logo

maio 2008



LITERATURA

Uma fábula de paredes

Enquanto espia o chuvisco sobre a folhagem da rua, não percebe como a memória apagou os sofrimentos e fechou as feridas. Restam só as imagens de terras exóticas que o fascinaram, lugares não raro ausentes dos mapas


Diego Viana

A um certo estágio da evolução, aprendemos a arte de montar um teto. É para nossa segurança. Mas o teto, logo vemos, não fica suspenso por conta própria. Inadvertidamente, desenvolvemos no ato a técnica de erguer paredes, que sustentam o teto e ainda bloqueiam o vento.

No espaço que essas paredes delimitam, estamos seguros porque estamos em casa. Nessas paredes, penduramos quadros, apoiamos móveis e abrimos janelas. E as janelas nada mais são do que seções envidraçadas das paredes.

Talvez seja mesmo desses retângulos de cristal que venha o perigo. São um convite à imprudência para as almas, quando elas se põem a contemplar o exterior, onde se sucedem tempestades e estios. Acontece, às vezes, de um espírito cair de amores por essa infinitude indeterminada. Basta esquecer que, graças às paredes, ele tem seu nome, sua posição, seu endereço. É conhecido, reconhecido e caracterizado. É alguém, de tal jeito, como se sabe.

Se não tem juízo, a alma aproveita o primeiro dia ameno que lhe indica a janela. Transgride a soleira e vai se queimar ao sol. Descobre ribeiras e vales, cidades fantásticas, línguas estranhas. Toma trens com destinos que são nomes ilegíveis. Fotografa as paisagens, conversa com o maquinista na língua dos sinais e se faz entender.

Por quê?, se pergunta a alma, por que fui inventar de construir paredes? E dá seguimento a sua exploração, cigana, acumulando histórias e memórias.

Mas o espírito peregrino ainda habita o mesmo corpo. Está exposto, lançou-se no mundo aberto, onde as chuvas, de quem se espera que fustiguem, fustigam mesmo. Com a água, o vento que as paredes bloqueavam. E a lama, e o frio.

O viajante dá licença ao cansaço para trepar por suas pernas. Tudo que mais quer é o abrigo de um teto. Mas o teto ainda não fica suspenso por conta própria. A alma toma o rumo da cidade que, na carreira das perambulações, achou mais bela, mais enigmática e prenhe de novidades a explorar. Procura instalar-se por ali. Bem ao centro, eqüidistante das maravilhas todas. Encontra um espaço, um teto, como de hábito, sustentado por paredes. E as paredes ainda bloqueiam o vento.

No espaço que as paredes delimitam, o espírito se sente aliviado e se sente seguro. São paredes nuas, sem quadros, sem móveis. As paredes alugadas a um desconhecido, de cujo nome é difícil se lembrar. As janelas bem foram cortadas. Dão para um mar de histórias passadas, tormentas já sofridas e paisagens que se imitam umas às outras.

O primeiro móvel apoiado à parede é uma cristaleira de antiquário. Para resguardar a delicadeza da louça. Passa o tempo. O espaço assumiu a forma de uma personalidade bem delineada, que o visitante pode apreender no primeiro gesto do olhar.

Ali dentro, o espírito radicado contempla sua única, ampla janela, pensando em como as paredes vieram em seu encalço, embora essas sejam outras e tão diferentes daquelas. Enquanto espia o chuvisco sobre a folhagem da rua, não percebe como a memória apagou os sofrimentos e fechou as feridas. Restam só as imagens de terras exóticas que o fascinaram, lugares não raro ausentes dos mapas.

Na quina do silêncio, um certo impulso reacende. Empurra, de baixo para cima, o cansaço e o conforto. Ofusca o reconhecimento e a identidade. As próximas paredes se erguerão de outro material, em outro canto. Assim será, e assim deve ser, enquanto nos membros houver a força de construir.