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janeiro 2008



Janet Malcolm e a busca elusiva por Gertrude Stein

Os que conhecem a autora americana Janet Malcolm sabem que não encontrarão em ’Two lives – Gertrude and Alice’, seu último livro, uma biografia no sentido estrito da palavra.


Marina Della Valle

Durante sua vida, a escritora americana Gertrude Stein (1874-1946) foi um dínamo em direção ao futuro, transpirando e catalisando modernidade durante o difícil período das Grandes Guerras. Hoje, passados 62 anos de sua morte, sua personalidade ímpar, suas experimentações literárias, seu famoso salão em Paris – que reuniu nomes como Picasso e Matisse – e seu longo relacionamento com Alice B. Toklas ainda configuram o retrato de uma mulher muito à frente de seu tempo – para alguns leitores emaranhados no hermetismo de seus textos mais experimentais, uma mulher muito à frente de nosso próprio tempo. Outros, menos indulgentes com seu radicalismo, relegam alguns de seus trabalhos à categoria das obras incompreensíveis.

Os que conhecem a autora americana Janet Malcolm sabem que não encontrarão em Two lives – Gertrude and Alice (Ed. Yale), seu último livro, uma biografia no sentido estrito da palavra. Malcolm, 73 anos, jornalista da prestigiosa revista New Yorker, nutre uma relação muito particular com o gênero, que deriva de acontecimentos também peculiares ao longo de sua carreira. Em 1991, o psicanalista Jeffrey Masson entrou com um processo de US$ 10 milhões contra a autora, afirmando que ela havia fabricado frases atribuídas a ele no livro Nos arquivos de Freud (tradução de Roberto Amado, Record, 1983). Apesar de uma decisão favorável, Malcolm não apresentou gravações das frases em questão, e a publicidade negativa gerada pelo caso arranhou sua reputação.

Seu livro seguinte, O jornalista e o assassino (tradução de Tomás Rosa Bueno, Cia. das Letras, 1990), analisa a relação do jornalista Joe McGinniss com Jefrrey MacDonald, condenado pelos assassinatos da mulher grávida e de duas filhas em 1979. MacDonalds garantiu ao jornalista total acesso à sua defesa. McGinniss deu a entender que acreditava na inocência do acusado mesmo após sua condenação, como mostram cartas enviadas à cadeia. Quando ele finalmente publicou seu livro sobre o assunto (Fatal vision, Putnam Pub Group, 1983), retratou MacDonald como um psicopata. O jornalista e o assassino, uma reflexão sobre a difícil relação entre jornalistas e suas fontes, começa com a seguinte frase: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A tese gerou reações iradas de colegas de profissão, mas não impediu Malcolm de estender sua análise para a relação entre biógrafos e seus entrevistados.

O resultado foi A mulher calada (tradução de Sérgio Flaksman, Cia. das Letras, 1995), uma espécie de metabiografia que mergulha profundamente no caso da poeta americana Sylvia Plath (1932-1963). Brilhante, atormentada e suicida, Plath atraiu diversos biógrafos e estudiosos. Os direitos sobre sua obra e seus manuscritos, no entanto, eram propriedade de seu marido, o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), alvo de ataques de fãs da autora, especialmente entre as feministas, que o consideravam responsável pelo suicídio da mulher. Hughes tornou-se cada vez mais recluso, delegando a tarefa de administrar os direitos sobre as obras de Plath a sua irmã, Olwyn, que não media esforços para protegê-lo de qualquer tipo de interpretação ou representação que julgasse nociva. A relação com os biógrafos de Plath era tensa, e a única obra do gênero que recebeu o apoio dos Hughes, Amarga fama (tradução de Lya Luft, Rocco, 1992), terminou por ser considerada por muitos como uma versão comprometida da vida de Plath. Ao destrinchar as relações entre os irmãos Hughes e a autora de Amarga fama, a poeta Anne Stevenson, e também com outros estudiosos, Malcolm expõe as veias e os nervos do tortuoso contato entre biógrafos e entrevistados, da elusiva busca pela verdade entre memórias e relatos.

Cravando os dentes no mito

Dona dessa bagagem, a autora crava delicadamente os dentes no mito Stein e seu lendário relacionamento com Toklas. Não que Malcolm tenha o hábito de poupar os leitores de aspectos negativos das pessoas sobre quem escreve. Uma de suas marcas registradas é exatamente a habilidade de expor, com precisão cirúrgica, as vicissitudes de seus entrevistados, permeando extensas citações com observações muitas vezes cruéis, mas sempre perspicazes. Alguns fãs de Stein talvez prefiram não saber de certos detalhes de Two lives. Mas a relação de Malcolm com as investigações biográficas e suas possibilidades faz com que sua abordagem sobre uma figura complexa como Stein não seja ofuscada pelo poder contagiante da imagem criada pela própria autora e cultivada ao longo dos anos.

O livro é uma compilação de três longos ensaios originalmente publicados na New Yorker entre 2003 e 2005, com ligeiras modificações editoriais. Na primeira parte, Malcolm examina como Stein e Toklas, judias, lésbicas e já com alguma idade, sobreviveram intactas na França durante a Segunda Guerra Mundial. Instaladas em Vichy, as duas atravessaram o conflito em grande parte graças à proteção de Bernard Faÿ, amigo próximo de Stein, depois julgado por sua colaboração com os nazistas. A segunda parte investiga a relação entre Stein e Toklas e a composição da obra The making of americans (Owen, 1968), e inclui o curioso caso de Leon Katz, estudioso que no começo dos anos 50 contou com o apoio de Toklas no exame minucioso de manuscritos não-publicados de Stein, escritos durante a composição da obra. Katz, que na tese de doutorado resultante da investigação descreve os manuscritos como reveladores, jamais publicou o conteúdo deles. Na terceira parte, Malcolm parte de um exame da complexa relação de Stein e Toklas com suas origens judaicas e expande suas reflexões para questões mais amplas sobre biografias e verdades biográficas, apresentando uma interessante tese sobre A autobiografia de Alice B. Toklas (tradução de Milton Persson, L&PM, 1984) e a visão de Stein sobre o gênero.

A figura mítica da autora habita o centro de questões contraditórias no âmbito biográfico. Como compatibilizar o radicalismo estético de Stein com os registros de opiniões políticas conservadoras, como a admiração por Franco? Como buscar fatos e alcançar a verdade sob a sombra da personalidade marcante da escritora e de seu efeito sobre os que com ela conviveram e registraram suas impressões? É nessa difícil busca por Stein que Malcolm nos guia, sem promessas de verdades ou mesmo de resultados, mas uma companhia sensata durante a empreitada.