sans une adresse de courrier électronique valable', 'podemos' => 'nous ne pouvons pas envoyer le message', 'fermer' => 'fermer', 'documento' => 'Salut, les documents de', 'interesar' => 'pourraient t\'intéresser', 'descargarte' => 'Si vous visitez le site vous pourrez télécharger les documents suivants :', 'source' => 'Source', ); ?> Diplô - Biblioteca: Surpresa em Miami
Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Graeber narra o declínio da Ciência Econômica

» Boaventura: a História absolverá Evo Morales

» Insurgências e reações na América Latina

» A Revolta Latina, a crise dos EUA e a esquerda

» No cinema, o ser fragmentado dos indígenas

» Seriam os neoliberais terraplanistas?

» Paulo Guedes sonha com seu 18 Brumário

» A hegemonia pentecostal no Brasil

» O que muda (para pior) no financiamento do SUS

» Outra Contrarreforma – dessa vez, Administrativa

Rede Social


Edição francesa


» La pêche doit être gérée à l'échelle mondiale

» Le problème juif en Union soviétique

» Le vent s'est levé

» Citoyens, ou... nécessiteux ?

» Une sixième vague

» Retraite à points... de non-retour

» L'offensive libérale contre le monde du travail

» « Donner confiance aux hommes »

» Naissance d'un charisme

» Une nouvelle proie, les télécommunications


Edição em inglês


» Shattering the conspiracy of silence

» This must be called murder

» Bolivia's coup

» Algeria's massive movement for change

» Islamists make common cause with the Hirak

» Grenfell's untold story

» DUP no longer kingmaker

» DUP no longer kingmaker

» Northern Ireland's deep state

» Law's disorder in Nigeria


Edição portuguesa


» Edição de Dezembro de 2019

» Uma fractura social exposta

» «Uma chacina»

» Assinatura de 6 meses: só 18 €

» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019


EXTREMISMOS

Surpresa em Miami

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Rica e poderosa, a comunidade de exilados cubanos brancos e de extrema-direita já não é majoritária, nem tão influente na maior cidade da Flórida. Sinal da mudança: três candidatos desafiam, nas eleições para a Câmara, em novembro, os eternos anti-castristas que "representam" a cidade

Maurice Lemoine - (21/04/2008)

“Aqui é como em Cuba, mas com comida!” O sol se põe em Miami e poderíamos nos imaginar em Havana: faz mais de 20°C em fevereiro. Por todos os lugares, ao invés de arranha-céus, palmeiras se abraçam. O recorte de um grande M amarelo de uma loja do McDonald’s pode ser visto não muito longe dali. Com o olhar, o cubano aponta as vitrines lotadas de aparelhos domésticos, móveis, roupas e televisores de última geração. Ele se deixa levar pelo pensamento e faz uma estimativa (apesar de tudo, sumária): "suprimento de um século para a população de Cuba”.

As lojas baixam suas grades de ferro. Os quiosques latinos que vendem lanches e salgados emitem seus derradeiros estampidos de salsa. Downtown Miami, centro da cidade, situado inteiramente no leste, se livra de seus homens de negócios, secretárias e colarinhos-brancos. Com o cartão da empresa ainda envolto no pescoço, a maioria discute em espanhol. Alguns habitantes nativos se manifestam em inglês. Mas todos aceleram o passo. Em breve, a Wall Street da América Latina irá se transformar em um deserto lúgubre de concreto e aço.

O metrô de superfície vai em direção aos longínquos subúrbios. Um vagão surge a cada vinte minutos, quando tudo corre bem. Os ônibus seguem em linha para intermináveis maratonas. Miami é feita para aqueles que podem pagar por um automóvel, não para os pés-rapados. No ônibus, todos se conhecem. Um cubano saúda um outro cubano. “Como vai?” Eles não falam nem de política nem de Fidel Castro. “Estou cansado de correr.” A mulher esboça um sorriso de compaixão.

Miami Beach, com suas palmeiras, oceano translúcido e hotéis art déco, vai ficando para trás. Os vagões rodam em direção ao bairro popular de Hialeah. Não que Miami Beach, esta Meca do hedonismo, não tenha os seus cubanos. Os ricos, bem entendido. E o exército de empregadas, faxineiras e garçons. Já os jovens da segunda geração, perfeitamente bilíngües, param os turistas diante dos restaurantes da Ocean Drive. Hey, this is the place! This is the good place! Holá, amigos, como están? Tenemos de todo [1].

