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junho 2004



EDITORIAL

As 50 vozes da Resistência

Na grande festa de comemoração dos 50 anos do Le Monde diplomatique, 5 mil pessoas se reuniram e ecoaram a reflexão de 50 personalidades comprometidas com a transformação do mundo, como João Pedro Stédile, José Bové, José Saramago, Eduardo Galeano, Naomi Klein e Noam Chomsky


Dominique Vidal

Ignácio Ramonet dedicou a Pierre Bourdieu sua reflexão sobre a generalização das mentiras do Estado, que colocam nossas sociedades em “estado de insegurança informacional

Há algo curioso no silêncio da maior parte das grandes mídias em relação à grande festa organizada pelo Le Monde Diplomatique, em 8 de maio de 2004, no Palais des sports na porta de Versailles, em Paris, em comemoração a seu 50º aniversário1. Como se a ausência de televisões e de rádios pudesse ocultar o evento. O fato, no entanto, é esse: 5 000 pessoas reuniram-se, durante dez horas, em torno de cinqüenta “vozes da resistência” – as das personalidades que vieram da França e do mundo inteiro, e também as de cantores e músicos, franceses e estrangeiros, todos estavam lá gratuitamente. Filósofos, escritores, ensaístas, sindicalistas, militantes: esses reencontro de intelectuais engajados foram um eco dos grandes movimentos pela paz do pós-guerra, até mesmo dos Congressos anti-fascistas do anos 1930. Nesse dia, houve muitos discursos, tão diversos quanto os oradores. Todos tinham, porém, um ponto em comum: não eram palavras de circunstância, eram reflexões, refinadas e profundas, sobre o mundo saído da guerra-fria e sobre a melhor maneira de transformá-lo. Era como um diálogo entre participantes – europeus, americanos do Norte e do Sul, africanos, israelenses e palestinos, asiáticos – na mesma onda, com suas convergências e suas divergências.

“Novo internacionalismo”

Depois de uma entrevista de vídeo dada por Noam Chomsky que, dos Estados Unidos, analisou os fundamentos da hiperpotência americana. Ignácio Ramonet dedicou a Pierre Bourdieu sua reflexão sobre a generalização das mentiras do Estado, que colocam nossas sociedades em “estado de insegurança informacional”. Companheiro de Jean Moulin, Raymond Aubrac começou construindo uma ponte entre os Resistentes de hoje e aqueles de ontem, e cujo apelo mais recente, com o qual concluiu é: “Criar, é resistir. Resistir, é criar.” Como, por exemplo, o sul-africano Zackie Achmat, que, como seu Treatment Action Campaign (TAC) fez uma bela batalha contra a AIDS e pelo acesso igual aos tratamentos, o coração das novas lutas sociais. Para o filósofo Etienne Balibar, o “fim das utopias” pede um “novo internacionalismo”; e incitou o Le Monde diplomatique a trabalhar para isso, dar mais espaço à “contradição” e rejeitar o discurso ininteligível (tecniquês). Graças ao vídeo, tivemos o rosto magro, mas o olhar brilhante e a voz elegante de Edward W. Said, prematuramente desaparecido no final de setembro de 2003: “Eu talvez não seja um bom profeta, mas não penso que o processo de Oslo nos levará longe2”, diz ele. Em seguida o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Se não podemos adivinhar o que será a época, ao menos temos o direito de imaginar o que queremos que ela seja”. Esse direito, ele o tomou, e sua poesia entusiasmou o público que o escutou em silêncio. Impressionante. De volta aos combates cotidianos, com José Bové, para quem os camponeses constituem, na escala planetária, uma força determinante – ele concluiu conclamando à manifestação contra a “Fazenda celebridades”, expressão do desprezo pelo mundo rural! Depois da canadense Naomi Klein, que denunciou a guerra americana no Iraque, o sindicalista Claude Debons enfatiza o novo élan das lutas sociais, com seus fracassos (e seus recuos) e seus sucessos (os recalculé-e-s3) – o realismo deve rimar com voluntarismo...

Uma conclamação à “impaciência”

José Saramago conclamou à “impaciência contra a resignação e o conformismo. A impaciência contra todo os que nos fazem perder a paciência”

