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novembro 2007



CRÍTICA

O ressentimento da tropa

Tropa de Elite erra o alvo ao denunciar a suposta cumplicidade da classe média com o crime. O ataque serve de álibi para subestimar os preconceitos que marcam a ação policial e esquecer que uma nova polícia só seria possível num país transformado


Laurindo Dias Minhoto

Vistas de fora, todas as favelas se parecem. No entanto, quem tem de entrar nelas sem ser convidado sabe que isto constitui grossa simplificação. O capitão Nascimento raciocina mais ou menos nesses termos, durante uma das sessões darwinistas de treinamento da elite da tropa.

“Tropa de elite” investe, por um lado, no foco subjetivo, interno à corporação policial. O objetivo é criticar as supostas simplificações da esquerda, nos diagnósticos sobre segurança pública e criminalidade no Brasil contemporâneo. A exposição do método bárbaro de combate ao crime pelas forças da ordem convive de perto, no filme, com o mantra do “polícia para quem precisa de polícia”. É como se a brutalidade da ação de uns e a miséria da reflexão de outros se alimentassem reciprocamente.

Salvo engano, é esse um dos sentidos da “formação” presente no filme. Ou seja, a constatação de que há um ponto cego no diagnóstico de esquerda sobre a crise de segurança pública: a falta de reflexão aprofundada sobre a especificidade das estruturas de repressão ao crime, dentro das balizas do Estado de Direito.

Na narrativa, as “formações” da tropa, do cidadão e do país aparecem entrelaçadas. Ou, mais especificamente: a formação da tropa tem de lidar com o déficit de legitimidade da polícia, que teria como origem a caricaturização feita pela esquerda — e enraizada socialmente no país desde pelo menos o período da ditadura militar. A partir dessa perspectiva, a dissociação entre democracia e polícia constituiria um capítulo relevante da má formação nacional. É sobre ela que importaria lançar luz, elevando o debate público a um patamar supostamente mais elevado de reflexão.

Quando a crítica ao Estado é ofuscada pelo ressentimento contra os "maconheiros"

De outra parte, o foco no sujeito permite denunciar a negligência de sucessivos governos, incapazes de formular e executar uma política pública consistente para as polícias brasileiras. Em conseqüência, elas tendem a reproduzir o favor, a malandragem e a corrupção como dispositivos paradoxais. Condenáveis em si mesmos, eles possibilitam, no entanto, a própria continuidade das ações policiais e, no limite, reforçam o descontrole institucional da corporação.

Aquilo que no filme aparece como o funcionamento do “sistema” constitui prova irrefutável do caráter assistemático das políticas de segurança pública no país. Ao déficit simbólico referido acima, acrescenta-se o sucateamento material da polícia, cujos atores viram-se como podem entre a esfera da ordem e da desordem, mimetizando, no andamento errático de suas ações, a ausência de planejamento institucional e a precariedade administrativa da instituição.

Interessante notar como o personalismo que alimenta a precariedade da tropa comum também se faz presente na formação da tropa de elite. Numa de suas melhores cenas, o filme mostra uma aula do capitão Nascimento sobre o conceito de estratégia. Nas imagens, o arbítrio personalista e o arremedo de inteligência andam de mãos dadas.

É esse mesmo foco interno que possibilita uma crítica implacável ao “shinny happy people” que fuma maconha, participa de ONGs, discute Foucault e alimenta o negócio do tráfico de drogas e de armas. No filme, essa “comunidade” parece personificar o simplismo dos diagnósticos pseudo-progressistas e, nessa condição, é submetida a uma crítica tão radical e truculenta quanto o bárbaro padrão histórico de atuação policial no Brasil contra os de baixo. Trata-se de um nivelamento bastante discutível, que parece evidenciar os limites da perspectiva interna adotada pela narrativa, bem como o travo específico do ressentimento que pontua o filme do princípio ao fim.

É como se o clichê policial – que reduz com freqüência o outro ao estatuto universal do vagabundo e do maconheiro – saísse de mãos dadas com a pregação moral de certa esquerda, retratada no filme como míope e burguesa, e que se expressa no automatismo de equações do tipo “pobreza mais polícia truculenta é igual a política de extermínio” etc. São duas simplificações igualmente perniciosas, parece bradar reiteradamente o filme, justificando nessa medida a truculência regressiva no trato com os de cima.

Esse nivelamento das simplificações opera quando aplica o clichê policial à sua clientela não preferencial: as classes média e alta. Essa inversão, pela qual o “mauricinho” é esculachado como maconheiro e alienado, empresta à narrativa um verniz crítico, que auxilia a amarração de uma das pontas do ressentimento. Está-se vendo que a tropa de elite não brutaliza apenas os desfavorecidos mas também — e significativamente da perspectiva do filme — a consciência alienada dos “bacanas”.

O filme admite, pela porta dos fundos, o moralismo que pretensamente quer exorcizar

Este ressentimento de classe pode seduzir, especialmente por ocultar, ainda que de forma parcial, o sentido mais fundo do comportamento classista da polícia no Brasil. Para além da truculência em si mesma, parece estar aí o sentido regressivo da inversão.

A representação do discurso do falso progressismo como discurso alienado encontra seu ponto máximo, no filme, na cena que desautoriza a passeata de burgueses contra a violência. Este artifício deriva de um traço objetivo da sociabilidade contemporânea: a perda de substância social do discurso e das práticas da nova esquerda, que converte progressivamente a gramática dos direitos humanos em retórica vazia e coreografia patética, carente de conteúdo histórico no cenário de guerra civil e estado de sítio em que nos encontramos.

Ao assumir o ponto de vista da necessária racionalização da segurança pública no país, o filme permite que entre pela porta dos fundos o moralismo que, em princípio, procura exorcizar. Em nenhum momento, Tropa de Elite se dispõe a refletir às claras sobre os limites dessa racionalização no atual contexto brasileiro. É como se o filme impusesse sua tese por decreto narrativo -– uma espécie de AR-15 civilizatório -– e diante da resistência do objeto em se deixar apanhar por esse flanco, só lhe restasse o deblaterar ressentido sobre a pretendida mudança que não veio.

Assim é que o ressentimento do policial incorruptível e truculento contra o burguês inconseqüente parece ser da mesma ordem do ressentimento de quem apostou na via do combate eficiente ao crime (Neto) dentro da legalidade (Matias) e pretendeu, por assim dizer, saltar sobre a nossa própria realidade. Além do que comporta de trágico, não deixa de ser perversa a ironia pela qual o filme torna-se “objeto cultural” no Brasil de hoje, precisamente naqueles aspectos que reforçam esses limites.

Se as favelas são de fato muito diferentes entre si, o que importa, no final das contas, é definir a melhor estratégia de ocupação do próximo morro ou, nos termos do capitão Nascimento, saber se a invasão se dará por mar, por terra ou pelo ar. Esse é o sentido inequívoco da simplificação violenta que tem prevalecido historicamente entre nós.