Já quase não quase cubanos em Little Havana. Mas a mídia mantém o mito, para "ouvir a comunidade"

Mas este trem não vai para Miami Beach. Tampouco para a Little Havana — Pequena Havana.

Litthe Havana. Um mito. Um mito mantido por grupos de jornalistas da mídia impressa. Certamente, durante muito tempo, bem próxima ao centro, a Little Havana foi “o” feudo cubano de Miami. Um bastião povoado de batistianos [2], grandes proprietários, profissionais liberais, executivos, comerciantes, mas também traficantes de toda sorte que haviam fugido da revolução. Então agitava-se a famosa Calle Ocho — a Oitava rua. Ali foram tramados todos os complôs para invadir Cuba, assassinar Castro, desestabilizar a ilha, colocar bombas e outros projetos tenebrosos.

Little Havana é apenas uma espécie de bairro periférico, triste e sombrio. Desde a metade dos anos 1980, os cubanos a abandonaram. Os exilados mais velhos estão mortos. Seus filhos espalharam-se por toda a cidade — Kendall, Hialeah, North West – e pelo condado de Miami Dade. Pouco a pouco, habitantes da América Central, colombianos e outros latinos os substituíram. Atualmente, a Calle Ocho é apenas uma fileira de mercados hondurenhos, quiosques nicaragüenses, restaurantes salvadorenhos. Em poucas palavras, Little Havana não foi retomada pelos… autóctones. Em algumas entradas de lojas, podemos ler “Aqui fala-se inglês”. Mas os cubanos são agora apenas uma ínfima parcela.

Do seu esplendor passado restam apenas velhos anticastristas que jogam dominó no Maximo Gómez Park. E o restaurante Versailles, reduto da extrema-direita exilada no país. É nessa vizinhança que, a cada evento marcante, a efervescência começa. Quando a União Soviética implode. “Resta um pouco de tempo para Fidel, muito pouco antes que ele caia”. Quando estoura a crise dos balseros [3]. “Com um empurrãozinho, o sistema desmorona”. Quando as tropas norte-americanas tomam Bagdá. “Hoje o Iraque, amanhã Cuba!” Quando o “comandante-em-chefe” cai doente. “Eis uma oportunidade para homens e mulheres corajosos que desejam que Cuba tome outro rumo”.

É, portanto, ali que se precipitam as câmeras, quando querem tomar o pulso da “comunidade”. O que lhes garante ampla divulgação. Quando não se trata, em geral, de alguns poucos que se mexem em um universo de… 650 mil cubanos [4].

A extrema-direita controla a cidade, com apoio de Washington e enorme força na mídia

Apesar disso, a extrema-direita cubana controla Miami, desde os anos 1960. Graças ao enorme poder econômico do seu capital inicial, seu dinamismo e a ajuda e estímulo que dez governos norte-americanos lhe concederam. Graças também ao controle da mídia — os dois fatos estão intimamente ligados. São dois diários em espanhol, Diario Las Americas e Nuevo Herald, versão espanhola do Miami Herald; seis estações de rádio – La Poderosa, Radio Mambi, WQBA etc; e uma rede local de televisão, o Canal 41 [5]. “Quando eu cheguei, em 1982, comecei naturalmente a ouvir o rádio e a assistir à TV em espanhol. Todos os programas tinham um único assunto: Cuba. Era o nosso pão de cada dia, uma propaganda incessante que não tinha nada a ver com informação”, conta Luis, um uruguaio. Desde então, nada mudou.

Do lado da imprensa escrita, a mesma constatação. O Miami Herald fez suas contas: por razões econômicas, o jornal não tem nenhum interesse em criar inimizades com a direita cubana. Sua versão em espanhol, o Nuevo Herald, vai mais longe. Amenizando e até censurando alguns artigos da publicação principal, veicula algo que se assemelha mais com um panfleto do que com um diário. Para encontrar na cidade algum exemplar do USA Today ou do New York Times, é preciso levantar cedo... E, de todo modo, são redigidos em inglês, o que anima pouco os cubanos.

“O papel do rádio nesta cidade foi sempre o de manter ‘a linha’ e de exercer uma pressão social, em particular sobre os grupos que professam opiniões diferentes. Houve um tempo em que, se o acusassem no rádio de ser simpatizante de Castro, e pouco importava se isso era verdade ou não, você chegaria a uma festa à noite, e os seus amigos lhe dariam as costas: ‘Eu gosto de você, mas não tenho a menor vontade que me vejam ao seu lado’. E todas as portas se fechavam”, explica Francisco Aruca.

