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fevereiro 2003



DOSSIÊ IRAQUE

As regras da desinformação

A manipulação da informação tem certas regras: a crise que antecede uma guerra é levada ao paroxismo, o Estado inimigo é transformado em demônio e seu chefe é apresentado como “aventureiro”, “psicopata”, “comunista” ou “nazista”


Eric Rouleau

Sob o disfarce de “comunicação”, todos os governos praticam, em maior ou menor escala, a desinformação. A manipulação da informação torna-se moeda corrente em tempos de guerra, quando qualquer coisa serve para mobilizar a população: a divulgação de meias verdades, de mentiras – por omissão, ou não –, de boatos não verificáveis. Apresenta-se a guerra como “justa”, “inevitável” e “defensiva”. Torna-se “preventiva” quando um Estado toma a iniciativa do conflito, violando as convenções internacionais que têm justamente por objetivo banir a lei da selva das relações entre os Estados.

A desinformação tem certas regras. A crise que antecede o conflito é levada ao paroxismo, o Estado inimigo é transformado em demônio: seu chefe é apresentado como uma pessoa profundamente malévola, podendo ser tachado de “aventureiro”, de “psicopata”, de “comunista” ou de “nazista”. Do iraniano Mossadegh1 ao iraquiano Saddam Hussein, passando pelo egípcio Nasser, pelo líbio Kadhafi e pelo palestino Yasser Arafat, todos tiveram direito a esses epítetos pouco corteses. O presidente do Iraque ba’athista – que já foi um respeitado aliado dos Estados Unidos e da França, entre outros – metamorfoseou-se, subitamente, num déspota incontestável, num “novo Hitler”. Os contestadores, os refratários a essa propaganda, os partidários de uma solução diplomática são, de imediato, rotulados de “derrotistas” ou, na melhor das hipóteses, de “ingênuos”. E, assim, o debate é rapidamente escamoteado.

Uma agência de “Influência Estratégica”

Do iraniano Mossadegh ao iraquiano Saddam Hussein, passando por Nasser, Kadhafi e por Yasser Arafat, todos tiveram direito a epítetos pouco corteses

Desde o fim da guerra fria, nunca haviam sido acionados instrumentos tão consideráveis para preparar a opinião pública para um confronto militar com o Iraque. Mestres incontestáveis nas tecnologias da informação, os Estados Unidos revelaram-se artífices inigualáveis nessa matéria. Dentro do governo, uma legião de “departamentos de comunicação” – da Casa Branca ao Pentágono, passando pela CIA e pelo Departamento de Estado, sem falar dos assessores de “relações públicas”, contratados a peso de ouro – empenha-se, segundo a terminologia oficial, em “conquistar os corações e as mentes” para a estratégia do presidente George W. Bush, que tem por objetivo “normalizar” o Iraque pela força.

Não sem algumas trapalhadas. Em fevereiro de 2002, estourou um escândalo quando se soube, graças a uma indiscrição, que o Pentágono tinha criado, durante o outono precedente e no mais absoluto sigilo, um Departamento de Influência Estratégica com o objetivo de intoxicar a opinião pública, através de intermediários – habilidade suprema – que viriam a ser agências de notícias estrangeiras (no caso, a Agência France Presse e a Reuters). Diante da gritaria no Congresso e na imprensa, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, foi obrigado a apresentar suas desculpas e anunciar o fechamento daquele escritório – que logo se apressaria a substituir por outro sob a denominação inócua de Departamento de Projetos Especiais.

Seria a onda anti-americana?

Os contestadores, os refratários a essa propaganda, os partidários de uma solução diplomática são rotulados de “derrotistas” ou de “ingênuos”

O estratagema não agradou a todos os neo-conservadores partidários do governo. Um dos “falcões” mais ostensivos de Washington, Frank Gaffney, amigo pessoal de Rumsfeld, publicou um violento artigo contra uma “esquerda” que estaria tentando privar os Estados Unidos de um instrumento de guerra indispensável2. O presidente da fundação Center for Security Policy – cujo lema é “Promover a paz pela força” – apelou para Winston Churchill, citando-o: “A verdade é por demais preciosa para que não seja protegida por um cortejo de mentiras.”

À primeira vista, as mentiras injetadas em alta dosagem não surtiram os efeitos terapêuticos antecipados. Contra todas as expectativas, raramente um projeto de guerra provocou tantas perguntas, tanta oposição. Jamais os países europeus – tanto a opinião pública quanto a maioria dos governos – foram tão reticentes para com seu aliado norte-americano. Jamais os Estados árabes estiveram tão unidos na condenação de uma aventura que tem por objetivo, afinal de contas, livrá-los de um Saddam Hussein que inspira medo e desprezo à maioria deles. Será que se deveria atribuir esse estranho consenso à onda de anti-americanismo que se propaga pelo mundo? Sem dúvida, mas não é isso o fundamental, como confirma a evolução da própria opinião pública norte-americana. Traumatizada pelos atentados de Nova York e Washington, apoiou seu presidente quando, dois meses depois, ele desencadeou sua cruzada contra o Iraque.

Trapalhadas e vexames de Bush

Em fevereiro de 2002, soube-se que o Pentágono criara, em sigilo, um Departamento de Influência Estratégica com o objetivo de intoxicar a opinião pública

Mas as pesquisas revelam que a proporção de norte-americanos favoráveis à guerra não pára de diminuir. Em dezembro de 2002, a maioria deles (68%) opunha-se à guerra se o Conselho de Segurança das Nações Unidas não desse seu aval. E, mais significativo ainda, 72% dos norte-americanos (entre os quais, 60% de filiados ou simpatizantes do Partido Republicano) avaliavam que seu governo não havia fornecido “provas suficientes” que justificassem a guerra3. Portanto, já não acreditam em Bush quando este afirma, repetidamente, que a “ameaça iraquiana” é “séria” e “iminente”. A oposição implícita ou explícita à guerra – manifestada, entre outros, por oficiais superiores do Pentágono e do Departamento do Estado, por vários funcionários de alto escalão que serviram a governos anteriores, por empresários, pelos chefões da indústria cinematográfica de Hollywood – dá uma medida do desencanto da opinião pública norte-americana. Tornou-se evidente, portanto, que o produto não era vendável.

As tentativas de associar o Iraque aos atentados de 11 de setembro de 2001 e, de modo geral, ao terrorismo internacional, fracassaram rotundamente. O presidente Bush ainda teve que se submeter a desmentidos vexatórios após ter garantido que o Iraque produziria ogivas nucleares num prazo de seis meses e que já possuiria drones (aviões teleguiados). Os desmentidos foram emitidos, respectivamente, pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e pela CIA. A suspeita de que Bagdá fosse responsável pelo envio de cartas contendo antraz a diversas personalidades e empresas também se revelou infundada; e, ainda mais desagradável, pesquisas revelaram, acidentalmente, que aquela variedade de antraz, assim como as armas biológicas, eram maciçamente produzidas nos Estados Unidos.

Uma imagem de pureza imaculada

À primeira vista, e contra todas as expectativas, raramente um projeto de guerra provocou tantas perguntas, tanta oposição, quanto o atual

A desconfiança – é o mínimo que se pode dizer – generalizou-se a partir da acusação de que o Iraque teria armas de destruição em massa. Principalmente porque Washington até hoje se recusou a fornecer a mínima prova – não só aos membros do Conselho de Segurança como também aos inspetores de desarmamento da ONU – e rejeitou o convite de Bagdá para que realizasse sua própria pesquisa, enviando peritos da CIA. Não foi o próprio Donald Rumsfeld que declarou, sem rir, que “a ausência de provas não é prova da ausência de armas de destruição em massa”? A credibilidade do secretário da Defesa não foi exatamente insuflada quando alguns espíritos-de-porco lhe lembraram, apesar de seus desmentidos, que ele fora o artífice (os arquivos do Pentágono o comprovam) da cooperação entre o Iraque e os Estados Unidos no início da década de 90, por ocasião da guerra Irã- Iraque, e que facilitara o fornecimento de armas químicas que Saddam Hussein utilizara para lançar gás contra a população, os soldados iranianos e os curdos do Iraque4...

A imagem de pureza imaculada do presidente George W. Bush também não colou. Na verdade, só num acesso de amnésia ou de cegueira é que alguém poderia levar a sério o chefe da Casa Branca quando jura que um de seus principais objetivos é libertar o povo iraquiano da tirania e implantar uma democracia na Mesopotâmia. As pessoas que retêm na memória a legião de ditaduras apoiadas por Washington – hoje, como durante as últimas décadas – só podem ver nisso mais uma hipocrisia. A própria opinião pública norte-americana, tradicionalmente partidária do papel messiânico dos Estados Unidos – cultivado ao longo dos séculos por seus presidentes, de George Washington e Abraham Lincoln a Woodrow Wilson5 –, não pôde deixar de levantar algumas questões, repetidas por vários jornalistas. Por que seria necessário sacrificar nossos boys para assumirem um papel que é do povo iraquiano? Por que eliminar o regime do presidente Saddam Hussein e não outro, mais sanguinário, de Kim Jong Il, presidente da Coréia do Norte que, além do mais, possui ogivas nucleares e mísseis de longo alcance?

A desinformação norte-americana

As tentativas de associar o Iraque aos atentados de 11 de setembro de 2001 e, de modo geral, ao terrorismo internacional, fracassaram rotundamente

A desinformação também pode ser revelada pelo não-dito. O mutismo dos dirigentes norte-americanos quanto a suas expectativas econômicas e geopolíticas é intrinsecamente eloqüente. Nada se encontra, nas declarações oficiais, sobre os benefícios previstos para um Iraque satelizado, nada sobre a importância das reservas petrolíferas daquele país (as segundas maiores do mundo, depois da Arábia Saudita), nada sobre o peso e a influência do país na região do Golfo, nada sobre os fabulosos contratos de reconstrução que as indústrias norte-americanas poderiam facilmente vir a obter com o beneplácito de um governo “democrático”, nada sobre a extensão e consolidação da hegemonia norte-americana no Oriente Médio e, mais além, sobre o previsível crescimento da importância estratégica de Israel diante de um mundo árabe fragilizado e ainda mais exposto ao diktat de uma pax americana. Como essas considerações são suprimidas pela maioria dos principais meios de comunicação norte-americanos, a opinião pública daquele país só retém os aspectos secundários ou técnicos da guerra anunciada.

No entanto, seria fácil tomar conhecimento da face escondida da estratégia norte-americana procurando, por exemplo, os documentos da fundação Project for a New American Century6, da qual Bush é o reflexo perfeito. Dois desses estudos, com jeito de manifestos, datados de junho de 1997 e setembro de 2000 – ou seja, três meses antes da posse do presidente norte-americano –, definem os fundamentos ideológicos, políticos, militares e econômicos do que deveria ser a política externa dos Estados Unidos.

O “destino histórico” dos EUA

O mutismo dos dirigentes norte-americanos quanto a suas expectativas econômicas e geopolíticas é intrinsecamente eloqüente

Elaborados por uma falange de neo-conservadores e de representantes do complexo militar-industrial, esses estudos são assinados pelos principais pilares do atual governo: Richard Cheney, vice-presidente da República, Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, Paul Wolfowitz, subsecretário da Defesa, Jeb Bush, irmão do presidente, Elliott Abrams, recentemente nomeado assessor da Casa Branca para assuntos do Oriente Médio, e Richard Perle, presidente do influente Conselho da Política de Defesa, anexo ao Departamento da Defesa, para citar apenas alguns.

O objetivo manifesto dos signatários é o de garantir “a supremacia planetária” dos Estados Unidos, impedindo, particularmente, que outra potência industrial desempenhe um papel importante no cenário internacional ou regional (os países europeus não são nominalmente citados). Recomenda-se uma política unilateralista, assim como o eventual recurso a guerras preventivas, com o objetivo de defender “os valores e os interesses” dos Estados Unidos. A ONU consta como um “fórum para esquerdistas, anti-sionistas e anti-imperialistas”, à qual só se deve recorrer se apoiar a política de Washington.

O problema iraquiano é abordado exclusivamente a partir do ângulo dos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Não se discutem a ditadura de Bagdá, nem a violação de direitos humanos, nem a existência de armas de destruição em massa, nem maquinações terroristas, mas, pura e simplesmente, a necessidade de manter, por um prazo indefinido, bases norte-americanas no Golfo, “esteja ou não Saddam Hussein no poder”. Os signatários fazem um alerta: “A única superpotência planetária” corre o risco de não cumprir seu destino histórico se não souber aproveitar as “oportunidades” que se lhe apresentarão. Essa ordem do dia passou a vigorar após os atentados de Nova York e Washington em setembro de 2001 – uma oportunidade, se é possível dizer, caída do céu.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Primeiro-ministro iraniano, “culpado” pela nacionalização do petróleo em seu país. Por esse motivo, foi vítima de um golpe de Estado fomentado pela CIA, em 1953, dois anos e meio após sua posse.
2 - National Review Online, 21 de fevereiro de 2002.
3 - Los Angeles Times, 17 de dezembro de 2002.
4 - Washington Post, 30 de dezembro de 2002.
5 - Ler de Norman Bornbai, “Aux racines du nacionalisme américain”, Le monde diplomatique, outubro de 2002.
6 - www.newmaericancentury.org