Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Geopolítica das próximas Guerras pela Água

» Uma caminhada na cidade dos não-confinados

» O dinheiro que não existia reaparece

» Bolsonaro recuou. Por quê?

» China: as lições da pandemia e o depois

» Brasil: a insanidade vai muito além de Bolsonaro

» Vigilância em tempos de educação à distância

» Todos escrevem ao Presidente

» Mapas do coronavírus: desafios e direções

» Três medidas de emergência contra a crise social

Rede Social


Edição francesa


» Le refus de Sartre

» Une guerre tous azimuts

» Parrain privé, chaîne publique

» « Big Pharma », ou la corruption ordinaire

» Ravages cachés du sous-emploi

» Quand l'OMS épouse la cause des firmes pharmaceutiques

» Les confidences de M. Tietmeyer, architecte de l'euro

» Des services publics garants de l'intérêt général

» La citoyenneté au bord du gouffre

» À nos lecteurs


Edição em inglês


» To our readers

» Bangsamoro: Philippines' new Muslim-majority region

» Artist and filmmaker

» Looking without blinking

» Politics of city diplomacy

» The return of the city-state

» Philippines revives self-rule for Bangsamoro

» Marawi, the Philippines' ruined city

» Impasse in Morocco

» And now get lost, France!


Edição portuguesa


» Edição de Março de 2020

» Um Brexit para nada?

» A precariedade não é só dos precários

» Edição de Fevereiro de 2020

» O que Donald Trump permite…

» As marcas do frio

» Edição de Janeiro de 2020

» Embaraços externos

» De Santiago a Paris, os povos na rua

» Que prioridades para uma governação mais à esquerda?


LITERATURA

Triste sina

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista

Antonio Carlos Olivieri - (06/06/2008)

Era terrível a maldição que o consumia. Daí, talvez, o uivo dolorido, o laivo agudo e ressentido que atirava à lua cheia: aiiiiuuuuuuuuuuuuuuuuuiiii! O amplo silêncio da noite gritava em resposta ao latido e ele caía em si, de muito longe. Ao fim do transe inicial, partia num rompante em disparada, como querendo devastar o infinito, correr, correr, correr pelo mundo agreste, rasgar o mato febril sem saber pra onde.

Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista. Mas sempre sobrava uma impressão da improvável corrida. E o rastro no chão concedia a certeza da assombração a quem o via, se o via, de relance, nesse instante após a metamorfose. Foi assim que ele ganhou a venda, a praça e a capela, convertido em conversa de boca a boca.

–- Eu vi, eu vi, eu juro que vi, juro por Santa Luzia!

Na vila, ninguém levou a sério essa primeira declaração, por mais que o declarante se desfizesse em juramentos. Mas não demorou a que outros relatos de igual teor viessem confirmá-la.

–- Pois eu também vi e juro que vi. Juro por São Benedito.

–- Não tenho dúvida nenhuma: era um lobisomem.

–- Eu também vi, vi de verdade, então não era?

–- Era que era! Juro por Nossa Senhora.

Que não se tratava apenas de conversa fiada, logo apareceram indícios: carcaças carcomidas de aves, de porcos, de cabras e até de novilhos. Assim, nas tertúlias, já se esboçavam as feições da criatura. Para alguns, sua imagem era a de um grande cão negro, de olhos em brasa e caninos arreganhados no focinho. Para outros, tinha a forma de um homem somente, mas coberto de pêlos eriçados, com as ventas fumegantes e as garras enormes.

Havia ainda quem contasse que aparentava ser um mistura de lobo e gente, com as orelhas pontiagudas, o corpo espetado de cerdas sombrias, e um rabo de açoite. Como seria de fato ninguém podia precisar. Todos com quem topou não tiveram coragem bastante pra encará-lo. Com o horror que lhes turvava a vista, enxergavam o que podiam antes de fugir, rapidinho. Quanto a ele mesmo, como nunca vira o próprio reflexo, preferia acreditar que sua figura se assemelhava à do demo em pessoa.

Porém, não cabia a contemplação em sua sina. Completada a transformação, devido à ação da lua cheia, era impelido a partir em imediata peregrinação, fatídica jornada. Antes de o galo cantar, devia percorrer sete matas, sete colinas, sete vales, sete vilas, sete igrejas, sete criptas, sete encruzilhadas. Então, como um redemoinho, devorava as trilhas que ele mesmo traçava. Cruzava, como um furacão, o sem-fim do sertão, furioso. A cada septenário, interrompia o curso por um único instante, lançando seu ganido para a esfera de prata nas alturas.

Então, sob o jugo implacável da mecânica celeste, o satélite cedia seu espaço ao astro e o grito do galo anunciava a aurora. Tornado ao ponto de partida a esta hora, seu estro ia perdendo a formidável formosura. Espojando-se frenético no barro, despojava-se aflito da infernal figura. Desapareciam focinho e bocarra, o pêlo abandonava a pele desnuda, perdiam-se as garras e o rabo pontiagudo. Terrível maldição o consumia: voltava a ser simplesmente um homem.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos