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fevereiro 2008



LITERATURA

Arquitetura e intolerância na Barcelona medieval

A Catalunha está no auge de sua prosperidade, pois domina o Mediterrâneo. Mas esse poderio comercial não esconde as marcas de uma sociedade profundamente estratificada.


Dida Bessana

Para resumir em poucas palavras A catedral do mar (Editora Rocco), de Ildefonso Falcones, seria suficiente dizer que é um romance sobre paixão, ódio, inveja, intriga, vingança, assassinato e traição. Ou um volumoso livro cuja narrativa ágil e enredo muito bem estruturado conta a saga de Arnau Estanyol, de sua concepção à maturidade, na Barcelona medieval. E talvez só isso bastasse para justificar o sucesso editorial desta obra que vendeu quase dois milhões de exemplares na Europa [1].

No entanto, esse romance de quase seiscentas páginas, o primeiro do advogado catalão especialista em direito civil Ildefonso Falcones, que viu seu trabalho de cinco anos ser rejeitado por várias editoras até ser publicado pela Grijalbo (Espanha), permite que se acompanhe, quase passo a passo, sem cansar o leitor com informações técnicas, a construção da Catedral de Santa Maria do Mar, da qual tanto o autor quanto o personagem principal são devotos.

Ao contrário: os 55 anos ininterruptos despendidos para que se erigisse o maior templo mariano do período, sob uma única influência – o gótico catalão – e supervisão do arquiteto e mestre-de-obras Berenguer de Montagut, são o período exato para que Falcones situe seu protagonista, Arnau Estanyol, e faça-o crescer, amadurecer e passar de simples filho de servo da gleba a barão.

Esplendor e intransigência

A Catalunha do século 14, como bem retrata o autor, lastreado em minuciosa pesquisa histórica, está no auge de sua prosperidade, pois domina o Mediterrâneo. Entretanto, esse poderio comercial não esconde as marcas de uma sociedade profundamente subdividida segundo a origem e a atividade a que se dedicam seus moradores.

Além das utsages em vigor, como a que determina que meretrizes vistam-se com sedas coloridas para que qualquer um possa distingui-las, a que garante ao senhor feudal o direito de passar a primeira noite com a noiva e a que confina as adúlteras até a morte em um pequeno quarto, alimentadas apenas por pão e água, há as normas de convivência e do vestir regulamentadas rigidamente pelo monarca Pedro III, não à toa alcunhado o Cerimonioso, que interferem diretamente na vida de toda a população.

Quanto aos judeus, parcela de extrema importância econômica nessa sociedade, mesmo não sendo escravos são propriedade real e obrigados a atender aos ditames da coroa, entre eles ostentar um círculo amarelo na roupa e contribuir regular e generosamente com a nobreza.

Como explica o negociante Hasdai Crescas a Arnau: “As comunidades judaicas (depois de expulsas da França em 1183 e da Inglaterra em 1290) tiveram de migrar de um país para outro, deixar para trás todos os seus pertences e suplicar permissão aos reis para se estabelecer nos países para onde iam. Esses reis (...) costumam apropriar- se da comunidade judaica e nos exigem contribuição para suas guerras e gastos”.

Mas a perseguição e a intolerância não se restringem a esse grupo. A Inquisição, que desde 1240 se instala em Barcelona, e conta com tribunais episcopais completamente independentes da jurisdição eclesiástica tradicional, não se furta a nenhum método quando se trata de buscar a heresia, o pecado. Acusado de ser um cristão judaizante por aqueles que invejam a fortuna que construiu, Armau é levado diante do Santo Ofício e seus inquiridores optam por “usar da pressão dialética” porque esta “será mais eficaz que a pressão física”. Neste momento, nem mesmo o irmão de criação de Arnau, Joan, ele próprio um inquisidor, consegue intervir e salvá-lo.

Será a fortuna amealhada em anos de transações comerciais feitas por Arnau, sob orientação de um escravo mouro, que seduzirá os senhores da Igreja e o conduzirá à liberdade.

Porém, apesar do previsível final feliz que concede a Arnau, Ildefonso Falcones consegue surpreender o leitor com a severidade da pena que impõe àqueles que conspiraram, de uma forma ou de outra, contra seu herói.

[1] O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 5/12/2007, p.D14.