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maio 2008



LITERATURA

Poemas

Pedro Marques

O shopping acha meus
olhos desarmados

Mergulho em cada loja
aterrisso num outdoor
já garoto propaganda
aceno aos passantes

Lindo da vida, promocional,
no ritmo rock- tecno- pop
do coração cabide contente
de mais uma marca

***

Venha morar no seu sonho:

Drogaria 24h, Pronto-Socorro de gato,
playground, berçário, supermercado,
academia, uma piscina de facilidades
com segurança altamente adestrada

Entre nesse paraíso de tela-plana:

Um feudo armado até os dentes,
uma casa-grande dia e noite monitorada,
uma república higienicamente-burra,
uma grande família

***

O casal sente que vai me cruzar
e manda aquele beijo de língua

Pior que, às vezes,
tô até sem fome...

Dou de louco e passo reto

Diz que beijo opera milagres,
sei que é bom anti-mendigo

***

Porra-Louca metido a Greenpeace
draga sanduíche de atum,
pechincha colar de índio
que morre de amarelão,

nem sabe andar de bicicleta
e só passa fome quando fuma um

Namorou uma vitrine
que lhe vendeu uma sandália,

cada pé já foi um naco
de jacaré-do-papo-amarelo

Do livro Em Cena Com o Absurdo (1998), em fase de republicação.