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outubro 2000



ORIENTE MÉDIO

Sangue pela paz

A manifestação provocou seis mortos e dezenas de feridos. Dezoito deles, de 8 a 16 anos de idade; e quatorze, de 16 a 20 anos. A imprensa denuncia quem "manda as crianças protestarem e ficam em casa". Essa manifestação deu-se na Palestina... mas em 1945. Os sionistas ocuparam as ruas e foi a imprensa inglesa que os denunciou (citado por Charles Enderlin, Paz ou Guerras. Os segredos das negociações árabe-israelenses, 1917-1997, ed. Stock, Paris, 1997). Cinqüenta anos depois, a volta desse tipo de argumento provoca a indignação de um médico, defensor convicto da paz. Seu grito de cólera deve ser ouvido.


Eyyad El-Sarraj

Algumas pessoas se perguntam, "inocentemente": por que as crianças palestinas são estimuladas a ir para a linha de frente por suas próprias mães, que em seguida vão chorar sobre os seus cadáveres? À primeira vista, a questão parece pertinente. Na realidade, seu enunciado é de ordem patológica.

A verdadeira questão é: por que nossos soldados matam essas crianças? E eu acrescento: algumas vezes a sangue-frio e com tiros precisos. Um tal questionamento deveria logicamente levar a outro: que fazemos nós na terra palestina? Em vez disso, desviam os olhos e consideram essas crianças palestinas como vagabundos e demônios, fazendo pose diante do fuzil, provocando os soldados até que eles as matem. Essas crianças — explicam — não querem viver. Suas mães — insinuam — não têm sentimentos maternos.

Menos que animais...

Reflitamos bem sobre o que está implícito nessas afirmativas: se as mulheres palestinas não sentem afeição por seus filhos, então os palestinos não são de fato seres humanos. Pior: não só não somos iguais aos seres humanos, mas nem mesmo aos cães e gatos, que cuidam de suas crias nos momentos de perigo! É possível que os palestinos sejam menos que animais?

Essas conclusões lembram o que os brancos racistas sul-africanos pensavam dos negros, o que os invasores europeus do continente americano e da Austrália pensavam dos autóctones e dos aborígines, e como os nazistas percebiam os judeus.

Um apelo à razão

O mesmo postulado nega totalmente que os palestinos defendam sua terra e sua dignidade, o que é um direito humano elementar. Sugere que os palestinos seriam violentos por gostarem da violência e que odeiam os judeus simplesmente porque estes são judeus. Quem concordar com esta idéia não tem consciência — ou não quer ter — que Israel ocupa os territórios palestinos de maneira contínua, terrível, destruidora e humilhante. E que muitos israelenses e judeus, em todo o mundo, condenam esta ocupação.

Não deixemos a nação palestina ensangüentada ficar desesperada e façamos ouvir, mais forte que nunca, este apelo à razão.

Traduzido por Gilvando Rios.