Max Leznic, era de tal modo contrário à revolução, que chegou ao ponto de empunhar armas para combatê-la na ilha, durante os anos 1960, na região de pouca vegetação de Escambray. Depois de chegar em Miami, criou uma revista, [Réplica]. Voltando a uma posição mais moderada, pregava o diálogo e recusava a violência contra Cuba nas páginas da revista. “Nós fomos vítimas de onze atentados a bomba entre 1975 e a metade dos anos 1980, quando a revista parou de circular.” Os tempos mudam, o espaço para esse tipo de prática sob o sol dos Estados Unidos se reduz. “Isso permitiu sobreviver, em um ambiente hostil, mas onde a ação direta é mais difícil, estima Leznic, que dirige atualmente, na mesma linha, a Rádio Miami. Isso não quer dizer que nos sintamos totalmente seguros.”

Até 1980, o exílio é branco e rico. Então começam a chegar marielitos e balseros, de pele "mais colorida"...

Fundador da Marazul, agência que organiza de vôos a Cuba, Aruca, de seu lado, comanda um programa, Radio Progreso, na WCN – em espanhol Unión Radio. Cinco horas de transmissão desde sua estréia, que ele tem de bancar por meio de publicidade. Música cubana, crônicas, análises políticas moderadas. “Disse a mim mesmo, os anunciantes virão. E eles vieram. Inúmeros. Mas ao cabo de três, cinco dias, eles ligavam: ‘Me amearam de morte pelo telefone’. Um tinha um café: ‘Jogaram um paralelepípedo na minha vitrine!’” Com a falta de dinheiro, Aruca reduziu sua transmissão de informação independente para uma hora. Sempre sem anunciantes, exceto a Marazul, claro. E apesar de uma audiência de 15%.

No começo, o exílio cubano era familiar, branco, rico e de um anticastrismo exacerbado. À onda anti-revolucionária que se seguiu à tomada do poder por Fidel, somaram-se, até a metade dos anos 1970, funcionários de baixo escalão, artesãos, professores, pequenos comerciantes. Em 1980, a ilha passou por sérias dificuldades: 125 mil cubanos atravessaram o estreito da Flórida a partir do porto de Mariel. Apesar do prazer de ver Havana em dificuldades, seus predecessores recebem muito mal esses marielitos. Pela primeira vez, a cidade se enche de cubanos que não pertencem nem à ex-classe dominante, nem à classe-média, mas vêm “da rua”, com uma pele um pouco mais “colorida”. O fenômeno irá se acentuar, em 1994, com a chegada dos balseros.

A cidade mudou de cabo a rabo, com alguns efeitos perversos. “Desembarcou uma maioria de pessoas honradas, decentes, mas também delinqüentes e doentes mentais mandados para nós por Castro”, analisa um habitante anglófono do bairro de Coral Gables ao pensar nos marielitos. Max Leznic concorda com a afirmação e fornece uma explicação geralmente dada em segredo. “Esses loucos estavam nos hospitais psiquiátricos cubanos, abandonados aos bons cuidados da revolução. Havana tinha a lista. ‘Onde estão os seus parentes? Nos Estados Unidos? Soltem-no e o mandem para lá. Os seus terão os meios para cuidarem de você.’” Assim, Miami sofreu um período de agitação violenta, de tráfico de drogas e de assassinatos, atualmente em declínio [6].

De sua parte, os negros norte-americanos não viram o desembarque dos recém-chegados com muita satisfação: eles iriam disputar as mesmas vagas dos empregos pouco qualificados, que já não pagavam muito bem.

“Eles são elitistas, acham-se os melhores, são diferentes! Nós, os latinos, somos chamados por eles de índios”

Os latino-americanos e haitianos não recebem o mesmo tratamento privilegiado do qual se beneficiam os cubanos. “Eles conseguem a regularização de sua condição de imigrantes sem problemas. Somente eles. Os outros vivem com medo, ilegais por muito tempo. Se descobertos, perdem tudo, são ‘jogados fora’”, constata Luis, o uruguaio.