“Antes de ontem, eu era tratado como comunista, ontem, como narcotraficante e hoje, sou terrorista”, contou o índio boliviano Evo Morales, líder e deputado dos camponeses produtores da coca: o que Washington e seus aliados não suportam, são simplesmente as reivindicações populares, a começar pela moratória da dívida. O antigo dirigente de esquerda e filósofo italiano, Toni Negri, antes de arrasar o Império e as nações, fez uma bela homenagem ao Diplô: “Quando ele chegava na prisão, sua leitura coletiva era um momento de luta eficaz contra a repressão e a depressão”. De Régis Debray veio uma sugestão original e simbólica: a transferência da sede das Nações Unidas para Jerusalém. Ao final de uma severa crítica da democracia ocidental, esvaziada de seu sentido, o Premio Nobel português José Saramago conclamou à “impaciência”: “O momento chegou de perguntarmo-nos se a salvação da democracia não reside, exatamente, na impaciência dos cidadãos. A impaciência contra a resignação e o conformismo. A impaciência contra todo os que nos fazem perder a paciência”. Depois vieram várias mulheres, em abundância. Christine Delphy construiu, do ponto de vista misto um balanço, sem complacência, das aquisições do movimento das mulheres, antes de lembrar essa “simples idéia”: “A auto-emancipação é uma luta levada pelos opimidos e para os oprimidos.” Ex- ministra da cultura do Mali, Aminata Dramane Traoré não se esquivou das questões postas pelos erros cometidos na África desde as independências, mas insistiu: “Se a África é ingovernável, é porque ela é governada do exterior por atores anônimos que não têm que prestar contas a nossos povos”. A Secretária-Geral da Anistia Internacional, a bangladeshiana Irene Khan evocou os crimes cometidos em Guantanamo e em Abou Graib, nos quais ela vê “a conseqüência da impiedosa ‘guerra contra o terrorismo’ conduzida por governos independentemente do preço em matéria de valores e princípios”.

Contra o anti-semitismo e todos os racismos

Espantosa a imagem de Jacques Derrida, um dos maiores intelectuais franceses, cuja língua é muitas vezes qualificada de “difícil” e que, no entanto, foi seguida por um impressionante silêncio e por milhares de rostos atentos. Seu chamado à mobilização contra o anti-semitismo e contra todos os racismos foi aplaudido vigorosamente. Depois, João Pedro Stédile, porta-voz dos sem-terra do Brasil, conclama a Europa a resistir à hegemonia norte-americana. Com o prefeito de Caracas, Freddy Bernal, que com um pequeno livro azul nas mãos (a constituição da Venezuela), defende a obra da revolução bolivariana, o Palais des sports vai atingindo o seu fim. Ele se conclui em cima de uma causa cara ao coração de todas e todos: Israel e a Palestina. O historiador israelense Gadi Algazi, um dos animadores da associação judeu-árabe Taayoush, e Leila Shahid, delegada geral da Palestina na França, não se contentaram em convocar à solidariedade: eles pensaram em voz alta, com a sala ainda cheia, nessa hora adiantada. O primeiro mostrou como o movimento pacifista israelense, em outros tempos, grande apreciador de imagens e de símbolos, busca, hoje, no terreno, tateando, formas de ação mais concretas e por isso, mais duradouras. A segunda, após ter convocado Gadi para ficar a seu lado, explica que, nesses tempos de “choque de civilizações”, “israelenses e palestinos ganharão em conjunto ao coexistirem, finalmente, cada um em seu Estado – ou perderão em conjunto, e o mundo inteiro com eles”. De mãos dadas, eles foram interminavelmente aplaudidos.

Uma canção para cada um

Os artistas também souberam reunir um público de grande diversidade de idades, de origem e de horizontes. Os mais jovens – exatamente esses que escutaram com atenção os discursos dos convidados – se encontraram diante do palco para dançar ao ritmo das canções de Gnawa difusão, Tyken Ja Fakoly e Bonga. Os mais antigos vibram com Paco Ibanez – comovendo com Temps des cerises, retomado por 5000 vozes – e com os auxiliares no vídeo Juliette Gréco e Jean Ferrat. Todos os gêneros se expressaramm para que cada um se encontrasse em uma canção (Sapho, Kent, Gilles Non, Tryo), o rap (La Rumeur), o jazz (Manu Dibango, Bernard Lubat, Akosh S), o humor (Plagiat), em um programa aberto para as áreas revolucionárias da companhia Jolie Môme e concluiu com Marcel Khalifé acompanhado por seus filhos... Por volta de 23 horas, com a equipe do Diplô no palco, foi marcado o 100 º aniversário. E antes disso, caso uma outra ocasião permitir aos amigos do Monde diplomatique de se reencontrarem para uma outra festa?... O Palais des sports deixou com vontade...

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - TV5, France Inter, France Info e France Culture forma as únicas mídias a darem a notícia. Notamos, contudo, que antes do Palais des sports, a agência France Presse, a Associated Press, Radio France internationale, TSF, L’Humanité, Libération, La Tribune et Le Monde haviam dedicado um artigo ao 50º aniversário do Monde diplomatique.
2 - Era um trecho de se discurso de conclusão no Colóquio dos historiadores israelenses e palestinos, organizado em 14 de maio de 1998 pelo Le Monde diplomatique e pela La Revue d’études palestiniennes.
3 - Essa palavra refere-se aos desempregados que se mobilizaram para garantir direitos que estavam sendo cortados e estão tendo alguns ganhos, por isso o nome recalculé.