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agosto 2003



FRANÇA

Empresas de segurança de perfil duvidoso

O desafio da lei francesa de repressão da atividade mercenária é desencorajar a criação no país de empresas de tipo anglo-saxão, que acumulam a experiência de antigos generais, o mercado de armamento pesado e logística para grandes operações


Barbara Vignaux , François Dominguez

O projeto de lei de repressão da atividade mercenária possibilita que se processe pessoas jurídicas, organizações e sociedades, inclusive de origem anglo-saxã

Nenhuma empresa francesa se dedica a atividade abertamente mercenária. Uma única estabeleceu essa ambição, o grupo Octógono, e teve vida breve, de 1995 a 1998. Sem dúvida, essa é a razão pela qual a ministra da defesa, Michèle Alliot-Marie, explicitava, durante a discussão do projeto de lei de repressão da atividade mercenária, diante da Assembléia Nacional, em 3 de abril último: “O projeto também inclui a possibilidade de processar pessoas jurídicas, organizações e sociedades, muitas vezes de origem anglo-saxã”.

Contudo, essa situação poderia mudar. De acordo com um agente dos serviços especiais, “assiste-se à emergência de um mercenariato da marinha, homens de 50 a 70 anos que ocupam-se de verdadeiros contratos de segurança”. Dessa maneira, depois do golpe de Estado de 16 de março de 2003, na República Centro-Africana, os negociadores sucedem-se em Bangui na esperança conquistar um mercado lucrativo: o da organização do exército do governo e a constituição de uma guarda presidencial (paga, por falta de dinheiro, com concessões de mineração). A concorrência é dura. Os mercados da África francófona, tradicionalmente reservados aos franceses, sofrem a concorrência crescente dos sul-africanos, especialmente na Costa do Marfim e na República Democrática do Congo.

Um elo humano

As empresas anglo-saxãs acumulam a experiência de antigos generais, do mercado de armamento pesado e a logística necessária a operações de grande envergadura

Se nada impede de pensar que as empresas de segurança bem implantadas nos países africanos propõem, como suplemento, serviços militares (fornecimento de armas, de instrutores...), as provas são poucas. O caso mais conhecido é o de Paul Barril, que à testa da empresa Secrets, se impôs como “vice-rei” da República Centro-Africana até a deposição de presidente Ange-Felix Patassé, em 16 de março de 2003. Oficialmente conselheiro do presidente, Barril tornou possível a compra de muitos helicópteros de combate russos, muito apreciados na África para reprimir rebeliões. Outro policial do Elysée reconvertido, Robert Montoya, dedicou-se aos mesmos tipos de atividades na África Ocidental. E a Geolink, grande empresa francesa de serviços de telecomunicações por satélite, recrutou mercenários para o Zaire em 1997.

O elo mais importante entre as empresas de segurança privada e os mercenários permanece... simplesmente humano. Entre duas operações, os mercenários, na qualidade de antigos militares, tornam-se agentes de segurança, na França ou no exterior, para PHL Consultants, Geos, Eric Sa, African Security ou a empresa inglesa DSL (que tem uma estação de transmissão na França). Trabalhando em conjunto, esses homens podem mobilizar, no momento oportuno, redes comuns. Entretanto, se está longe das empresas de tipo anglo-saxão, que acumulam a experiência de antigos generais, do mercado de armamento pesado e a logística necessária a operações de grande envergadura. A lei de 3 de abril de 2003 vai desencorajar qualquer veleidade em criar tais estruturas na França?

(Trad.: Teresa Van Acker)