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janeiro 2009



LITERATURA

Libertado e traído pela revolução

Nos textos de Babel transitam desde retratos avassaladores de guerra e paz até histórias de amor pouco convencionais


Alysson Oliveira

“Quem era Isaac Emmanuelovich Babel? Um escritor soviético, um escritor russo ou escritor judeu?”, pergunta Nathalie Babel, sobre seu pai, no prefácio de Contos escolhidos (Editora Girafa). Em seu texto, ao mesmo tempo comovente e esclarecedor, Nathalie faz um painel interessante sobre o trabalho do pai, cuja obra, em suas palavras, “desafia classificações”.

A leitura desta coletânea de contos, traduzidos por Cecília Prada, a partir do original em inglês editado por Nathalie e traduzido por Peter Constantine, deixa claro que Babel foi um contista de facetas múltiplas. Em seus textos transitam desde retratos avassaladores de guerra e paz até histórias de amor pouco convencionais.

Nascido em Odessa (“a mais encantadora das cidades do Império Russo [...] na qual se pode viver livremente, facilmente”), em 1894, Babel estudou inglês, francês e alemão – também conhecia muito bem iídiche e hebraico –, mas escreveu em russo. Foi, no entanto, a Revolução Russa que o ajudou encontrar a sua voz como escritor. Na década de 1920, ele estava com os cossacos numa campanha para levar o comunismo para a Polônia. O resultado dessa experiência é a coletânea Histórias da Cavalaria Vermelha, que fez sua fama internacional – e até hoje é a mais conhecida de sua obra.

Babel, porém, era judeu – e o questionamento dessa identidade nunca o abandonou. Ele parece escrever para se compreender, em primeiro lugar. Em Odessa, como ele aponta, “metade da população era composta de judeus, e os judeus são um povo que aprendeu algumas verdades simples durante a sua caminhada”. As tentativas de esconder, ou mesmo se livrar, dessa herança trouxeram força e relevância aos contos do escritor.

Porém, a mesma Revolução que lhe deu sua literatura tirou a sua vida. Em 15 de maio de 1939, foi preso em sua dacha em Peredelkino e levado a uma prisão em Moscou. Seus papéis foram confiscados e destruídos (inclusive obras literárias). Meses depois, após um julgamento injusto de três dias ininterruptos, ele “confessou” ser espião. No ano seguinte, novamente julgado, ele negou as mesmas acusações – mas foi executado em 27 de janeiro por um pelotão de fuzilamento, calando-se assim uma voz da revolução. Os últimos meses da vida de Babel chegam a ser um período kafkiano. “Mas a Revolução é felicidade. E a felicidade não gosta de órfãos em sua casa. [...] A Revolução é a boa ação feita por homens bons. Mas homens bons não matam. Portanto, a Revolução é feita por homens maus”, comenta um personagem.

Tensão e ironia

A obra de Babel tem um ar profético, pois seus personagens parecem estar fugindo de si, de seus passados e identidades, apenas para serem novamente perseguidos por tudo isso. Existe, afinal, uma ambivalência muito grande em seu trabalho. O narrador dos contos de Cavalaria Vermelha possui um nome cristão – como o próprio escritor adotou quando estava em companhia dos cossacos –, mas sua consciência está mais próxima da moral judaica. Suas tentativas de se esconder acabam trazendo tensão e ironia às narrativas.

No primeiro conto deste grupo, por exemplo, intitulado “Cruzando o Rio Zbrucz”, o narrador passa a noite na casa de judeus. No meio de seu sono é acordado pela moça explicando que ele está gritando e chutando o pai dela enquanto dorme, por isso o colocará em outro lugar. Quando ela puxa o cobertor, ele percebe que o homem que pensava adormecido está, na verdade, morto, com a garganta cortada e a cabeça rachada. Ela explica que ele foi morto pelos “polacos” pensando nela, e que pedia para ser executado em outro lugar, e não na frente da filha. Porém, não foi atendido. “Eu quero que me diga onde se pode encontrar um pai como o meu, em todo o mundo”, conclui a órfã.

Em outros contos há uma combinação entre Rússia, judeus e literatura. Num conto chamado “Odessa”, ele não apenas comenta as belezas da cidade, com também fala da população judia, e conclui dizendo que “o tão esperado Messias da literatura sairá de lá – das estepes ensolaradas, banhadas pelo mar”. É como se ele fosse o grande salvador da literatura russa, afinal nasceu na cidade e era judeu. Se tudo isso soa bastante irônico, não é por acaso.

Os outros contos (divididos em “Primeiras Histórias”, “As Histórias de Odessa”, “O Ciclo da Cavalaria Vermelha: histórias adicionais” e “Contos – 1925-1928”) mostram a importância de Babel não apenas para a Rússia, mas também para a literatura universal. Suas narrativas curtas nunca receberam a atenção e o prêmio que merecem. Parece que Tcheckov se tornou o grande mestre do conto – uma honra justa, mas que merecia ser divida com Babel, que em poucas páginas é capaz de criar verdadeiros mundos, ou mesmo reflexos desses mundos, sempre carregados de questionamentos e considerações sobre a guerra e a paz, e sobre a vida.