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LITERATURA

Kadaré e sua cidade-pedra fundamental

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Publicado pela primeira vez em 1970, “Crônica na Pedra” é fundamental para os que desejam se aprofundar no universo peculiar da criação do escritor albanês

Marina Della Valle - (19/12/2008)

Gjirokastra, no sul da Albânia, é uma anciã cheia de fatos e lendas, testemunha ocular da história conturbada desse canto do mundo desde o século 12. Dessa cidade-museu saíram dois dos poucos nomes albaneses conhecidos internacionalmente, ainda que por motivos bem diferentes. O primeiro é Enver Hodja, responsável por tornar a Albânia em um mito do socialismo. O segundo é o escritor Ismail Kadaré, que fez dessa velha cidade de nome sonoro a principal personagem de Crônica na Pedra (Editora Companhia das Letras, 275 págs., tradução do albanês de Bernardo Joffily).

Publicado pela primeira vez na Albânia em 1970, o livro é fundamental para os que desejam se aprofundar no universo peculiar da criação de Kadaré, pois concentra embriões de temas posteriores – em seu posfácio, Éric Faye o descreve como uma “tectônica de textos”. Nele, Kadaré narra um momento crucial da história de sua cidade natal e de seu país por meio dos olhos de um menino às portas da puberdade, carregado de elementos autobiográficos, sem nome, como se batizá-lo fosse mera formalidade. Crônica na Pedra relata a vida dos habitantes dessa cidadezinha resiliente durante a Segunda Guerra Mundial, evocando a turbulência do fim da infância e do início da adolescência. À vertigem dos bombardeios se alia o turbilhão das descobertas; pela alternância de poder sobre a cidade ocupada se esgueiram o amor e o sexo, a fofoca e os segredos, enquanto a morte se escancara.

Cicatriz acinzentada

É curiosa a relação do narrador com o cenário que o cerca: a cidade, com seu aspecto fantástico de ladeiras íngremes e revestimento de pedra acinzentada, é humanizada, chora e sangra, enquanto alguns personagens, como o pai e a mãe do protagonista sem nome, são um tanto unidimensionais, com poucos detalhes e pouca empatia. Sabemos mais sobre a cisterna que ulula respostas, os ângulos impossíveis entre os telhados das casas, o porão imenso que serve de abrigo antiaéreo para vizinhos e desconhecidos. À parte a avó, em torno da qual giram notícias e memórias, as personagens mais marcantes não são os parentes, mas os conhecidos – o melhor amigo, a velha que enfeita as noivas da cidade, os jovens Issa e Javer, secretamente seduzidos pelo comunismo, enquanto gregos e italianos se sucedem no domínio da cidade de pedra com rapidez e estardalhaço.

Kadaré, que aborda Gjrokastra em outras obras, dessa vez a reconstrói, mesclando memória, fantasia e mito na narrativa de um observador privilegiado: um menino anônimo, jovem demais para que os adultos se preocupem com ele durante as conversas, mas velho o bastante para se aproveitar dessa quase invisibilidade. Esse olhar curioso é interrompido por fragmentos de crônica, que vão se encurtando e ficando mais dramáticas à medida que o passo do romance acelera e a tensão se constrói. No olho do furacão, a fantasia se extrapola em assombro, enquanto a cidade de pedra permanece, ainda que desfigurada e despovoada, uma cicatriz acinzentada que guarda o passado perante o futuro incerto. Kadaré – ainda que respeitadíssimo em seu país, um fenômeno literário francês – mais uma vez nos encanta com suas histórias de uma Albânia misteriosa, explorando essa imagem borrada e indelével que resiste à globalização e à imagem moderna.



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