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agosto 2001



LIVROS

Sofrimento de pensadores alemães

Dois livros – da mesma natureza, ou seja, “livros-depoimento” –lançados simultaneamente, ilustram a separação profundamente provocada pelas rupturas do século XX na escola filosófica alemã


Sylvie Braibant

A tão prolífica filosofia alemã do século passado organizou-se essencialmente em torno de duas correntes: de um lado a ontologia de Martin Heidegger, e do outro, a Escola de Frankfurt, de inspiração marxista, impulsionada por Theodor Adorno e Max Horckheimer. Entre as duas, e por muitas décadas, reinou uma antipatia tingida pelo desprezo e o ódio. Os dois livros – da mesma natureza, ou seja, “livros-depoimento” – agora lançados simultaneamente ilustram muito bem a separação profundamente provocada pelas rupturas do século1.

A correspondência entre Hannah Arendt e Martin Heidegger contém “lacunas”, ligadas à história política alemã, e os imprevistos de uma relação tortuosa

A leitura da coletânea de cartas entre Martin Heidegger e Hannah Arendt impõe uma primeira constatação: esta correspondência entre dois dos maiores pensadores do século, que abrange cinqüenta anos, é parcial é fragmentada, o que, infelizmente, no decorrer de uma edição cronológica, nem sempre fica evidente. As numerosas “lacunas” ligadas à história política da Alemanha, e também, sem dúvida, os imprevistos de uma relação tortuosa, têm quase tanta importância quanto as “presenças”. E também parcial, pois muitas das cartas de Hannah Arendt não respondem às de Martin Heidegger. Será que o iniciador do existencialismo, voluntariamente, não conservou esses documentos por medo, ou negligência, por estar demasiado preocupado em produzir sua obra? Essa desigualdade, que também revela algo sobre o olhar recíproco dos dois filósofos – além de homem e mulher –, não ofende a pouco feminista Hannah Arendt. A leitura do posfácio de Ursula Ludz, editora alemã da coletânea, é indispensável para uma melhor compreensão das lacunas.

Anders e a Escola de Frankfurt

Em um livro-entrevista, Günter Anders retoma a desesperança positiva, radical e violenta que iria orientar seus engajamentos posteriores

Para quem procure aprofundar-se na história intelectual ocidental, no entanto, ainda há muito o que extrair destas cartas: a evolução de uma relação passional (e que conserva seu mistério) através, principalmente, das linhas de Heidegger, nesta língua única e por vezes desconcertante; as explicações defensivas de Heidegger sobre seu suposto anti-semitismo e seus pavores admitidos – depois de 1950 – com o estouro do comunismo e de uma próxima guerra; as peripécias da tradução de sua obra além-mar; o relato da dedicação de Hannah Arendt aos Heidegger, marido e mulher, apesar das dores do ciúme; e também os questionamentos de Arendt, suas dúvidas para construir seu pensamento, sua antipatia declarada pela Escola de Frankfurt.

Como em um espelho invertido, Hannah Arendt e a Escola de Frankfurt figuram no centro do percurso de Günter Anders, primeiro marido de Arendt, também aluno de Heidegger, também judeu e que emigrou para Estados Unidos após 1933. Muito engajado na luta contra o nazismo, aproximou-se rapidamente de Adorno e Horkheimer, os fundadores, abominados por Arendt e Heidegger, da demasiado esquerdista Escola de Frankfurt. Nesta longa entrevista, concedida ao final de sua vida, Günter Anders retoma a desesperança positiva, radical e violenta, nascida de Auschwitz e Hiroshima, que guiou seus engajamentos posteriores, especialmente contra a energia nuclear e a guerra do Vietnã2. (Trad.: Teresa Van Acker)