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maio 2008



LITERATURA

Cinco aspectos da imagem na literatura

Creio que a insistência em tentar reconhecer (inutilmente) na literatura contemporânea a semelhança com roteiros de filmes parte apenas primeiramente do leitor, que não consegue mais diferenciar de forma clara as duas (ou mais) artes


Renata Miloni

Semana passada, foi publicado no blog literário do jornal The Guardian um pequeno texto sobre a inserção de imagens em livros de ficção. O autor, Stuart Evers, apresentou alguns exemplos de escritores que usaram ilustrações e fotos em seus romances, como W. G. Sebald e Jonathan Safran Foer. Acredito que há diferença entre os tipos de imagem que se pode inserir num romance e que não se deve considerar limitada a criação em certos casos. Mas não acredito que exista algo que não possa ser descrito por palavras, apesar de não ser contra a integração delas com imagens — se bem que talvez seja melhor evitar o uso em nome da criatividade literária.

I

Temos na ilustração a finalidade mais focada em livros infantis. Creio que a imaginação de uma criança tem maiores chances de se desenvolver melhor se for apresentado algo concreto mas não real. Pode uma ilustração completar o que um escritor quer dizer ou é possível que ele use apenas no sentido literal, ou seja, para ilustrar o que ele acaba de descrever em minuciosos detalhes? Creio que desde que uma ilustração seja obra do próprio autor do livro ou encomendada por ele (como foi o caso citado por Evers em seu artigo: Lewis Carroll em Alice no país das maravilhas — mas devo dizer que Carroll foi fotógrafo e que há chances de ter originado daí a vontade de ilustrar o livro), pode acrescentar à história o tom desejado de maneira mais intensa. Mas isso não significa, pelo menos na minha opinião, que todos os livros devam ser ilustrados para que a intenção do autor fique mais explícita.

II

Para analisar um pouco melhor a necessidade que existe em inserir imagem em livros, é preciso lembrar que estamos na era da arte visual, que tudo precisa passar pela aprovação da visão para que possa ser aceito. Inclusive na literatura. Hoje em dia, praticamente todos os livros são analisados a partir do ponto de vista cinematográfico, já não se lê palavras apenas. E, por isso, muitos não consideram o fato de que o cinema mudou, sim, a forma de ler e, por conseqüência, a de escrever.

III

Creio que a insistência em tentar reconhecer (inutilmente) na literatura contemporânea a semelhança com roteiros de filmes parte apenas primeiramente do leitor, que não consegue mais diferenciar de forma clara as duas (ou mais) artes. Antigamente, talvez a intenção em publicar uma imagem em livro fosse completamente distinta da realidade atual. Aliás, há muitos anos, inserir uma ilustração, por exemplo, provavelmente não prejudicava a imaginação do leitor porque o princípio usado pelo escritor era outro. Portanto, o costume de leitura foi modificado.

IV

Já com a fotografia, as possibilidades são mais limitadas, pois não se pode criar um rosto ao fotografar. Mas é, ainda assim, mais eficiente se o próprio escritor for o autor das fotos que por ventura publicar. Para mim, a criação não pode ser considerada genuína, de modo algum, se o escritor incluir uma foto apenas para dizer: "e o olhar que fulano recebeu de seu vizinho foi este". Desta forma, o autor limita sua própria literatura. Se a fotografia estiver presente sem qualquer explicação, deixando para quem lê todas as portas abertas, talvez o escritor consiga expandir seu poder criativo e até celebrar duas artes ao mesmo tempo. E assim pode valer também para a ilustração.

V

O escritor não deve restringir o que escreve, é preciso apenas ter como prioridade a criatividade e entender as conseqüências que esse tipo de escolha terá na imaginação do leitor. Não me refiro durante a escrita, pois neste momento nada é "proibido", mas ao ter o livro como produto final. As palavras são, sim, suficientes. E cabe ao escritor saber quando, como e onde explorar seus caminhos.