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junho 2003



ECONOMIA

Quando The Economist pensa contra si mesmo

Diante do êxito da Malásia, que impôs o controle cambial para responder à crise financeira de 1997, violando um dos cânones mais sagrados da ortodoxia liberal, badalado semanário econômico liberal faz auto-crítica


Bernard Cassen

“Durante muito tempo, este jornal afirmou que o controle da movimentação de capitais devia ser proscrito em qualquer caso”

É uma verdadeira retratação, o que acaba de fazer The Economist, altivo guardião da ortodoxia liberal: o controle da movimentação de capitais teria algo de bom! O semanário britânico tem convicções, mas também respeita fatos. “Pensar contra si mesmo” não se limita a ser uma retificação ambígua ou uma embrulhada para convencer o leitor: é um editorial completo e o artigo de conclusão de um amplo tema que assinalam a abrupta mudança de opinião1.

Lembrando que a Malásia respondeu à crise financeira de 1997-1998, “violando um dos cânones mais sagrados da ortodoxia econômica: a imposição de um controle cambial”, The Economist constata que esse procedimento teve pleno êxito. Em seguida, faz uma autocrítica: “Durante muito tempo, este jornal afirmou que o controle da movimentação de capitais devia ser proscrito em qualquer caso. Ora, deduz-se dos dados analisados neste tema que o mercado mundial de capitais é turbulento e perigoso, particularmente para as economias pouco desenvolvidas, mal equipadas para nele navegar. Certamente, o controle cambial não é a melhor maneira de se preparar para isso, mas, para determinados países, vale mais do que não se preparar de forma alguma.” O semanário menciona em seguida, favoravelmente, o caso do Chile, que impôs taxas sobre a entrada de capitais para lutar contra sua volatilidade.

“Mesmo que isso signifique uma certa desordem, os economistas liberais deveriam reconhecer que os controles da movimentação de capitais se justificam.”

Conclusão: “Mesmo que isso signifique uma certa desordem, os economistas liberais deveriam reconhecer que – em certos casos e dentro de certos limites – os controles da movimentação de capitais se justificam.” Segue-se uma admoestação transatlântica: “Ao negociarem novos acordos de livre-comércio com o Chile e Cingapura, os Estados Unidos exigiram recentemente uma liberalização completa da conta de capital. Experiências amargas fazem pensar que essas exigências são um erro. Está mais do que na hora de revisar a ortodoxia econômica a esse respeito.”

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Ler o editorial “A place for capital controls” e o artigo “A slightly circuitous route” sobre o tema “A cruel sea of capital. A survey of global finance”, The Economist, Londres, 3 de maio de 2003.