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LITERATURA

O assassino bossa-nova

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Espalham rapidamente as fotografias anteriores na mesa e decidem onde colocar a moça. Ela já está com um vestido longo, azul, semelhante aos usados na virada para os anos sessenta

Marco Polli - (22/08/2008)

Ele costumava fechar os olhos e identificar um por um os ruídos que vinham da rua. O ritmo rápido mas monótono da academia de ginástica, a pontada aguda dos freios, os motores mal conservados dos ônibus acelerando, como também o mendigo que passava aos gritos uma vez a cada tarde e os aparelhos de TV inexplicavelmente altos dos vizinhos. (Apenas mais à noite, ele distinguia o som das ondas, mas no caso do mar em ressaca, elas se faziam presentes por muito tempo). A cacofonia urbana lhe desagrava, porém ele fazia questão de entender as suas partes, como se esse conhecimento lhe desse um mínimo de controle. Por isso, os últimos anos lhe foram especialmente maliciosos: a sua audição vem se tornando menos precisa, os sons do entorno lhe aparecem mais como um só bloco ruidoso. Não delineando mais o que acontece, ele sente apenas o incômodo por um lugar que perdeu o senso de estética há muito tempo. O Mestre, como é apelidado pelos raros amigos, fecha a janela e volta ao centro da sala.

–- O seu rosto tem belos traços. Sabe disso? Acho que hoje não sabem apreciar esse tipo de beleza. Talvez nem as outras mulheres percebam bem. Este lugar vivia cheio, você teria chamado muita atenção.

O Mestre era o dono daquele apartamento no Leblon, mas lhe faltava dinheiro para o resto. As paredes deviam ser pintadas e os móveis trocados. O pagamento do condomínio era atrasado com freqüência. Familiares lhe pediam para que aproveitasse a valorização do local e vendesse o imóvel. Uma idéia improvável de caber em sua mente, mesmo que agora ele tenha que beber vinhos mais baratos, usar roupas que parecem sair de uma cena produzida pela Embrafilme, e que, entre as dez receitas médicas que possui, tenha que escolher metade para seguir. A sua TV havia quebrado há dois anos, mas não é algo que o incomode em particular. Já o seu aparelho de som é de qualidade, coerente como uma coleção rara de vinis, a qual, é óbvio, ele nunca pensou em vender. Nem todos os álbuns que ele mesmo gravou foram editados em Compact Disc, mas dois dos seus admiradores próximos digitalizaram a sua obra completa, colocando-a em um iPod que lhe foi dado de presente. Se os ruídos externos da cidade haviam perdido nitidez, aquele som íntimo ainda possui todas as nuances. A seu pedido, incluíram álbuns de outros músicos, e agora ele possui tudo o que lhe importa em música – talvez tudo o que lhe importa em geral – contido naquele pequeno aparelho, e esse fato sempre o surpreende. Quando observa as pessoas correndo com fones de ouvido, imagina que a identidade de cada uma delas pode ser definida pelas músicas que escolheram carregar. Por isso, ao ver outra vez a bolsa jogada no canto, aberta, ele procura pelo aparelho que dirá tudo sobre a moça à sua frente.

–- É isto o que você ouve? Parece ser outra daquelas moças que escutam músicas adocicadas demais ou sexuais demais... Essas estrangeiras nem parecem ter harmonia, só a cadência. Você não devia... Vai ficar livre disso... Os sons que nos envolvem, não somos melhores que eles.

Ele leva o iPod dela à cozinha e o joga no lixo. Enche um copo d’água para tomar duas pílulas e volta para a sala, apanhando o violão no canto. O instrumento lhe foi especialmente construído, e apesar de ter ficado próximo da maresia por tanto tempo, mantém a sonoridade única. O Mestre consegue ainda fazer boa parte dos acordes e pesquisa outros desenhos para aqueles que os seus dedos já não permitem. Adora ouvir as dissonâncias – décima terceira bemol ou nona sustenida. A sua voz está cada vez mais arranhada, seca, ele prefere não cantar.

–- Dizem que somos insípidos, ingênuos... Repare, há uma tensão constante na harmonia, notas estranhas, mas a seqüência soa bem. Conseguimos criar algo novo, sutil. Afundar no que é feio, é o caminho mais fácil e tolo.

O violão é interrompido pelo barulho do interfone. Finalmente retornaram os seus dois admiradores e comparsas. Luís é vinte anos mais jovem que o Mestre. No final dos anos sessenta, quando os novos artistas faziam questão de negar ou desconstruir a Bossa Nova, Luís tentou se apropriar dessa estética que já era vista como ultrapassada. Mas o anacronismo foi recompensado mais à frente com shows internacionais, em especial no Japão, e homenagens diversas. Luís hoje é visto como um representante original e ativo de uma música que, na realidade, nunca dominou por completo.