Deve-se lembrar que, ainda hoje, os cubanos, mesmo depois de obter a cidadania norte-americana, vivem… entre cubanos. “Eles são elitistas, acham-se os melhores, são diferentes! Nós, os latinos, somos chamados por eles de índios”, diz. O paradoxo pode ir bem mais longe. Eles deixaram a revolução para trás e, agora, suas críticas a ela são moderadas. Se lhes evocamos o presidente venezuelano Hugo Chávez, ficam enfurecidos: “Chávez? Ele é um palhaço! Já Fidel, é muito, muito inteligente.” Pior ainda quando se trata da extrema direita: “Se os afro-americanos soubessem como ela fala deles… Felizmente, eles não entendem aquilo que se diz no rádio.” A isso se junta a reflexão iconoclasta (e, é preciso dizer, mais rara) de um equatoriano: “Eu sei de tudo que não vai bem em Cuba porque é a mesma coisa no meu país. Mas há duas diferenças importantes: Fidel lhes deu cultura e saúde. Eu adoraria ter a mesma coisa na minha terra.”

Assim, os cubanos pós-Mariel dão à Miami a sua cara, com seus defeitos e qualidades. Simpáticos, brincalhões, calorosos. Auxiliados pelo governo norte-americano quando chegaram, trabalharam duro e foram bem-sucedidos. Os mais dinâmicos tornaram-se comerciantes, pequenos empresários de serviços, comércios, pizzarias. Todos fazem seu compatriota Francisco rir: “Eles criticam Fidel porque ele não os deixava viajar. Depois que chegaram aqui, não saem nunca de Miami, o mundo exterior não lhes interessa. Só há uma exceção: basta ter quinze dias de férias e querem passar esse tempo em Cuba!”

O anticastrismo radical agarra-se às suas certezas. Mais um mês, uma semana, um dia e “o regime” cairá. Os exilados reconquistarão a ilha. Eles serão acolhidos, triunfantes. Um dentre eles se apresentará como candidato à presidência e, claro, conquistará o cargo. De tanto ruminar a vitória vindoura, e sempre adiada, eles se crêem invencíveis e vivem voltados para o passado. Ao seu redor gravitavam ou gravitam um organizações criminosas — Alpha 66, Comandos L, Comandos Martianos MRD, Omega 7, Partido da Unidade Nacional Democrática (PUND), Conselho pela Liberdade de Cuba – e uma fachada política “respeitável”, a Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), criada em setembro de 1981, por Ronald Reagan. Essa tem um modo de operação particular: intimidação e compra de políticos. Toda essa gente vive como reis, dilapidando fortunas. Dinheiro que a CIA e os sucessivos governos lhes deram generosamente para que “derrubassem Fidel Castro”.

A maior parte dos cubano-americanos têm outras preocupações. Há muito tempo, viraram as costas para os extremistas

No plano federal, desde o começo dos anos 1990, os três cubano-americanos membros da Câmara de Representantes dão o tom. São os irmãos Lincoln e Mario Díaz Balart, e Ileana Ros Lehtinen. Todos republicanos. Em Washington, realizam um intenso trabalho de lobby e estão na origem de todas as leis responsáveis pelo endurecimento do embargo contra Cuba [7]. Pedem insistentemente o comparecimento de Fidel Castro diante da Corte Penal International (quando não seu assassinato), exigem a libertação de Luis Posada Carriles, acusado de terrorismo pelos governos de Cuba e Venezuela.

Mas a maior parte da comunidade cubano-americana tem outras preocupações. Há muito tempo, ela virou as costas para estes extremistas, com sua violência e pressões. Até contribuiu, com pequenas quantias, quando eles organizavam coletas para financiar suas atividades públicas — e, em segredo, ataques e atentados em Cuba. Os que discordam não se fazem notar. “Aqui também, diz Francisco, há medo de falar. Eles não estão de acordo com a corrente dominante, mas não dizem nada para evitar problemas”.

Como os milhões de latino-americanos que não emigraram para os Estados Unidos a partir de um país com governo comunista, eles empreenderam a viagem por razões econômicas. Tendo deixado seus familiares para trás, desejam poder visitá-los. Mesmo quando vivem modestamente — e é esse o caso, em grande parte — querem ajudá-los. E que, sobretudo, não falemos de embargo ou de invasão da ilha…

Várias lojas colocam cartazes com os dizeres: “Enviamos pacotes para Cuba”. Fenômeno que, de início, era quase clandestino. Particularmente, nas viagens ao país. Hoje em dia, ninguém mais se esconde. Nesse ônibus, duas mulheres conversam aos atropelos: “Eu vou para Cuba. Você quer que eu leve alguma coisa para a sua família?” “Vou preparar algumas cartas e um embrulho para você levar. Você parte quando?” Poderíamos nos imaginar em Havana, em um guagua [8].

Depois de décadas, três candidatos desafiam o reinado dos anti-castristas. Miami está incrédula

Infelizmente, as coisas ficaram mais difíceis a partir de 2004. Naquele ano, o presidente Bush aprovou um relatório da Comissão de Apoio a uma Cuba Livre, que especifica uma série de medidas de endurecimento do embargo: restrição ao envio de dinheiro — 1.200 dólares por ano, somente para a própria família — e de pacotes; limitação das viagens: de uma todo ano a uma, de quatorze dias de duração, a cada três anos — e apenas para visitar seus familiares [9]; redução da quantia que é possível levar consigo, de três mil dólares para trezentos. A soma permitida para as despesas diárias cai de 167 para 50 dólares. E não é mais possível levar mais do que 27 quilos de bagagem.

Miami se agita, primeiramente incrédula. Três de seus candidatos apresentam-se às eleições legislativas de novembro próximo com a vontade e sobretudo, pela primeira vez, com chances consideráveis de vencer. Contrapondo-se a Lincoln Díaz Balart, Raúl Martínez, durante muito tempo administrador muito popular de Hialeah, o mais importante dos distritos cubanos. José García enfrentará Mario Díaz Balart. Diante de Ileana Ros Lehtinen, a americana-colombiana Annette Taddeo desperta o interesse. “O simples fato de os três republicanos terem um adversário prova que existe uma forte corrente de opinião contrária à extrema-direita, analisa Max Leznic. Caso contrário, isso seria inútil.”

Seguramente, estaria errado quem imaginasse que Miami vai pender para a “centro-esquerda”. O José García, para ficar apenas num caso, foi o homem de confiança de Jorge Mas Canosa, presidente da FNCA até a sua morte, em 23 de novembro de 1997. Foi diretor da organização e sempre esteve entre os seus membros [10]. Mas seu instinto lhe diz que a política atual de Washington não funciona. Assim como os outros dois candidatos democratas, ele não se pronuncia contra o embargo (apesar de Raúl Martínez fazê-lo, privadamente). Em compensação, e como eles, defende o relaxamento das medidas que cortam o cordão umbilical entre os cubanos de Miami e os da ilha. Certamente desejando que a multiplicação dos contatos será favorável à ilha e, por capilaridade, à evolução do sistema político.

Apesar disso, avalia Aruca: “Se um desses candidatos ganha, isso será, em cinqüenta anos, o primeiro abalo a afetar a extrema-direita. Se dois ganham, sua estrutura irá desmoronar em pouco tempo. E isso abrirá novas perspectivas. O clima, em Washington, mudará.”



[1] “Ei! Esse é o lugar! Olá meus amigos, como estão? Aqui, temos de tudo.”

[2] Partidários do ditador Fulgencio Batista, derrubado em 1959 pela revolução.

[3] Em 1994, trinta mil cubanos partiram da ilha, em embarcações improvisadas.

[4] Quando do recenseamento de 2000, havia em todo o condado de Miami Dade 650 mil cubanos ou descendentes de cubanos (a comunidade mais importante); 465.770 norte-americanos brancos; 427.140 norte-americanos negros e 641.130 latino-americanos, das mais diversas origens.

[5] As duas cadeias de televisão nacionais em espanhol, Univisión e Telemundo, têm baixa audiência entre os cubanos, pois dedicam a maior parte do tempo de programação aos mexicanos (infinitamente mais numerosos do que eles nos Estados Unidos e, por conta disso, alvo privilegiado dos anunciantes).

[6] Em relação ao tráfico de drogas, a delinqüência comum ligado à chegada dos marielitos não faz sombra ao “grande tráfico”, nas mãos de máfias cubanas ligadas a alguns setores da extrema-direita, ela também cubana.

[7] A Lei Torricelli, por iniciativa do democrata Robert Torricelli (de 23 de outubro de 1992), e a Lei Helms-Burton, promovida pelos republicanos Jess Helms e Dan Burton (de 13 de março de 1996).

[8] Ônibus.

[9] Em 2003, cento e quinze mil exilados viajaram para Cuba.

[10] Após a morte de Jorge Mas Canosa, a FNCA entrou em crise e reorganizou-se com a palavra de ordem “renovar-se ou morrer”. Seus elementos mais extremistas a abandonaram em julho e agosto de 2001, para criar o Cuba Liberty Council [Conselho de Liberdade de Cuba].


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cuba
» Estados Unidos
» América Latina
» Extrema Direita

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos