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maio 2003



O PÓS-GUERRA IMPERIAL

Uma bofetada na civilização

As forças da coalizão não só trucidaram e humilharam o povo e a cultura do Iraque, mas esbofetearam a civilização ao permitir os saques e o vandalismo no Museu Nacional. O legado iraquiano perdido nesta guerra pertencia a toda a humanidade


May Muzaffar

A história relembra a invasão de Bagdá pelos mongóis, no século 13 com desprezo. Mas eles eram tribos bárbaras, e não os senhores do mundo

Ao longo da História, há milênios que os rios Tigre e Eufrates vêm sendo testemunhas de inúmeros desastres, o mais célebre dos quais foi a invasão de Bagdá, já então uma metrópole, pelos mongóis, no século 13 depois de Cristo. A herança cultural de séculos inteiros esbarrou nesse primeiro desastre humano. A história relembra esse período com desprezo. Mas os mongóis eram tribos bárbaras, e não os senhores do mundo.

Os dois rios continuam fluindo. Poderiam contar a história daqueles vasos quebrados, da era pré-sumeriana, que atualmente se encontram expostos, em pedaços, numa das salas do museu. A grande estátua do rei jaz decapitada, apenas um corpo abandonado, como os cadáveres iraquianos nas ruas de Bagdá. A mais antiga harpa do mundo – a harpa de ouro, sumeriana – desapareceu. Assim como se evaporaram, em poucas horas, a bela cabeça de mulher de Warka, os tesouros dos reis e rainhas de antigamente, e os milhares de objetos e velhas tábuas ainda não decifradas. Também desaparecidos estão os velhos manuscritos, esses exemplares do Corão que datam dos primeiros séculos do islamismo.

Algumas dessas peças já estão a caminho do mercado mundial de obras de arte.

Referência perdida

Evaporaram, em poucas horas, a bela cabeça de mulher de Warka, os tesouros dos reis e rainhas de antigamente, e os milhares de objetos e velhas tábuas ainda não decifradas

Com suas coleções que datam da Antigüidade e do início da era islâmica, o Museu Nacional sempre constituiu uma referência para os pesquisadores, os críticos de arte e os artistas. Simbolizava o vínculo entre o passado e o presente. Ao longo de sua história, foram muitas as guerras e rebeliões que devastaram, no Iraque, grande parte de seu legado. Os grandes museus do mundo expõem as peças mais importantes das civilizações iraquiana, mesopotâmia e islâmica. Haverá, certamente, quem entenda que os iraquianos não são dignos desses tesouros...

Sua raridade e originalidade distinguem esses objetos fabricados da Antigüidade. Cada peça tem uma dimensão simbólica. Porque esta permanece, até nossos dias, como um elemento característico da arte iraquiana. Os artistas desse país nunca foram meros artesãos. Foi necessária a chegada do modernismo para que, finalmente, fosse reconhecido o seu valor artístico. Isto, sem dúvida, porque Malraux, em seu prefácio ao livro de André Parrot sobre a Suméria1, observou: “Agora, não só as descobrimos, mas descerramos os olhos e vemos, finalmente, que são autênticas obras de arte, e não apenas peças de museu.”

Agressão contra a civilização

Destruindo a herança do Iraque, seu povo e sua arquitetura, varreram-se milênios de cultura da humanidade

Do passado ao presente, do Museu Nacional ao Museu de Arte Moderna de Bagdá, saqueados e incendiados, surge uma linha contínua. Nosso passado é o nosso presente. A guerra e a superpotência nos roubaram os dois, durante esta segunda guerra do Golfo.

Foi uma agressão contra a civilização. Destruindo a herança do Iraque, seu povo e sua arquitetura, varreram-se milênios de cultura da humanidade. As forças invasoras do país mais poderoso do planeta atravessaram vastos oceanos, espezinharam os corpos martirizados de crianças, de mulheres, de jovens e de outros mais idosos, utilizando-se da tecnologia militar mais moderna para se apoderar dos poços de petróleo iraquianos.

Infelizmente, as forças da coalizão não só trucidaram e humilharam o povo e a cultura do Iraque, mas esbofetearam a civilização. O legado que o Iraque acaba de perder nesta guerra pertencia a toda a humanidade.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Sumer, NRF, col. “Univer des formes”, Paris, 1960, 392p.