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Dona de uma visão extremamente singular do mundo, a autora demonstra maestria ao tecer enredos que, no melhor estilo do suspense norte-americano, muitas vezes dependem do elemento surpresa, do engenho ao manipular os elementos narrativos para causar sensações e sugestões

Marina Della Valle - (16/05/2008)

A lendária violência urbana na região de Detroit, Michigan, teve importância crucial para a obra de dois representantes da cultura americana um tanto distintos entre si, mas semelhantes na sensação de choque que costumam causar em seu público. A primeira é a banda protopunk The Stooges, formada na vizinha Ann Arbour, cuja primeira fase (1967-1974) é citada como influência decisiva por uma série de artistas de áreas e estilos diversos e que apresentou ao mundo o cantor Iggy Pop, que continua a capitanear o grupo em sua segunda fase, de 2003 até agora.

A segunda é a escritora Joyce Carol Oates, menina má da literatura norte-americana contemporânea, cuja volumosa produção é com freqüência descrita como “violenta”. Carol Oates viveu em Detroit e afirma que a experiência foi crucial para que desenvolvesse sua obra posterior – uma prolífica sucessão de contos, novelas, romances, peças teatrais e poesia em torno de temas perseguidos com insistência: violência, desarranjo e conflitos sociais, crueldade doméstica, incesto, estupro, relações familiares patológicas, a infância feminina e a morte, em diversos matizes e nuances.

Como não podia ser diferente, é nesse universo sombrio e distorcido que vivem as protagonistas de A fêmea da espécie (tradução de Paulo Reis, 252 págs.), compilação de nove contos centrados em personagens femininas lançada recentemente pela Coleção Negra da Editora Record. Como sempre que se trata de Carol Oates, é uma leitura intrigante, mas nunca leve. Dona de uma visão extremamente singular do mundo, a autora demonstra maestria ao tecer enredos que, no melhor estilo do suspense norte-americano, muitas vezes dependem do elemento surpresa, do engenho ao manipular os elementos narrativos para causar sensações e sugestões. A isso soma-se a experimentação vertiginosa com as vozes narrativas – por vezes a narração se alterna constantemente entre os personagens, muitos deles com limitações e transtornos mentais, como a “garota” Boneca, no conto homônimo, ou o protagonista de “Anjo da Ira” – que, ao lado de seu par, “Anjo da Piedade”, é o ponto alto do livro. Não por acaso, os dois contos foram escolhidos para fechar o volume.

Irregularidades

Irrequieta, membro da Mensa e produtiva ao ponto da obsessão, Carol Oates publicou seu primeiro conto aos 19 anos, após vencer um cobiçado concurso literário da revista Mademoiselle - o começo de uma carreira vertiginosa que a colocou entre as principais escritoras norte-americanas ainda muito jovem, por volta dos trinta anos. De lá para cá, a autora dedicou-se a diversos gêneros, incluindo volumes para crianças e jovens adultos, poesia, crítica e livros de suspense publicados sob pseudônimos.

Dentro dessa variedade, é inevitável que haja alguma irregularidade entre as obras da escritora, que de certa maneira se espelha em A fêmea da espécie. A estranheza e surpresa causadas por alguns contos não se repetem em outros, como “Fantoches na avenida”, cujo final catártico parece um tanto óbvio, e portanto, num livro com essas características, um pouco desleixado.

A caracterização cuidadosa das personagens de “Que Deus me ajude”, sinuosa narrativa de um turbilhão doméstico disparado por trotes telefônicos, e de “Diga que me perdoa?”, conto que tem início com a carta de uma mãe idosa à filha e vai retrocedendo no tempo até o âmago da trama, não encontra eco nos personagens de “Fome”, cuja palidez contribui muito para o menor sucesso do conto em atrair a atenção do leitor, quando comparado aos outros textos do volume.

Os detalhes apontados estão longe de comprometer a qualidade de A fêmea da espécie, e com certeza tornam-se mais visíveis exatamente por estarem ao lado de narrativas e personagens trabalhados com maestria. Assim como Iggy Pop, Carol Oates continua em forma, justificando, ano após ano, sua merecida fama, e assim como o público de um show dos Stooges, a maioria das pessoas que pagam para ler um livro da autora sabem bem o que esperar – e o fazem exatamente por isso. A fêmea da espécie é leitura prazerosa que pode ser feita em poucas horas; já o gosto ruim na boca causado pelo passeio pelo lado escuro do ser humano persiste por muito mais tempo.



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