Já Adam é americano e ainda não passou dos trinta. Diferenciava-se na adolescência por ouvir discos antigos, itens que não faltavam em sua casa, como os álbuns de Stan Getz com João Gilberto e de Sinatra com Jobim. O bom gosto musical do pai, que remetia a uma época aparentemente mais compreensível e sofisticada da vida americana, acabou tendo um efeito imprevisto. Adam poderia ter seguido carreira na empresa da família, mas resolveu se dedicar à música. Conhecendo todo o cool jazz dos anos 50, Adam foi se especializando em tocar bossa nova com sotaque em bares de Nova York. Saindo à noite, alguns conhecidos da família por vezes o reconhecem tocando – a opção de Adam lhes parece ter algum charme, mas não deixam de lembrar que ele ainda depende da ajuda dos pais.

De qualquer maneira, Adam trouxe uma agressividade executiva para o que lhe interessava. Na primeira vez que veio ao Brasil aprender com outros músicos, imaginava que a Bossa Nova fosse popular, mas logo descobriu que o interesse aqui não é maior daquele dos nova-iorquinos. Fez contatos e, na sua segunda viagem para cá, conseguiu a um bom preço ter aulas com o Mestre. Este já era mais um símbolo do que um músico de grande performance, praticamente não cantava mais, mas quem resiste ao ídolo, em especial quando se é um dos poucos que ainda o veneram de fato? O Mestre tinha idéias sombrias, mas a Adam parecia fazer sentido ajudá-lo. A logística começou a vir do americano, que agora passa os verões no Brasil. A sua fisionomia estrangeira torna fácil convencer algumas moças do calçadão a segui-lo para o apartamento. Ele é quem sabe comprar e administrar a droga que deixa as vítimas longamente desacordadas. A partir dele, vêm os vestidos de corte antigo, o suborno para que o porteiro não repare em nada, o utilitário para que o transporte seja mais fácil e discreto.

Luís e Adam pedem desculpas pelo atraso. Para chegar ao destino antes do fim da tarde eles terão que apressar tudo. Espalham rapidamente as fotografias anteriores na mesa e decidem onde colocar a moça. Ela já está com um vestido longo, azul, semelhante aos usados na virada para os anos sessenta. Luís a coloca em um canto do sofá e Adam tira a foto. Com cada uma das mulheres fotografada em uma parte diferente da sala, Adam diz que vai conseguir compor uma imagem única, mostrando o lugar cheio. O americano prepara outra seringa, estica o pescoço da moça e injeta. Ela vai morrer sem espasmos ou dor, suave. Junto com pesos de metal, Adam e Luís a fecham em um saco de dormir. Aproveitam o corpo ainda flexível para colocá-la numa grande caixa, usada geralmente para pesca comercial. O olhar do Mestre apenas acompanha, a opinião dele sobre ambos não é segredo: repetem a música mas não a dominam, querem se apossar de algo que, no fundo, não entendem. O violão tem o ritmo certo, mas eles não sabem como variá-lo. Copiam as inflexões do cantar dos outros, mas não sabem encaixar as próprias. Contudo, são apenas os dois que dão atenção às suas estranhas palavras sobre tempo, música, beleza; são os dois que fazem todo o trabalho. “Os simulacros é que hoje agem na prática”, pensa.

Dentro do veículo, já entrando na Delfim Moreira, o Mestre pede que as janelas sejam fechadas. O barulho da avenida e do calçadão é sempre alto demais. E não se trata apenas dos ruídos das buzinas, da discussão no trânsito, do alarme da polícia, mesmo os cachorros com focinheira e as pessoas apenas sentadas na praia, tudo isso parece reverberar de uma só vez. Assim como se mostra barulhenta a Vieira Solto e depois a Avenida Atlântica. Luís possui um bom veleiro no Iate Clube, mas eles acham mais discreto usar um barco simples a motor estacionado no Quadrado da Urca. Eles saem com o barco da Baía da Guanabara e vão rumo sudoeste para ficarem longe o suficiente da costa, mas ainda podendo enxergar Copacabana. Já é fim de tarde, e a luz do sol pára de se exceder, somente envolve a região. Quando finalmente podem desligar o motor, a visão do Rio de Janeiro se mostra calma, extensa. É uma panorâmica complexa, com contornos não triviais, mas nem por isso menos agradável. Abrem a caixa. Eles nem se haviam dado ao trabalho de olhar os documentos, mas é o corpo de alguém que se chamava Solange que jogam ao mar.

–- Esse silêncio profundo, marinho, em que ela está, eu deveria dar a mim mesmo. Porém quero permanecer. A cidade está se destruindo em disparos secos, em socos secos. Mas quero ficar... Em 58, os carros eram bastante ruidosos, mas havia poucos deles. No meu apartamento, ouvia-se a toda hora gente conversando ou tocando, sempre aparecia alguém. Acompanhávamos a copa do mundo pelo rádio. A discussão política, as falas de JK e as propagandas piegas chegavam pelo rádio. Aqueles eram os meus sons. Na época, quase todos no Brasil vivam no campo, sem luz, em noites sem contornos... Despreocupados na minha sala, nós não apenas sentíamos que aquele era o nosso tempo, mas, implicitamente, que tínhamos a ver com o que estava por vir. Não foi a idade que me tirou isso simplesmente. O tempo não é uma contagem abstrata, é um ritmo feito pelas pessoas, solidificado na cidade. Me colocam para fora, mas ainda quero ficar, também posso entender a linguagem do Rio, machucá-lo. Quero ficar ainda.



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